SÓ NÃO SE ENGANA QUEM CEDE AO MEDO DE CAMINHAR NO DESCONHECIDO - SÓ SE PERDE AQUELE QUE NÃO ESTÁ SEGURO DO RUMO QUE ESCOLHEU.

terça-feira, 30 de março de 2010

30 de Março - Dia da Terra Palestina (("Yawm Al-Ard")


Nesta data, nas terras invadidas da Palestina, nos campos de refugiados e na emigração e, em sinal de solidariedade, um pouco por todo o mundo, os palestinianos realizam um dia de protesto e de resistência contra a criminosa e genocida ocupação sionista, comemorando o 34.º aniversário do seu “Dia da Terra”.

Há trinta e quatro anos (em 30/3/1976), como resposta ao anúncio pelo governo sionista de Israel de um plano de colonização com a confiscação de terras em território palestiniano para construir novas colónias e ampliar localidades judaicas, foi organizada uma greve geral pelo povo da Palestina e tiveram lugar importantes acções de protesto e manifestações em diversas cidades árabes. O governo israelense, através do seu exército nazi-sionista, reprimiu violentamente a greve e as manifestações com tanques e artilharia pesada. O saldo do confronto foram seis jovens mortos, 96 feridos e cerca de 300 presos.
Desde então, o 30 de Março, tornou-se anualmente numa de comemorações e de manifestações, realizadas não só por cidadãos palestinos, mas por árabes e pelos demais cidadãos que em todo o mundo se manifestam solidários com o povo palestiniano.



Nas últimas décadas não mais foi interrompida esta política anexionista de Israel, com o roubo de novas terras aos palestinianos, demolindo casas e expulsando à força os seus moradores, construindo novos colonatos contra as numerosas resoluções da ONU que determinam a retirada dos sionistas de todos os territórios ocupados desde a "guerra dos seis dias", em 1967. Tripudiando sobre essas resoluções, escarnecendo da indignação internacional contra a sua política expansionista e de feroz "apartheid", o Estado de Israel e os seus alternantes governos -ora compostos por partidos da extrema-direita e do "centro", ora constituídos pelo partido "socialista" local, mas todos sempre e até hoje com o descarado apoio dos EUA -, prosseguiram com a sua ofensiva militar e genocida contra o povo palestiniano.

Prosseguem as prisões de jovens palestinianos que protestam e lutam contra a ocupação da sua pátria, que se vão juntar aos mais de 11.000 prisioneiros palestinianos que Israel mantém aprisionados em condições humilhantes, sujeitos às mais selváticas sevícias. É nestes centros de detenção dos sionistas que se "formam" os instrutores de tortura que Israel envia para vários países para ajudarem governos"amigos", como o da Colômbia, p.ex..
As ofensivas actuais contra a Faixa de Gaza e o seu balanço de morticínio de inocentes, e de destruição terrorista de casas e de todas as infra-estruturas de apoio à vida, são a impune continuação dos massacres de Sabra e Chatila no passado. A Faixa de Gaza é a berço da Intifada e constitui a base de apoio mais firme do Hamás, organização política palestiniana que obteve a maioria dos votos para governar aquele território e que se nutre de uma militância justamente radicalizada pelas condições insuportáveis de miséria e de opressão. Por isso, aqui o objetivo de Israel é destruir as organizações palestinas e quebrar a resistência da população à ocupação colonial para poder concretizar sua “solução final” para o conflito e acabar com qualquer aspiração de auto-determinação nacional.

Em todos os territórios ocupados, visando pulverizar a nação palestina e impedir a construção de um Estado palestiniano viável, a política de Israel visa aterrorizar a população, através de assassinatos "selectivos” , bombardeamento dos acampamentos de refugiados densamente povoados, humilhação em postos de controle, toques de recolher constantes, prosseguindo a construção de muros verdadeiramente da "vergonha", mas vergonha para a opinião pública mundial e para as organizações internacionais - especialmente a ONU - que vão assistindo passivamente ao extermínio de um povo inteiro.
Hoje, contra a ofensiva sionista em curso, a nossa solidariedade e a nossa denúncia são fundamentais no apoio à justa luta de libertação nacional do povo irmão da Palestina!

julio filipe

quinta-feira, 25 de março de 2010

Vaticano - um centro "espiritual" e "moral" repugnante


Sabemos o papel de activo coadjuvante do capitalismo que a alta hierarquia da Igreja Católica, desde sempre, desempenha por todo o mundo, tendo nestas últimas décadas esta parceria activa reforçado laços e intensificado as actividades, com vantagens recíprocas. As suas ligações sujas com a banca internacional, os seus colossais interesses económicos e empresariais, não deixam margem para dúvidas, quanto ao seu campo de classe: sempre ao lado do capital e do imperialismo, contra os trabalhadores e os povos. Nada disto constitui novidade.
Também de há muito são comuns as vivências amancebadas de muitos padres, obrigados por um hipócrita mandamento de castidade a manter na clandestinidade as suas relações sexuais com as "ovelhas" dos seus "rebanhos", sendo por isso alvo da tradicional chacota popular tantos párocos, ao tentarem esconder (alguns, nem por isso) com uma peneira o sol radioso das suas filharadas, com alguns casos célebres mais conhecidos, tornados verdadeiros "proletários", tal a dimensão das suas proles...
Estas práticas hipócritas sempre foram toleradas com bonomia pelas populações católicas, confrontadas com a sofrida contradição entre a desumana regra da castidade para os padres e a compreensão dos apelos da carne que a todos os seres humanos aflige por igual.
A duvidosa moralidade de uma hierarquia que rigidamente mantém práticas dogmáticas, ao arrepio dos tempos e das mudanças, teimando em desespero, é inteiramente merecedora da crítica e da condenação que hoje lhes fazem vastas parcelas das comunidades católicas e das opiniões públicas nacionais.
Exemplos gritantes desta falsa moralidade do clero católico são as suas vesgas e reaccionárias posições sobre o direito das mulheres a decidirem a interrupção voluntária da gravidez e sobre a proibição da utilização do preservativo nas relações sexuais, sabendo-se hoje ser esta a única medida segura para conter o flagelo universal da AIDS e de outras DST's.
Todo este contexto retrógrado e amoral vem marcando negativamente o papel - político, social, cultural - da alta hierarquia cardinalícia, nomeadamente o seu chefe supremo, o papa.
Mas o que é novo, a novidade - chocante e condenável novidade -, está hoje centrado nas denúncias diárias e crescentes, avassaladoras, das criminosas práticas pedófilas de numerosos padres que vêm sendo relatadas pela Imprensa em todo o mundo e, confrontado com elas, nas seráficas e revoltantes respostas do Vaticano a essas denúncias, depois de ver gorarem-se as suas anteriores manobras para as ocultar e/ou desacreditar. Pior: depois de descreverem abusos sexuais cometidos por padres sobre crianças e jovens em vários países, agora as denúncias passaram a atingir directamente a figura do papa, ao reportarem crimes de pedofilia praticados ao longo dos anos e ocorridas na própria diocese alemã chefiada pelo antes cardeal Joseph Ratzinger e hoje Bento XVI.
Revelando as suas concepções corporativas criminosas e a aura de impunidade de que julgam usufruir, as autoridades eclesiásticas e os próprios representantes do papa para a comunicação social vêm insistindo na linha dos desmentidos pífios, procurando revidar e acusando as fontes das denúncias de má-fé, quando numerosas delas se tratam de declarações na primeira pessoa de indivíduos adultos que foram agredidos quando crianças, com identificação dos criminosos e das respectivas dioceses. Vejamos algumas notícias hoje, quinta-feira, veiculadas pelas agências informativas:

"O furacão da pedofilia, depois dos Estados Unidos e da Europa, chegou na Alemanha, pátria do papa, depois na diocese do papa, agora dentro do Vaticano, na Congregação da Doutrina da Fé, onde Joseph Ratzinger foi prefeito, apontando para a sua responsabilidade directa", disse Marco Politi, um especialista em assuntos do Vaticano. A denúncia de novos casos de pedofilia envolvendo um padre americano, divulgada pelo jornal The New York Times nesta quinta-feira, tornaram o quadro ainda mais grave.
Segundo aquele analista, após o caso denunciado pelo jornal, "o importante não é mais saber o que foi feito nas dioceses dos Estados Unidos, da Alemanha, Irlanda ou Holanda, mas sim o que houve com os 3 mil casos (decerto só a ponta do "iceberg"!) de abusos assinalados ao Vaticano". "Monsenhor Charles J. Scicluna, (promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé) afirmou dias atrás que houve 3 mil denúncias de abusos contra menores nos últimos dez anos. O que aconteceu com estas denúncias? Quantas foram julgadas? Quantos religiosos foram considerados culpados e quantos foram punidos? É preciso dar explicações e não admitir mais que os casos sejam ocultados", disse ainda Politi.

"O papa disse que deve haver punição e que as vítimas não foram ouvidas. Deve então ser coerente com esta linha e abrir os arquivos do Santo Ofício. Tendo feito uma carta (aos irlandeses) tão rigorosa e transparente, ou volta atrás sobre a transparência ou deve ir até o fim", afirma Politi, acrescentando: "O papa está numa encruzilhada e terá que abrir os arquivos secretos da Congregação para a Doutrina da Fé, se quiser ser coerente com a transparência que defende".

Segundo a mencionada notícia do "The New York Times", o Vaticano havia sido informado a respeito dos abusos cometidos pelo padre Lawrence Murphy, que molestou cerca de 200 crianças de uma escola para surdos no Estado do Wisconsin, ao longo de 24 anos, mas não tomou nenhuma providência.
Este jornal afirma ter tido acesso aos documentos que as vítimas apresentaram à Justiça, entre eles a correspondência entre os bispos dos Estados Unidos e as autoridades do Vaticano, entre elas o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (*) e o seu vice, cardeal Tarcisio Bertone, actual secretário de Estado Vaticano.
Mas observemos agora o descaramento das respostas e a "qualidade" dos argumentos utilizados pelos serviços do Estado do Vaticano, a par da conivência manifesta das autoridades judiciais, neste caso as estadunidenses.
Numa nota assinada pelo seu porta-voz, Federico Lombardi, é afirmado que "algumas das vítimas de padre Murphy denunciaram os abusos para o tribunal civil nos anos 70, mas as investigações não prosseguiram e o Vaticano teve conhecimento dos casos apenas 20 anos depois" (é a clássica e mentirosa resposta do "não sabíamos de nada"!...). Ainda segundo este porta-voz do Vaticano, o sacerdote acusado não foi punido e expulso da Igreja porque o direito canónico não prevê "punições automáticas" mas recomenda que seja feito um processo (recomendações... leva-as o vento!) que pode levar até à expulsão do religioso.
E, a fechar "com chave de ouro" estas respostas papais, a edição do "L'Osservatore Romano" (jornal oficial da Santa Sé) diz que a denúncia feita pelo The New York Times, tem o "ignóbil objetivo de atingir o papa e seus colaboradores de qualquer forma". E, ainda não satisfeito, acrescenta este jornal pouco "católico": "A tendência que prevalece na média é a de não dar atenção aos factos e forçar as interpretações (esta tirada, vinda de quem passa a sua "santa" e milenar existência a promover "interpretações", só mesmo para rirmos e desopilarmos) para difundir uma imagem da Igreja Católica como se fosse a única responsável por abusos sexuais", acusando ainda o "The New York Times" de não respeitar a verdade.
Aguardemos os próximos desenvolvimentos da polémica entre os dois "prestigiados" jornais, assim como esperemos os próximos episódios das denúncias que se sucedem ultimamente em catadupa na Imprensa.
Mas o que para aqui e agora nos interessa prioritariamente é analisarmos o procedimento dos mais altos representantes do Vaticano. Confrontados com a dimensão internacional (sistémica, afinal) do escândalo moral e político que as práticas pedófilas dentro da igreja católica está a originar, o que fazem? Eles, que assentam a sua doutrina e autoridade sobre as comunidades católicas pela afirmação dos fundamentos da fé cristã, com os seus dez mandamentos, exigindo que pratiquem o bem, que amem o próximo como a eles mesmos, defendendo em palavras a verdade e todas as outras virtudes morais que sustentam há séculos o edifício ideológico religioso, eles o que fazem, quando numerosos padres católicos são denunciados pelas práticas imorais e de bestialidade da pedofilia? Rejeitam o apuramento dos factos, escondem dentro da corporação os criminosos, usam o seu poder político, manipulam as entidades judiciais, escarnecem das denúncias das vítimas dos pedófilos, recusam a assunção das responsabilidades que lhes cabem, como responsáveis máximos por tudo o que se passou (e passa!) dentro da sua igreja.
Aquele execrável argumento que usaram para se furtarem às acusações, acusando o jornal - "...difundir uma imagem da Igreja Católica, como se fosse a única responsável por abusos sexuais." - diz tudo sobre os criminosos inconfessos que são, diz tudo sobre a incomensurável dimensão da amoralidade que tomou conta deste Vaticano, forçando à vergonha milhões de católicos que decerto não se revêem nestas práticas e as condenam, que concerteza as repudiam com tanta ou mais indignação que os não-católicos.

Destes altos dignitários do Vaticano, ninguém poderá dizer, "Perdoai-lhes, senhor, pois não sabem o que fazem", porque manifesta e comprovadamente eles sabem bem o que vêm fazendo, ocultando e dando cobertura a crimes hediondos contra crianças indefesas e à sua guarda, crimes contra a dignidade humana. Exactamente como muito bem sabem dos crimes pelos quais são co-responsáveis, dia-a-dia cometidos impunemente contra os explorados e de mão dada com os exploradores, os crimes genocidas e as guerras de rapina contra os povos oprimidos, todos eles crimes de lesa-humanidade pelos quais todos nós, crentes ou ateus, temos a obrigação moral e o dever político de firmemente os responsabilizarmos.



(*) Nota: O tribunal do Santo Ofício, ou Inquisição, era o antigo nome da actual Congregação para a Doutrina da Fé, órgão da cúria romana responsável pela ortodoxia da Igreja Católica e pelas questões disciplinares. Joseph Ratzinger foi prefeito da congregação de 1981 até 2005, ano em que foi eleito papa.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Saudação fraternal aos camaradas gregos

Ao observarmos o desenvolvimento da luta de classes na Europa, designadamente nos países que integram a UE, torna-se manifesto que na Grécia se estão travando os combates mais renhidos. Este país, transformado no alvo prioritário da recuperação da ofensiva neoliberal no palco europeu, vive actualmente sob uma violenta ofensiva do capital, através da acção do seu "novo" governo "socialista" do PASOK, acabado de ser "eleito" e já transformado em autêntico aríete contra os direitos dos trabalhadores gregos, apostado em destruir conquistas sociais dos assalariados alcançadas pela luta ao longo da vida de várias gerações, cumprindo assim, caninamente, as directrizes dos grandes da UE. Cortes nos salários e nas pensões, redução de 30% nos subsídios de Natal e nas férias, aumentos drásticos nos produtos de primeira necessidade, em numerosos serviços, aumentos nos impostos directos e indirectos, tudo orientado pelo propósito de descarregar sobre os rendimentos do trabalho o custo de uma política económico-financeira desastrosa para o povo e destinada a fomentar a concentração e a centralização do capital, tudo sob o "manto diáfano" da "crise", provocada por este último.



Opondo-se a esta ofensiva do neoliberalismo, na primeira linha do combate está o PC grego, cumprindo honrosamente o seu papel de partido da classe operária e dos trabalhadores gregos, denunciando vigorosamente as políticas anti-populares e anti-nacionais dos governos de serviço, organizando a resistência, mobilizando as energias dos segmentos mais avançados do operariado e de outras camadas assalariadas, conclamando-as à luta, insuflando vontade e determinação, apontando o caminho dos combates contra o capital e iluminando o seu rumo na direcção do Socialismo. Numa manifestação de grande combatividade e dignidade, os deputados comunistas eleitos no Parlamento grego decidiram abandonar o local, no momento da votação destas medidas anti-operárias e anti-nacionais.


Sob a direcção política dos comunistas marxistas-leninistas gregos, os Sindicatos e outras organizações de classe vêm organizando e concretizando uma vaga de greves e manifestações que colocam, sem dúvida, o proletariado grego na vanguarda da luta de classes nos nossos dias. Demonstrando um ânimo e uma combatividade admiráveis, este último ano e meio ficará a assinalar um dos períodos mais ricos da história contemporânea da Grécia. O ascenso das lutas de classe é particularmente notável neste último mês, com a convocação de quatro greves nacionais e gerais, paralisando os mais importantes sectores de actividade, acompanhadas de grandes acções de rua em mais de sessenta cidades gregas, com uma participação continuada e aguerrida de muitas dezenas de milhares de manifestantes. As imagens e os vídeos destas manifestações, divulgados pelos sindicatos e pelos camaradas gregos, são verdadeiramente impressionantes, pelo seu carácter massivo, pela presença de muitos milhares de jovens, pela determinação combativa que evidenciam.

Considerando a sua importância política, justifica-se a transcrição da última posição do KKE sobre a luta de 11/3, numa tradução pouco rigorosa mas na qual - nisso confio - se procura garantir o seu sentido essencial.


"Na quinta-feira 11 de Março, as ruas em 68 cidades e vilas foram rios caudalosos, com a determinação de trabalhadores, jovens, mulheres e pensionistas demonstrada pelo PAME.
Foi a quarta greve em um período de um mês, que ficou marcada pela participação do povo em massa e pela sua dinâmica.
Dezenas de milhares de pessoas protestaram contra os cortes graves e as medidas fiscais que foram iniciadas pelo grande capital e votadas pelo governo social-democrata do PASOK, junto com o LAOS, nacionalista, e também apoiados pelos liberais da ND e pela Federação Helénica de Empresas.
As classes assalariadas, orientando as suas forças, travaram mais uma dura batalha contra a intimidação lançada pelos patrões e seus agentes, o que enriqueceu a experiência militante do povo trabalhador. Muitas pessoas conseguiram superar as suas hesitações e entraram em greve pela primeira vez.
Mais uma vez, a demonstração prática da experiência de mobilização do PAME foi muito maior do que o trabalho de sapa organizado pelas lideranças de sindicatos e confederações dos amarelos, GSEE ADEDY. Mais uma vez os grevistas viraram as costas aos sindicalistas amarelos.

Tanto a preparação da greve, bem como o planeamento para o próximo período, consolidou a necessidade de organização da classe trabalhadora. Além disso, deixou claro para amplos segmentos das camadas populares que a derrota do ataque não será concretizada através de uma demonstração ou em um dia. E este é o medo da plutocracia: o facto de que os milhares de trabalhadores aguerridos, através das mobilizações multiformes da PAME, constituem uma base importante não só para a resistência da classe trabalhadora, mas também para o seu contra-ataque. E a razão é porque participaram de uma luta que não se vira contra um governo ou uma mera lei, mas contra o próprio desenvolvimento capitalista que serve as empresas multinacionais, ou seja, contra o cerne do problema e não apenas contra alguns aspectos do problema.
Mais uma vez, lutaram pela PAME piquetes de greve de grandes fábricas e superfícies que paralisaram desde o amanhecer. Além disso, portos, aeroportos e estações de metro fecharam, enquanto em Atenas a circulação ferroviária foi operada por algumas horas, a fim de facilitar aos trabalhadores a participação na manifestação.
Vasilis Petropoulos, membro do Secretariado Executivo da PAME, que foi o principal orador do comício da greve, mencionou: "Não há riscos a nível nacional, nenhum dever nacional apela aos trabalhadores para sacrificar os seus direitos, existe apenas a ganância dos capitalistas para o lucro ".
Aleka Papariga, secretário-geral do CC do KKE disse na média de massa: "Não confie nas declarações do governo. Não confie no patrão e nos seus agentes mandados. Eles mentem, eles intimidam os trabalhadores, eles esperam que parem de lutar, de modo a promover medidas piores. O pior está para vir. Assim, é necessário continuar e intensificar a luta. "

As manifestações foram muito fortes. Quando os blocos de massa passaram em frente à sede da Federação Helénica de Empresas jogaram tinta vermelha, o que simbolizava que os seus lucros estão pingando com o sangue dos trabalhadores. No início desta semana o presidente da Federação tinha feito declarações provocatórias afirmando que, na Grécia, "os industriais são os únicos que fizeram sacrifícios" ...
A mobilização dos trabalhadores em greve se reuniu com o bloco dos trabalhadores despedidos das companhias privatizadas "Olympic Air" que não receberam qualquer indemnização por despedimento e bloquearam a Panepistimiou Street, a rua mais central de Atenas, desde o último dia 8, reivindicando o seu direito ao trabalho.
O PAME esteve ao seu lado apoiando-os desde o primeiro momento. O governo e o capital exigiu-lhes, com ameaças e intimidações, para acabarem com a concentração e até os seus lacaios foram mobilizados: Alexis Tsipras, chefe da SYRIZA e presidente da SYN, que é membro do Partido da Esquerda Europeia (ELP), afirmou que: "Se 200 pessoas bloqueiam a Panepistimiou Street, eles próprios têm de perceber que essa forma não vai fazê-los ganhar os direitos que reivindicam ". Completamente de acordo com a sua declaração foi também a MP do SYRIZA, Papadimoulis, que disse: "Não concordo com essa forma de luta, porque prejudica a sua luta". As suas declarações apoiaram a intervenção do Ministério Público, com o objetivo de intimidar os trabalhadores despedidos, que impuseram com a luta que "a lei é o que é justo para os trabalhadores", um slogan que só os oportunistas de SYN que representam o Partido da Esquerda Europeia e os sindicatos das centrais amarelas GSEE e ADEDY(*) não entendem, bem como a CSI e a CES, que também se opuseram activamente à luta.

A greve em 11 de Março, enviou uma mensagem clara: a multiforme mobilização dos trabalhadores vai continuar no próximo período, afirmando que os trabalhadores não farão sacrifícios para os lucros da plutocracia.



Pelo acompanhamento que é possível fazermos, designadamente na net, a par do que esta nota relata sobre a passada jornada de 11/3, o sítio do KKE (http://inter.kke.gr/) divulga também vídeos nos quais se vê edifícios do Estado por todo o país ocupados pelos trabalhadores em greve, nomeadamente o edifício sede do Ministério das Finanças. Nalguns panos e faixas os manifestantes escreveram: "Não queremos ser os escravos do século XXI".

Ainda nesta terça-feira (16/3), voltaram a ocorrer greves e manifestações, em Atenas e noutras cidades, com a participação de milhares de manifestantes.


Sabemos que os trabalhadores e o povo gregos são no momento um alvo prioritário na campanha mediática orquestrada pelos meios de manipulação do grande capital que dirige a UE, com o objectivo de um selvático ensaio intimidatório daquilo que os dirigentes desta Europa dos monopólios querem desencadear sobre todos os trabalhadores e povos europeus.

Em Portugal, com o anunciado "Programa de Estabilidade e Crescimento" do governo "socialista"- já justamente alcunhado como um autêntico "Programa da Exploração Capitalista" -, é manifesto que a cartilha capitalista é a mesma, só diferindo nas tácticas utilizadas. Outros países estão igualmente na mira do capital - Irlanda, Espanha, Itália, como mais adiante também a França, a Inglaterra e outros.

As notícias que vão chegando de vários países da Europa apontam para um novo período de intensificação das lutas dos trabalhadores e dos povos, resistindo à nova vaga neoliberal em desenvolvimento. É necessário, é imperioso tudo fazer para assegurar o sucesso das lutas em preparação, alargando o campo proletário e democrático de resistência e combate contra as manobras do capital.


Entretanto, o exemplo exaltante dos camaradas gregos aí está a apontar o caminho correcto a todos os revolucionários, na Europa e no mundo. A sua firmeza ideológica, a sua determinação combativa, a sua capacidade política para unir e organizar os trabalhadores e a juventude, trazendo-os à luta pelos seus direitos e apontando-lhes corajosamente o socialismo como a única alternativa actual ao capitalismo, são factos que para todos os comunistas os tornam um exemplo e um poderoso estímulo. Por tal razão, é nosso dever prestar todo o apoio e toda a solidariedade militante e internacionalista aos camaradas gregos, verdadeiros lutadores de vanguarda, inteiramente merecedores do nosso apreço e da nossa fraternal saudação.



(*) Nota: Em imagens que já se tornaram usuais por todo o mundo, constituindo em várias latitudes uma peça corriqueira na encenação da ideologia reformista da conciliação de classes, enquanto os trabalhadores gregos iam corajosamente à luta os dirigentes amarelos posavam para as câmaras de televisão e jornais do grande capital, empenhados nos enganosos "diálogos sociais" com os representantes do governo e das confederações capitalistas.

sábado, 13 de março de 2010

A lista da “Forbes” e os seus contrastes violentos e chocantes



Aqui no Brasil, a imprensa dominante exulta com a divulgação da “promoção” de um brasileiro que acaba de ser publicada pela revista “Forbes”, especializada na publicitação mediática de bilionários, no seu balanço para 2010. Trata-se de Eike Batista, que acaba de ascender à condição de 8º mais rico homem do mundo, com uma fortuna estimada em 27 bilhões de dólares e galgando muitas posições desde a sua anterior classificação, quando era o 61º.
Ao câmbio do dia, uma verba correspondente a cerca de 19.832 milhões de euros, ou seja, uma riqueza pessoal equivalente, por exemplo, ao salário mínimo português pago durante um ano (a quatorze meses!) a 2.982.255 trabalhadores, ou – estas comparações são intermináveis – igual a mais de quatro anos de trabalho garantido para os 700.000 portugueses desempregados.
Além de Eike, entre banqueiros e empresários, o Brasil tem mais 17 pessoas com fortunas acima de US$ 1 bilião, segundo a mencionada lista anual, divulgada na quarta-feira. O país tem o maior número de bilionários da América Latina.

Claro que, na óptica da comunicação social do capital brasileiro, é uma classificação muito “honrosa”, não obstante o 1º classificado neste escandaloso "ranking" ser um mexicano, Carlos Slim, com uma fortuna calculada em 53,5 bilhões de dólares(*), destronando este ano o anterior “vencedor”, o estadunidense Bill Gates.

Segundo a “Forbes”, o número de bilionários no mundo subiu de 793 no ano passado para 1.101, mas ainda abaixo dos 1.125 contados em 2008 (uma queda dramática!). Actualmente, os bilionários no mundo têm em média 3,5 bilhões de dólares, o que representa um aumento de 500 milhões de dólares sobre o último ano, ano de “crise”, está bem de se ver. Considerados os dez primeiros da lista, o total dos seus "pecúlios" cresceu de US$ 254 bilhões para US$ 342 bilhões, um aumento de 34,6%! Entre estes, há quatro bilionários oriundos de países "emergentes" - além de Slim e de Batista, aparecem os indianos Mukesh Ambani e Lakshmi Mittal, na 5ª e na 6ª posições, respectivamente, com 29 bilhões e 28,7 bilhões -, países "emergentes" que usualmente são considerados os “bons exemplos” para aqueles países que ambicionem conseguir um crescimento económico “milagroso”...

Numa versão fina do usual “dar lugar aos novos”, sempre segundo aquela revista, este ano entraram na lista 97 novos membros do “clube”, dos quais – atenção, muita atenção mesmo! – estão fazendo a sua estreia (verdadeiros debutantes!) 62 bilionários da Ásia, um "avanço" que permitiu à China fixar-se como o 2º país com o maior número de bilionários - 64! -, logo após os Estados Unidos, isto sem contar com mais outros 25 bilionários originários de Hong Kong.

Voltando ao empresário brasileiro Eike Batista, reza a sua encomiástica biografia que a sua fortuna começou a ser construída no início dos anos 1980, no “ramo” do comércio de ouro e diamantes, com negócios posteriormente estendidos ao petróleo e gás, mineração, energia, logística e estaleiros. Facto carregado de simbolismo, todas as companhias de Eike têm a letra “X” no nome, numa referência descaradamente explícita ao sinal matemático da multiplicação… Nos últimos anos, o bilionário Eike decidiu redireccionar integralmente para o Brasil as suas actividades, pois este país “é um dos melhores lugares do mundo para se fazer negócio”, segundo as suas próprias palavras.
Do ponto de vista do capital, assim parece ser. Só nos primeiros dias deste mês de Março, o saldo positivo na Bolsa brasileira, entre entradas e saídas de movimentações, no investimento em dólares, atingiu os 1.450 milhões, obrigando de novo o Banco Central a comprar 780 milhões da dominante moeda norte-americana, procurando “enxugar” esta nova inundação de dólares da especulação financeira, operada pelo grande capital multinacional.

Entretanto, no país real, outros são os dados da realidade brasileira. Já anteriormente neste espaço ("Davos, os Emergentes...", 31/01/10) se trataram alguns dos seus aspectos económicos e sociais.

Segundo os números acabados de divulgar pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Económica Aplicada), 12,6% da população total brasileira – cerca de 24 milhões, dos quase 190 milhões de brasileiros - vive em situação de indigência, classificação que no Brasil é dada aos que têm uma renda mensal inferior a 1/4 do valor do salário mínimo - fixado este ano pelo governo em 510 reais (cerca de 211 euros)-, ou seja, pessoas obrigadas a sobreviverem com menos de 128 reais (53 euros), enquanto outros 32% dos brasileiros – cerca de 61 milhões de pessoas – (sobre)vive em situação de pobreza, designação usada para aqueles que têm um rendimento menor que 1/2 do salário mínimo, isto é, 255 reais (106 euros).

Segundo a análise da pesquisadora do IPEA, Luciana Jaccoud, se hipoteticamente fossem retirados três dos principais subsídios sociais de assistência aos mais necessitados – o Bolsa-Família, outros benefícios previdenciários e o BPC (Benefício de Prestação Continuada de Assistência Social) – os índices de indigência e de pobreza pulariam, passando a representar, respectivamente, 23,4% e 43,7% da população brasileira.
Mesmo consideradas as diferenças nos custos de vida respectivos, dá para nós, portugueses, imaginarmos qual a ”qualidade” de vida a que estão sujeitos, com aqueles níveis de “rendimentos”, tantas dezenas de milhões de brasileiros.

Num país “bonito por natureza”, prenhe de enormes potencialidades económicas próprias (petróleo, ferro, outros metais, pecuária, agricultura, etc, etc), são violentos e chocantes estes contrastes, entre os rendimentos do multi-milionário Eike Batista e da minoria oligárquica parasitária à qual pertence, e, tantos milhões de compatriotas seus, obrigados pela extrema e desumana exploração capitalista a sobreviverem com tão escassos – verdadeiramente sub-humanos! - e irrisórios meios de vida, cavando um dos maiores fossos sociais existentes no mundo.
Um contraste violento e uma gritante contradição, a exigirem muitos combates de classe, muita denúncia política e muita luta por parte de todos aqueles que se reclamam comunistas e revolucionários, tal como por parte de todos os verdadeiros democratas e patriotas (com ou sem partido), uns e outros fazendo assim jus à condição de legítimos herdeiros das melhores tradições de luta e de insubmissão do grande povo brasileiro.


(*) Nota: Segundo as notícias oriundas do Chile - que tem quatro bilionários na lista, entre eles o presidente da direita revanchista recém-eleito, Sebastián Piñera - os gastos totais com a reconstrução, para recuperar das destruições ocasionadas pelo grande terramoto que recentemente atingiu o país, cifram-se em 15 bilhões de dólares; isto é, um pouco mais que uma quarta-parte da fortuna uni-pessoal do bilionário mexicano.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Social-democracia ou social-liberalismo?

"Uma feira de produtos ideológicos" na qual "as pessoas compram o que querem e vendem o que querem" (Lula, referindo-se à recente realização do congresso do PT, o 4° realizado nos seus 30 anos de existência)

O fenómeno político da gradual transformação dos partidos social-democratas, ao longo de todo o século XX e nesta primeira década do actual, merece uma reflexão, ainda que breve.
Por social -democracia, classicamente, se considera a teoria ou doutrina que preconiza uma transição democrática e gradual do capitalismo para o socialismo, isto é, propõem um programa de reformas sociais dentro do sistema capitalista, visando a sua suposta melhoria. Há distância de um século ficaram as teses bernsteinianas, posteriormente desenvolvidas e aplicadas por governos social-democratas constituídos no pós-2ª Guerra Mundial e ao longo das primeiras décadas da segunda metade do século passado, nomeadamente em vários países do norte da Europa, com destaque para o exemplo notável do sueco Olof Palme (assassinado a tiro, em 1986), um social-democrata engajado no extinto Movimento dos Países Não-Alinhados, sincero defensor da democracia, da paz e do respeito e igualdade entre os povos.
Nas décadas de 70 e 80, outros partidos, que igualmente se definiam como social-democratas e mesmo socialistas - os arautos do falsamente chamado "socialismo democrático", nomeadamente vários nos países do sul da Europa - já tinham iniciado a caminhada para a direita, tornando-se partidos integrantes do "arco do poder" e praticando políticas "pragmáticas" de verdadeiros gestores dos interesses do grande capital: os trabalhistas ingleses, irlandeses, os socialistas italianos, espanhóis, portugueses, gregos, franceses, os social-democratas alemães, austríacos, suíços, belgas, a par dos nórdicos já referidos - suecos, dinamarqueses, finlandeses -, entre outros com designações ligadas ao "trabalho" como os noruegueses, holandeses, luxemburgueses, malteses, etc. Fora da Europa, nos restantes continentes, estas designações - social-democrata, socialista, trabalhista - tornaram-se igualmente comuns para designar partidos da mesma família ideológica e, em numerosos casos, com percursos governativos semelhantes. Exemplo flagrante na América Latina, apesar da sua ainda curta existência, é o PT brasileiro, de cujo fundador histórico se transcreveu no início uma frase verdadeiramente emblemática.
De facto, que semelhanças podemos hoje encontrar entre, por exemplo, o partido socialista chileno de Salvador Allende, do início da década de 70 - defensor da democracia política de e para todo o povo, fiel até ao fim aos interesses nacionais e aos direitos dos trabalhadores, praticante da unidade de todas as forças populares e de esquerda contra os interesses oligárquicos e contra o imperialismo - e os partidos "socialistas" e "trabalhistas" da actualidade, p. ex., os partidos de Zapatero, Brown, Papandreou ou Sócrates? A resposta parece ser meridianamente óbvia: nenhumas!
Na verdade, a partir da transição das décadas de 80/90, a deriva política dos social-democratas intensificou-se e passam a adoptar para si as políticas impostas pela globalização neoliberal, criada e conduzida pelos partidos liberais, antes à sua direita no espectro partidário. Abandonam as anteriores bandeiras humanistas do "socialismo democrático", da liberdade, da igualdade, da solidariedade, da democracia política, num processo que - qual crisálidas - já antes neste espaço consideramos ser o de terem sido "comidos por dentro" pelo grande capital. Com a acentuação dos tiques personalistas, autoritários e autocráticos nos seus funcionamentos orgânicos internos, liquidando todas as tradições de democracia interna e emergindo os "grandes líderes" carismáticos (ou, nem tanto), transformados em primeiros-ministros de governos que se assumiram como fiéis "conselhos de administração" ao serviço exclusivo dos banqueiros e segmentos monopolistas associados, desprezaram os interesses das classes e camadas sociais intermédias seus sustentáculos político-eleitorais e enveredaram pelas mesmas práticas repressivas, policialescas, anti-patrióticas e anti-sociais que décadas atrás eram características dos governos conservadores da direita.
Particular interesse terá um estudo mais desenvolvido sobre os processos de descaracterização interna - sociológica e política - destes partidos, perante o estendal de arrivistas que foi tomando conta dos seus orgãos dirigentes e aparelhos partidários, tomados de assalto por novos "quadros" que os transformaram em veículos de promoção e enriquecimento pessoal e dos seus próprios grupos/clientelas políticas, "quadros" muito pragmáticos - fisiológicos, diz-se no Brasil -, verdadeiros "yes-men's" do "chefe" de turno, tornando estes partidos em autênticos postos de agenciamento de "tachos" nas estruturas do Estado - centrais, regionais e locais - e nas empresas públicas, através dos quais se vão estabelecendo negociatas de muitos milhões. Curiosamente, num processo muito semelhante aos vividos pelos grandes clubes de futebol transformados em sociedades financeiras, nos quais o anterior "amor à camisola" se foi transformando em "amor ao meu", deixando para as claques/torcidas a ilusão de manterem uma sincera devoção à nobre causa clubista.
Os processos de carácter global que se verificam nestes partidos assumem características próprias, em cada um deles e em cada país e continente, decorrentes de cada correlação de forças, de cada histórico partidário, de cada percurso político nacional. Importa por isso considerarmos cada um como experiência diferenciada dos demais, seguindo percursos e ritmos específicos de transformação próprios, com uns já no final da sua deriva para a direita e outros ainda nalgum ponto intermédio do mesmo percurso. Mas todos marcados pelos mesmos traços comuns; começaram por abjurar o leninismo dizendo-se marxistas, para depois abandonarem igualmente as "pinturas" marxistas, trancafiando o socialismo nas mais recônditas gavetas dos seus armários e fechando-as a sete-chaves, não fosse o jovial malandro surgir-lhes de novo a atormentar-lhes os seus doces dias da "re"-conciliação com o capital.
Quando alcançam o poder, vendem os direitos e interesses nacionais dos seus povos e países, não cumprem as regras constitucionais e os direitos dos cidadãos, cerceiam e violam as liberdades políticas, discriminam e criminalizam movimentos e organizações populares, desprezam e destroem serviços públicos (saúde, educação, segurança social, cultura), privatizam sectores e empresas antes nacionalizadas, liquidam direitos da legislação de trabalho conquistados ao longo de gerações, financiam o sindicalismo da conciliação ("de resultados") e o divisionismo, tripudiam direitos sociais dos segmentos populares mais desfavorecidos (reformados, crianças, juventude), reprimem as lutas de massas com recurso crescente às polícias de choque e mesmo forças militares, manipulam os meios de comunicação social, praticam o nepotismo e a corrupção, degradam e governamentalizam a justiça, afunilam as políticas fiscais penalizando os rendimentos do trabalho em favor do capital, financiam a banca com os recursos públicos, reconfiguram o aparelho e as funções do Estado visando colocá-los integralmente ao serviço do grande capital.
No actual desenvolvimento da crise global do capitalismo, a par da agressiva retomada da iniciativa política pelas instâncias transnacionais do neoliberalismo e confrontados com a resistência crescente dos trabalhadores e dos povos, pretendem dar-se ares de partidos com preocupações sociais, mas são "preocupações" falsas. Definitivamente, a classificação histórica anterior de social-democratas deixou de fazer sentido para caracterizarmos adequadamente estes partidos. Na sua generalidade - repito, com ritmos e "timing's" específicos - são formações políticas que evoluíram para partidos social-liberais.
De facto, por definição, devemos considerar social-liberais aqueles que se propõem conciliar os princípios de um "socialismo" de fachada com os reais objectivos do liberalismo, preconizando políticas vagamente sociais como meros acessórios para a prossecução das políticas neoliberais, abandonando os objectivos democráticos - políticos, económicos, sociais - que algumas décadas atrás enformavam os programas dos social-democratas. Isto explica, precisamente, o notável fenómeno político contemporâneo da inexistência programática e política de uma oposição de direita aos seus governos e políticas - eles próprios e as suas políticas passaram a ser a nova direita. Os exemplos práticos e em curso em Portugal, Espanha, Grécia, Inglaterra, entre tantos outros pelo mundo, aí estão a atestá-lo.

Por tais razões, estes transmutados e nóveis partidos social-liberais devem ser hoje vistos como os portadores de uma "ideologia" do vácuo e da adaptação "plástica" à manutenção da ordem capitalista, enquanto vão manipulando algumas áreas e verbas - irrisórias! - nas “questões sociais”, com políticas assistencialistas e fragmentadas, ao mesmo tempo que fomentam as actividades de organizações de voluntariado, de filantropia empresarial, pregando as falsas "teses" das responsabilidade sociais repartidas - oportunamente exploradas por inúmeras falsas ONG's e pelas Igrejas! -, tudo isto orientado por uma política de classe que acentua a concentração da riqueza nas mãos de um escasso número de famílias milionárias (e bilionárias!) - vidé os colossais lucros dos bancos, que não param de crescer -, enquanto as classes assalariadas e produtoras reais da riqueza, que constituem a grande maioria das populações nacionais, vão mergulhando na pobreza, vendo reduzir-se os salários e as pensões, crescer o desemprego e a precarização dos postos de trabalho, aumentarem as carências de toda a ordem, subirem assustadoramente os índices de exclusão e miséria, ao mesmo tempo que poderosos instrumentos ideológicos ao serviço do capital vão difundindo a resignação, o conformismo e a passividade.
Aliás, parte importante da mistificação da realidade e da manipulação política exercida pelos grandes meios de comunicação reside exactamente na perpetuação da classificação de "esquerda" que usam para designar estes partidos social-liberais, chamando de "centro" os partidos conservadores, os democrato-cristãos e, de "direita", os partidos populares, os nacionalistas e os neofascistas. Operaram uma reconfiguração total na anterior classificação esquerda-direita dos espectros partidários; se escrevessem e falassem a verdade - hipótese totalmente excluída! - para designar a esquerda só lhes restariam os partidos comunistas e alguns outros poucos partidos que permanecem democráticos.
De forma contraditória mas dialéctica, no plano ideológico e da luta das ideias, nos nossos dias cabe aos comunistas (e aos verdadeiros socialistas e democratas) ocuparem todo esse vasto espaço da esquerda, deixado livre por esta migração para a direita da antiga social-democracia. Em conclusão: desmascarar corajosamente o falso conteúdo social-democrata destes partidos e afirmar audaciosamente as verdadeiras soluções socialistas para os gigantescos problemas, dificuldades e ameaças que o imperialismo engendra contra a Humanidade, eis uma tarefa central para todos os que apontam o Socialismo como o único caminho autêntico para a superação do capitalismo e do seu cortejo de exploração, desigualdades, humilhações, injustiças e guerras. Nesta tarefa, podem e devem convergir hoje todos os democratas sinceros, todos os patriotas, todos os que se reclamam portadores dos mais caros ideais humanísticos. Trabalhemos, então, para a sua actuante unidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Piigs - uma designação ofensiva e sintomática

Nas últimas semanas, nos meios político-financeiros, isto é, nos segmentos dominantes do sistema capitalista mundial e seus instrumentos de manipulação ideológica, surgiu e tornou-se recorrente a utilização de uma nova sigla: Piigs. Os seus "inventores" e utilizadores tão-pouco ocultam o intencional uso depreciativo do novo acrónimo, com o qual pretendem designar vários países europeus, através do seu significado próximo em tradução para inglês - Porcos. Deste modo, as iniciais de cinco países - Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (Spain) -, são ordenados para "criativamente" lhes chamarem os "porcos" das economias da UE.
Particularmente insistente nos meios de "informação" estadunidenses e naqueles que os copiam servilmente nas costas oeste do Atlântico, os objectivos são óbvios: face à maior "crise" que o sistema engendrou - um dia se conhecerá melhor quem ordenou que o Lehman Brothers falisse para que, poucas semanas depois, verbas astronómicas jorrassem das finanças públicas dos Estados para as mãos dos banqueiros, por todo o mundo ... -, a par da continuada e injustificada promoção dos Bric's, considerados os alunos "bons", os Piigs surgem como contraponto político-ideológico, chamados assim e apontados à execração pública mundial, sendo ardilosamente acusados como sendo os responsáveis pela "persistência da crise" e pela demora numa "retoma sólida" da Europa capitalista.
Tal campanha, nestes últimos dias, já está a ter uma sequência visível na UE, através de várias declarações sobre a situação da Grécia, com os "patrões" da Europa (alemães e franceses) a rejeitarem uma intervenção do FMI (ler, os EUA) e a juntarem-se para anunciarem promessas de ajuda ... se os gregos se portarem bem!
A par da sua comum condição de países com volumosos défices públicos - ainda que diversos -, o que mais assemelha estes cinco Piigs? Três deles com governos "socialistas", um com uma coligação de "centro-esquerda" e um outro da direita retinta e dirigido por um neo-fascista, não parece ser razão para os associar por uma qualquer identificação político-partidária; dos países integrados pela UE, nem sequer são aqueles os países economicamente mais dependentes de uma "ajuda" da Comissão Europeia - vidé, a situação de vários países ex-socialistas. Então, o que será afinal que os leva a serem nestes dias os escolhidos pelos escribas e papagaios do capital?
Uma hipótese plausível, para explicar o interesse "mediático" por estes cinco países "porcos", assenta em dois pontos: 1) fragilizados no plano financeiro, estão mais vulneráveis para serem pressionados pelos centros políticos do capital, com o objectivo de os renderem e forçarem a aceitarem medidas draconianas de sobre-exploração, visando acelerar a concentração e centralização capitalistas na U.E.; 2) São países cujos quadros legislativos laborais e constitucionais e as tradições de força e de luta dos seus movimentos sociais e sindicais, os tornam objectivos prioritários a abater pela grande burguesia, agora explorando ideologicamente o filão da (sua) "crise".
O capital imperialista - o estadunidense e o europeu - prepara novas ofensivas contra os povos, em particular sobre os países que constituem as suas respectivas áreas de influência. Na UE, o objectivo é prosseguir o curso - que foram forçados a suspender, embora temporariamente - de federalização política, liquidando totalmente o que ainda resta de independência e soberania dos países integrados, alargando os poderes de ingerência da Comissão Europeia, esvaziando os conteúdos constitucionais e legislativos nacionais e substituindo-os pelas resoluções e directivas da Comissão. Tudo isto visando intensificar a exploração dos trabalhadores e dos povos, sempre exclusivamente ao serviço do capital financeiro e dos grandes grupos económicos "europeus".
Não tenhamos dúvidas, quanto ao seu carácter predador e desapiedado: o capital, obrigado constantemente, para assegurar a sua própria sobrevivência como sistema, a expropriar a pequena propriedade e a aumentar a extracção da mais-valia à força de trabalho, se pudesse nivelaria por baixo as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores europeus, igualando-as às existentes noutras paragens - p. ex., nos Bric's e outros - e fazendo retroceder a Europa às condições laborais do início do século passado. Este seu celerado propósito, de autêntico retrocesso civilizacional, deve ser tenazmente combatido por todos os trabalhadores, por todos os democratas sinceros, por todos os patriotas.

Estes actuais desenvolvimentos da estratégia do capital vêm confirmar, de forma eloquente, quanto falsas e erradas são as posições dos pseudo-internacionalistas e europeístas que defendem assanhadamente movimentos e lutas "internacionais", em prejuízo das lutas nacionais dos trabalhadores nos seus países, tal como defendem uma subordinação (ou mesmo a extinção) dos partidos de "esquerda" (leia-se, partidos comunistas), para serem substituídos por putativos partidos "da esquerda" europeia. A vida está a comprovar inteiramente que é do interesse vital dos assalariados que as suas lutas se travem prioritariamente no terreno nacional, contra as burguesias nacionais, contra os seus Estados e governos nacionais, tendo como objectivos centrais a defesa dos seus próprios interesses de classe e, simultâneamente , a defesa da soberania dos respectivos países e povos. Abandonar este terreno central da luta equivaleria a "entregar o ouro ao bandido", fazendo o jogo da UE e da sua camarilha dirigente.
As grandes manifestações que ocorrem por estes dias em Portugal e na Grécia, tal como já antes ocorreram em Itália e em Espanha, lutas dos seus trabalhadores contra a exploração e as políticas pró-capital dos respectivos governos, estão no caminho certo. Urge alargá-las, intensificá-las, politizá-las mais e mais. Urge o trabalho revolucionário dos partidos revolucionários, intensificando o desmascaramento das "democracias" burguesas vigentes e lutando por rupturas revolucionárias, apoiando as lutas das massas assalariadas, a par de uma afirmação constante e vigorosa do Socialismo como a verdadeira e única alternativa ao capitalismo na nossa época.
Anti-democráticos, vendilhões da soberania dos povos, criminosos e corruptos, desumanos - "porcos"! - são, na verdade, os governos que servilmente se vergam aos ditames da UE e do imperialismo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Obama e as guerras coloniais do século XXI



O Pentágono divulgou o seu orçamento para o ano fiscal de 2011, um orçamento militar dos EUA que, mesmo descontando a inflação, é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. O valor inscrito é de 708,2 bilhões dólares, constituído por 548,9 bilhões dólares para a "base" do orçamento, mais 159,3 bilhões dólares para pagar as "operações de emergência no exterior", principalmente as guerras no Afeganistão e no Iraque, para além da verba de mais US $ 33 bilhões para o orçamento do ano em curso, para pagar os 30.000 soldados extras (e todos os seus suprimentos, armas, etc) que o presidente Obama está a enviar para o Afeganistão. Robert Gates, na apresentação do orçamento ao Congresso, discriminou algumas parcelas dos mencionados 159,3 bilhões dólares para as tais "operações de emergência no exterior": 89,4 bilhões para as operações, 21,3 bilhões dólares para reparar o equipamento quebrado, 13,6 bilhões dólares para treinar as forças de segurança afegãs e iraquianas, etc.


Segundo o "Office of Management and Budget", 55 por cento do total do Orçamento dos EUA em 2010 já irá direitinho para os militares. Trata-se não só do maior orçamento militar nacional do mundo como também atinge uma verba tão colossal que é superior à soma das despesas militares dos restantes 14 países mais gastadores que, em conjunto com os EUA, somam 81% do total dos gastos mundiais! E é um crescimento imparável. O orçamento militar de 2010 -- o qual não cobre todas as despesas relacionadas com a guerra -- chega aos US$680 mil milhões. Em 2009 era de US$651 mil milhões e em 2000 de US$280 mil milhões. Mais do que duplicou em 10 anos.
O Centro para uma Nova Segurança Americana (que está longe de ser uma organização pacifista militante) calcula que, descontando a inflação, esta soma é de 13 por cento superior ao orçamento de defesa "USA" no auge da Guerra da Coreia, 33 por cento mais elevados do que no auge da Guerra do Vietnã e 64 por cento superior aos gastos anuais médios no período da Guerra Fria.

Para se ter uma ideia da desproporção de gastos militares do imperialismo estadunidense face aos restantes países, abaixo se publica o quadro comparativo dos mencionados 15 países com os maiores gastos militares, referente a 2008 e cujas percentagens que não deverão estar muito alteradas.
Por ordem, a posição de cada país, o montante das despesas militares (em biliões) e a % do total:

1 -- EUA ------------- 607.0 - 41.5
2 -- China ------------- 84.9 -- 5.8
3 -- França -------------65.7 -- 4.5
4 -- Reino Unido ------- 65.3 -- 4.5
5 -- Rússia ------------- 58.6 -- 4.0
6 -- Alemanha ----------46.8 -- 3.2
7 - -Japão ---------------46.3 -- 3.2
8 - -Itália --------------- 40.6 -- 2.8
9 - -Arábia Saudita ------ 38.2 -- 2.6
10 - Índia --------------- 30.0 -- 2.1
11 - Coreia do Sul -------- 28.9 -- 2
12 - Turquia ------------- 25.4 -- 2
13 - Brasil ----------------25.3 -- 2
14 - Austrália ------------ 20.7 -- 2
15 - Canadá -------------- 18.6 -- 1
Os números do segundo posicionado nesta lista, mesmo sendo um país com a dimensão da China, mostra à evidência o enorme desequilíbrio de gastos militares. Se fizéssemos uma ordenação "per capita" resultaria ainda mais claramente o papel subsidiário do militarismo imperialista desempenhado por grande número destes quinze países, sempre com os "states" na frente e a grandíssima distância dos restantes.
Por estas e por outras é que o défice das contas dos "states" atinge já os 12% do PIB, um número que os levaria à bancarrota - como estão ameaçados vários outros países europeus, pertencentes à U.E. -, se não fosse o seu continuado "expediente" de fabricarem notas sem limite, prática que o sistema capitalista global vai aceitando como boa, tal é o grau de integração sistémica atingido.

Aos EUA o sistema capitalista continua a atribuir o papel de gendarme mundial, usando as suas forças armadas para um novo processo colonizador, estendido aos cinco continentes. Os seus colossais gastos militares asseguram a manutenção de mais de 800 bases militares em 60 países, simultâneamente suportes para a sujeição e submissão política dos países onde se encontram e plataformas de agressão sobre os restantes. As guerras em curso, de ocupação e extermínio de países e povos, são as guerras colonial-imperialistas da presente época, destinadas a assegurar ao capital o roubo das riquezas e recursos económicos dos países agredidos-colonizados, a par da manutenção da sua "ordem" e da sua "democracia", cada dia mais semelhante a uma nova ordem neo-fascista de âmbito mundial, liquidando liberdades, direitos, independências nacionais, tudo ao serviço de uma feroz intensificação da exploração globalizada dos trabalhadores e dos povos.

Já alguém escreveu, recentemente, que Barak Obama está transformado numa espécie de "power point" do capitalismo contemporâneo. Ainda que interessante, parece-me ser uma designação demasiadamente benévola para o personagem em causa. Propagandeado como o novo "condottiere" mundial, predestinado para fazer grandes mudanças no mundo, os factos vão revelando a sua verdadeira face: o chefe de turno do imperialismo, cada dia mais semelhante ao execrado Bush, ultrapassando-o já pela direita, no suporte de golpes militares fascistas - vidé as Honduras - e na criminosa ocupação militar de novos países - vidé o Haiti. Com Obama, o imperialismo reforça o seu carácter de inimigo n° 1 dos povos em todo o mundo. Urge combatê-lo, em todas as frentes, em defesa da Humanidade ameaçada.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Davos, os "Emergentes" e a luta dos povos


Davos

Encerrou hoje em Davos, na Suíça, mais uma edição da reunião anual dos executivos do capitalismo que dá pelo nome pomposo de "fórum económico mundial", com a presença de 2.500 participantes, oriundos de 90 países. É sabido que não é neste "fórum" - que se realiza desde 1971, nesta localidade suíça - que se decidem as grandes orientações para o capitalismo globalizado. Tais orientações são acertadas em reuniões bem mais restritas e que nunca vêm a ser do conhecimento das opiniões públicas nacionais. Mesmo no decurso do próprio "fórum", noticiaram as agências de informação que tiveram lugar reuniões restritas a alguns dos maiores banqueiros e principais dirigentes das instituições capitalistas mundiais, à porta fechada e sem divulgação pública das discussões havidas. Mas estas reuniões anuais em Davos constituem um instrumento de unificação do pensamento estratégico do capital, permitindo-lhe congregar a intervenção político-ideológica dos seus principais executantes.

Traço comum às suas últimas edições, também na edição deste ano resultou clara a preponderância política dominante do capital financeiro, capitaneado pelos grandes trustes bancários, sobre os segmentos outrora dominantes do capital industrial-produtivo. A confirmá-lo, ficam as recusas firmes em aceitarem alterações significativas quanto à regulação e controle pelos Estados das suas actividades especulativas, sejam as multi-laterais defendidas por franceses e alemães, sejam as bem mais modestas adaptações domésticas propostas por Obama. E, entretanto, vão encaminhando à comunicação social alguns recados e recomendações. "Estou reivindicando um fundo europeu de resgate para os bancos", disse o director do Deutsche Bank, Josef Ackermann, ao jornal britânico Financial Times. Isso permitiria que colapsos como o do banco Lehman Brothers fossem pagos "em larga escala" pelos próprios bancos. Ackermann disse ainda que a recuperação económica ainda está frágil e que os mercados financeiros "estão novamente nervosos". Sabemos bem, pela experiência feita, que tal "nervosismo" dos banqueiros visa a obtenção para si de novas drenagens de recursos financeiros dos Estados, a serem pagos, como sempre, pelos trabalhadores e pelos povos.

Uma conclusão se pode desde já retirar: o capital, globalizado pela sua actual etapa financeirizada, passado o profundo choque que a sua crise sistémica operou no final de 2008, procura retomar o caminho que aparentou suspender no último ano, reafirmando orientações e estruturas que conduziram durante mais de duas décadas a sua cartilha neoliberal. Quais fénix's renascidas das cinzas, aí estão de novo e em força o FMI e o Banco Mundial que ainda há menos de um ano pareciam votados ao desaparecimento, voltando a querer determinar os rumos económicos e financeiros - logo sociais e políticos - dos países que se sujeitem ao seu domínio.

Revelando simultâneamente a dominância desta "economia de casino", assente na especulação financeira-bolsista e o agudizar das contradições inter-capitalistas e inter-imperialistas inerentes ao sistema, assistimos ao reforço do papel desempenhado pelos chamados "bancos centrais", nalguns casos em conflito aberto com as estruturas políticas dos Estados mais fragilizados, como é o caso, p.ex., da situação que se vive na Argentina. Se observarmos o descarado retorno dos bancos às suas práticas especulativas - borrifando-se nas declarações dos "seus" políticos, tornadas proclamações "para inglês ver" -, a par da revalorização do dólar, ainda considerado o refúgio mais seguro e das crescentes oscilações dos valores bolsistas, torna-se óbvio quem continua a mandar no sistema, para desgosto de tantos "alegres" e "distraídos" que se revelam parvamente crentes na auto-reforma do capitalismo, com um retorno às "boas práticas" do capitalismo industrial do terceiro quartel do século passado. Ilustrativo do carácter ilusório destas concepções é o facto de, na actualidade, as operações de trocas de bens e serviços não chegam a 5% do movimento de câmbios mundiais, sendo a maior fatia dessas operações constituída pelos movimentos de capitais, 24 horas por dia e em tempo real.
O sistema capitalista global dos nossos dias, para manter as suas capacidades de manipulação ideológica e domínio político, necessita presentemente de alguns retoques a cheirar a social-democracia e a neokeynesianismo, mas não volta nunca para trás nem abdica dos seus ganhos colossais e dos seus juros escorchantes. Tudo isto, claro, sem prejuízo de algumas declarações finais, meramente cosméticas e que lhes permitam prosseguirem a operação contínua de mistificação da realidade, alimentando as ilusões reformistas.


Emergentes

A pretexto da atribuição de um nóvel prémio, criado especialmente para esta edição de Davos e a atribuir ao presidente brasileiro, o grande capital intensifica a propaganda aos Bric's, agora chamados de "emergentes", classificação esta que por vezes, quando lhes interessa, é estendida a mais alguns países integrantes do G-20, p.ex. os casos da África do Sul, da Indonésia, do México, da Arábia Saudita ou da Argentina. Segundo os arautos do sistema, estes países deveriam ser louvados pelos restantes e por toda a "comunidade internacional" como exemplos a seguir quanto às capacidades reveladas para defrontar a "crise" e encetarem a "recuperação" das suas economias. Trata-se de uma mistificação para uso ideológico, sem qualquer conteúdo benéfico para os respectivos povos e para os restantes países. As afirmações falsamente elogiosas, proferidas por alguns dos principais representantes do capitalismo predador presentes em Davos, não deixam margem para dúvidas: "Os mercados emergentes são os lugares mais atractivos para investir neste momento", afirmou David Rubenstein, co-fundador do Carlyle Group, acrescentando que "países como China, Brasil e Índia verão muitos recursos chegando", não reprodutivos mas sim especulativos, acrescentemos nós; o presidente do Abraaj Capital, dos Emirados Árabes, Arif Naqvi, na mesma onda, afirmou que "os emergentes são um bom lugar para estar, têm liquidez e força", concluindo que aí "as oportunidades são tremendas"; por sua vez, o ex-economista-chefe do FMI e professor da Universidade de Chicago - lembram-se dos "Chicago boys"? -, Raghuram Rajan, acredita que estes países "historicamente, nunca foram bem, mas agora estão se saindo melhor" e que aquelas antigas previsões de riscos hoje se aplicam, na verdade, aos países desenvolvidos.

Para tentarmos perceber melhor quais são os reais objectivos desses elogios e desta premiação ao Lula, vale a pena pensarmos um pouco nos traços ou características comuns a estes quatro países - Brasil, Rússia, Índia e China. Se o fizermos, imediatamente ressaltam duas principais características comuns: 1) Os baixíssimos salários praticados, a par de condições legislativas laborais que determinam uma enorme precariedade do trabalho e a ausência de garantias sociais elementares, num quadro de quase total desprotecção do trabalhador face aos interesses e enormes vantagens oferecidas pelos Estados ao capital; 2) uma "gestão" política estável, sem sobressaltos de maior, sem conflitualidade social, isto é, sem desenvolvimentos agudos das lutas de classe.


Através de alguns traços, vejamos um pouco mais detalhadamente e como exemplo o caso do Brasil, talvez nem sequer o mais desfavorável do grupo dos quatro países.
- o salário mínimo anunciado para vir a vigorar em 2010 (em 2008 foram 415 e em 2009 465 reais) são 510 reais, o equivalente a cerca de 196 euros;
- enquanto em países desenvolvidos a distribuição capital/trabalho da riqueza criada atribui ao trabalho percentagens superiores aos 50% e, nalguns casos, atinge mesmo mais de 60% ( em Portugal são 41% e conhecemos bem o que isto significa, traduzido em mais de 2 milhões de pobres!), no Brasil este valor pouco ultrapassa os 30%;
- com lucros monumentais nos seus exercícios, os bancos que actuam simultâneamente no país e na Europa (Santander, Bradesco, HSBC e outros), enquanto nos países europeus os juros que praticam andam em torno dos 10/12%, no Brasil os juros praticados chegam a atingir os 62% (!);
- com a manutenção de um viés claramente neoliberal na orientação macro-económica, seja no campo fiscal (com o famigerado superavit primário, que impede maiores investimentos públicos), seja no monetário (juros altos, com a "taxa selic" do banco central nos 8,75% e com ameaças de próximas subidas!) e cambial, o grande capital financeirizado invade o país, investindo quase exclusivamente nos títulos públicos, o que lhe permitirá, p. ex. para 2010, "exportar" em lucros e remessas para o exterior qualquer coisa como cerca de 40 bilhões de dólares, isto não obstante o facto de, só em cinco dias deste mês de Janeiro, os investidores estrangeiros terem retirado 2,5 bilhões de dólares da Bolsa de Valores de São Paulo, intensificando as suas práticas especulativas;
- a dívida interna brasileira está em R$ 1,7 trilião. No ano passado, o governo federal pagou aproximadamente R$ 115 bilhões em juros e encargos da dívida. Em termos percentuais, os juros e encargos da dívida representaram 3,81% do orçamento fiscal e da seguridade. No mesmo período, o governo federal gastou 0,76% com a educação de ensino superior e com a saúde 1,51%. Como se vê, qualquer um desses gastos públicos essenciais foi infinitamente inferior ao montante pago com a dívida;
- o projecto orçamentário apresentado pelo governo federal para 2010 prevê uma receita de R$ 1,738 trilião. Deste total, 90% serão gastos com despesas obrigatórias, como amortização da dívida, juros, transferências a estados e municípios, pessoal e encargos sociais. Os restantes 10%, serão destinados às despesas discricionárias, entre elas estão o Bolsa Família (a principal medida assistencialista criada pelo governo Lula), a Educação, a Saúde e o chamado Plano de Aceleração do Crescimento (PAC - investimentos públicos em infra-estruturas e, mais recentemente, também em Habitação Social).
- “O sistema tributário brasileiro tem uma preferência. Fez a opção pelos ricos e proprietários”, afirma o presidente do Ipea, Márcio Pochmann; quem recebe até dois salários mínimos de renda familiar mensal contribuiu, no ano passado, com 53.9% desses recursos para o pagamento de tributos, ao passo que o esforço dos que se encontram na outra ponta da tabela e recebem acima de 30 salários mínimos contribuiu com 29%. O total de dias trabalhados para o pagamento de impostos por esses trabalhadores de baixa renda foi de 91 dias a mais no ano do que os que se encontram no topo da tabela.
- no Brasil privilegia-se a taxação do consumo em detrimento do património e da renda. Actualmente, dois terços da arrecadação das três esferas (União, Estados e municípios) tributam o consumo. “Os ricos nunca pagaram muito tributo”, ressalta o presidente da delegacia de Campinas do Unafisco (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), Paulo Gil Introíni. “Quem tem isenção de lucros, não tem moral para dizer que a carga tributária é alta. Não são os banqueiros, não são os empresários das multinacionais, os grandes executivos, que pagam essa carga. São os trabalhadores. Pela ordem, os assalariados de baixa renda e a classe média. O nosso sistema tributário é Robin Hoodiano às avessas”, acrescenta.
Ainda no caso do exemplo brasileiro, e relativamente à ausência de "conflitualidade social", é manifesto que a eleição de Lula e a constituição de governos dirigidos pelo PT, apostando nos programas de assistencialismo social aos mais pobres (mais rigorosamente, aos "indigentes" e aos "miseráveis"), calou e paralisou os movimentos sociais, enquanto o sindicalismo predominante continuou, salvo algumas excepções, a ser um "sindicalismo" de concertação e conciliação de classes, com os Sindicatos transformados em partes constituintes do sistema geral de exploração dos trabalhadores.


Estes e outros traços da situação brasileira acabam por explicar a existência no Brasil de um fenómeno semelhante ao verificado noutros países (p. ex., Portugal), isto é, os partidos da chamada "oposição" aparecem sem políticas alternativas, paralisados politicamente, exactamente porque as políticas do governo actual são de continuidade no favorecimento dos bancos e das grandes empresas aliadas aos grandes grupos económicos transnacionais, são as políticas que nas questões essenciais e de um ponto de vista de classe a "oposição" aplicaria se estivesse no governo. Isto mesmo lhes foi garantido por Lula, na tristemente assinalada "Carta aos Brasileiros", publicada em 22/6/2002, durante a campanha eleitoral que lhe garantiu a eleição para a presidência.
Não terá sido decerto por acaso que, já antes deste prémio agora entregue em Davos, Barak Obama tenha afirmado que Lula "é o cara!"


Entretanto, as situações sociais na Rússia, como na Índia, como na China - neste último caso mesmo que afirmando-se um país socialista -, em numerosos dos seus aspectos não diferem substancialmente da situação brasileira exemplificada. As taxas de sobre-exploração do trabalho, permitindo a extracção de mais-valias brutais, tornam estes países, aos olhos do grande capital e dos seus instrumentos de mistificação "informativa", exemplos apontados e a seguir pelos restantes países e Estados dependentes.
Polarização da riqueza, grandes fossos sociais, sobre-exploração dos trabalhadores, desemprego e precariedade das relações de trabalho, grandes manchas de pobreza e miséria, liquidação das pequenas empresas, eis a "receita" preferida que o capital transmite aos seus governos de turno, exigindo-lhes para si isenções fiscais, recursos públicos, privatização de serviços e funções sociais dos Estados, numa palavra, tudo aquilo que promova a concentração e centralização capitalistas. E, claro, a imposição de "democracias" ao seu serviço exclusivo, com o cerceamento das liberdades e direitos cívicos e políticos para a maioria e toda a liberdade de explorar para as minorias exploradoras oligárquicas e parasitárias.


Já aqui se deixou assinalado, em postagem anterior, os riscos crescentes para os trabalhadores e os povos de outros países, nomeadamente na Europa. Falam insistentemente no risco de bancarrota para países como a Grécia, Espanha, Portugal, Itália, Irlanda, entre outros da U.E.. Após divulgarem e deixarem latente a ameaça, logo apontam a "solução": redução dos salários, "liberalização" total da legislação do trabalho, cortes nas pensões e outras prestações sociais, alargamento das privatizações a mais serviços públicos, fim aos investimentos públicos, aumento das cargas fiscais sobre trabalhadores e consumidores, isenções e benefícios de toda a ordem para o capital.


No plano político, antecipando a elevação das lutas sociais e da resistência dos povos a esta marcha para o abismo, preparam mecanismos de repressão e de cerceamento das liberdades e garantias constitucionais, enquanto no plano global atribuem aos imperialistas estadunidenses a tarefa de dominação militar, à custa da destruição de países inteiros e da morte de milhões de seres humanos.
Ao grande capital e aos seus executantes de serviço, na sua irracionalidade e práticas genocidas, em cada país e em cada continente, só os deterá a força organizada e a luta corajosa dos assalariados, guiados por um projecto mobilizador das sociedades nacionais que aponte à construção de novas democracias socialistas. Mais do que em qualquer outra época, é nos nossos dias que se aplica por inteiro a rejuvenescida consigna: "Socialismo ou Barbárie". Contra a barbárie actual, então, lutemos juntos pelo Socialismo.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Uma visita ao passado, a pensar no futuro

Para o fim-de-semana, vale a pena recordar o Zeca Afonso da luta, a luta daqueles tempos de intervenção e de unidade dos democratas consequentes e de todas as pessoas de bem, contra a tirania, contra o medo, contra a exploração, contra a hipocrisia, contra a corrupção. Éramos muitos e unidos na luta por um país novo, um país onde o povo fosse "quem mais ordena". E o 25 de Abril, no próprio acto de acontecer, honrou afinal tantas lutas corajosamente travadas.
Entretanto, tudo evoluiu e mudou, como sempre ocorre e sempre ocorrerá. Definiram-se os campos e as simpatias, escolheu-se partido e fez-se a festa da liberdade e das conquistas democráticas, durante um curto período de menos de dois anos mas prenhe de transformações e de avanços. Depois, vieram os golpes, as traições aos ideais de Abril, os longos anos - mais de três décadas - de uma permanente ofensiva contra-revolucionária, liderada pelos "socialistas" do "socialismo em liberdade", uma máscara laboriosamente fabricada para ocultar os seus verdadeiros propósitos de, traindo o povo, liquidarem a democracia conquistada pelos portugueses em 1974.
O resultado aí está, corroendo o presente e hipotecando o futuro, violentando grosseiramente o que resta da Constituição aprovada em 1976, só restando um regime apodrecido fingindo-se um arremedo tosco de "democracia" que, tal como nos anos do fascismo, existe para favorecer os banqueiros e os grandes grupos monopolistas - os velhos e outros novos - contra os direitos dos trabalhadores, contra as aspirações de um povo inteiro que exploram, corrompem, manipulam, humilham, conduzindo o país à exaustão e ao desastre.

Por tudo isso, aí fica a letra dos "Vampiros", do Zeca. Para recordar, mas não só; para reinventar e fazer de novo, mais forte e melhor, alargando de novo a unidade dos democratas sinceros, unindo e mobilizando para a luta as muitas centenas de milhares de trabalhadores revoltados com a actual barbárie de exploração e de liquidação dos seus direitos, unindo e mobilizando os milhões de portugueses que hoje já não se revêem nesta falsa "democracia" do capital.
Organizando e construindo a ruptura revolucionária, democrática e patriótica, o passo seguinte na nossa caminhada colectiva e imparável para o Socialismo.



Vampiros

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas á chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores á força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas

Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhe franqueia
As portas á chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada



Votos de um bom fim-de-semana, se for possível descansando - e preparando novas lutas.






sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Haiti real e as mentiras da "imprensa ocidental"


Com o "presidente" do país desempenhando o vergonhoso papel de uma marioneta totalmente comandada pelos norte-americanos, prossegue a acelerada ocupação militar do Haiti por tropas dos EUA. Há minutos atrás, foi o próprio Pentágono a anunciar o envio imediato de mais 7.000 soldados, elevando para um total de 20.000 homens o efectivo bélico estadunidense no martirizado Haiti.

Para se ter uma ideia comparativa, basta pensar que Portugal, tendo uma população e um território que são quase o dobro dos haitianos - e herdando das guerras coloniais umas forças armadas inflacionadas - conta com um total de efectivos nos três ramos inferior (18.500) ao contingente USA que ocupará o Haiti.

E, já agora, imaginemos também, mesmo que só por alguns momentos, o que significaria 20.000 soldados "amigos" invadindo o nosso país, ocupando a nossa capital e tomando reféns as nossas principais cidades a norte de Lisboa. Tal exercício mental, além de nos aproximar da realidade vivida pelos haitianos, também pode ser-nos útil como alerta para a necessidade do combate a travarmos contra as pretensões hegemónicas do imperialismo.

Pelo valor dos seus testemunhos em directo, aqui se divulga - sem correcções - um texto editado pelo "CMI/Brasil" que nos ajuda a conhecer melhor o que se passa no Haiti, contrariamente às campanhas terroristas da média dominante que visam incutir a ideia mentirosa, xenófoba e racista que afirma que os haitianos são desordeiros, criminosos, incapazes de manterem a tranquilidade no seu país, o necessário "fundamento" para "justificar", aos olhos de pessoas mais desprevenidas, a ocupação militar do país pelas tropas imperialistas dos EUA.

Desmascarar as mentiras e divulgar as verdades é, para os amigos sinceros do Haiti, uma tarefa urgente e irrecusável.

Mais de uma semana depois do terremoto, a ajuda finalmente começa a chegar nas cidades do interior do Haiti e os/as haitianos/as perguntam: por que a ajuda vem armada? Não há uma guerra no Haiti, por que as armas? A ONU declarou que quer primeiro cuidar da segurança no país para depois darem auxílio. Notícias divulgadas pela média corporativa fala de caos e assaltos nas ruas do Haiti, matérias sobre presos terem conseguido escapar da cadeia depois do terramoto e relatos de saques tomam boa parte do que vem sido divulgado pela "grande média".

Entretanto, relatos de meios de comunicação independentes e organizações sem fins lucrativos que estão no Haiti desmentem que exista um problema com "segurança" no país. A jornalista independente Amy Goodman, apresentadora do programa "DemocracyNow!", dos Estados Unidos, está no Haiti desde o começo desta semana. "Eles estão recebendo quase nenhuma ajuda. Passamos de uma família para outra, e eles disseram, continuamente, que suas vidas estão nas mãos de Deus. A própria ONU fez a declaração sobre a segurança. E nós queríamos saber a que eles estavam se referindo. Andamos livremente de um lugar para outro. As pessoas estão desesperadas, mas certamente pacíficas."

Ela também relata que a ajuda está centralizada no aeroporto em Porto Príncipe e que não está indo para o resto do país: "E o que fizemos ontem foi o que apenas alguns jornalistas fizeram: saímos de Porto Príncipe e fomos ao longo da costa para Carrefour e Léogâne. Este é o epicentro. Lá é onde a ONU emitiu sua declaração, dizendo que eles reconhecem que 90% dos edifícios caíram, que milhares de pessoas foram mortas. Mas, segundo eles, a menos que pudessem garantir a segurança, eles não iriam fornecer ajuda lá. Isso é tremendamente assustador."

O doutor Evan Lyon, que vem trabalhando no Hospital Geral (o maior hospital do Haiti) disse em entrevista para o "DemocracyNow!": "Eu estou vivendo num bairro com o meu amigo. Estou ficando com alguns colegas médicos haitianos. Nós estamos circulando pelas ruas entre uma e duas da manhã, movendo pacientes, movendo suprimentos, tentando fazer o nosso trabalho. Não há segurança. A ONU não está nas ruas. Os EUA também não estão nas ruas. A policia haitiana não estão conseguindo ficar nas ruas. Mas também não há insegurança. Eu não sei se vocês estavam do lado de fora ontem a noite, mas você consegue ouvir até um pingo d'água nessa cidade. Esta cidade é um lugar pacífico. Não há uma guerra. Não há uma crise, a não ser o sofrimento que está ocorrendo."

Além disso, Amy Goodman fala sobre a extrema organização da população nos acampamentos de refugiados montados por todo o país, cada um com cerca de mil pessoas: "... eu penso que nós estamos falando de anarquia do governo, a incrível força comunal da comunidade. Estes campos de refugiados, esses campos menores e maiores que o número chega na casa dos milhares, são comunidades organizadas. À noite, eles colocam pedras na rua. Se você não conhecesse essas comunidades, você diria: 'O que está acontecendo aqui? Certo? São estes, você sabe, os anarquistas? Eles são violentos? Eles estão ameaçando?' Eles estão protegendo suas comunidades e aqueles que estão dentro. E eles não querem que as pessoas de fora entrem, especialmente à noite. É extremamente organizado a nível local, entre bairros, as pessoas ajudando-se mutuamente."

O jornalista Kim Ives, que está viajando junto com o "DemocracyNow!" responde a pergunta de Amy Goodman sobre a organização das comunidades: "Oh, e as organizações comunitárias, nós vimos na outra noite em Mateus 25 (bairro onde há um alojamento com cerca de 600 pessoas desabrigadas), a comunidade onde nós estamos ficando. Um descarregamento... um caminhão cheio de comida veio no meio da noite sem avisar. Poderia ter ocorrido uma briga. A organização da população local foi contactada. Eles mobilizaram imediatamente os seus membros. Eles vieram. Organizaram um cordão. Enfileiraram cerca de 600 pessoas que estão ficando no campo de futebol atrás da casa, que também é um hospital, e eles distribuíram a comida de forma ordenada, em porções iguais. Eles eram totalmente auto-suficientes. Eles não precisam dos "Marines". Eles não precisam da ONU. Eles não precisavam de nenhuma dessas coisas que estão nos falando que eles precisam, ditas também pela Hillary Clinton e o ministro do exterior. Essas são coisas que as pessoas podem fazer por elas mesmas e estão fazendo por elas mesmas."

Na manhã da quarta-feira, 20 de Janeiro, houve outro tremor, e ainda não se sabe que prédios foram atingidos pelo tremor e quais foram as vítimas. Mas é lógico que isso traz pânico à população que teme por suas vidas. Ninguém sabe se haverão outros tremores. Por enquanto os grupos de ajuda continuam chegando e os que já estão no país estão trabalhando dia e noite construindo hospitais, atendendo as pessoas e distribuindo água e comida. Mesmo assim muita gente está morrendo por falta de cirurgia, o grupo de ajuda médica "Partners in Health" disse que cerca de 20.000 pessoas estão morrendo por dia que poderiam ser salvas com cirurgia.



O povo haitiano é merecedor de toda a nossa solidariedade possível, da nossa ajuda fraternal e desinteressada, descobrindo e organizando para isso as acções de recolha de ajudas e, sobretudo as organizações merecedoras da nossa confiança para o garantir.
Sindicatos, autarquias locais, associações cívicas, colectividades, todos podem ajudar, garantindo-se em seguida que entidade nos garante que os donativos cheguem mesmo às mãos dos haitianos necessitados. Uma tarefa nada fácil, sem dúvida, mas a exigir-nos as capacidades e os esforços necessários para a realizar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A pobreza, o capitalismo, a hipocrisia - em Portugal, na E.U. e no mundo

O jornal semanário "Avante!", órgão central do P.C.P., editado às quintas-feiras e com sítio na net - http://www.avante.pt/ -, é uma leitura indispensável para todas as pessoas interessadas em obter uma informação verdadeira e independente, sobre o que ocorre no país e no mundo e sobre a visão própria dos comunistas portugueses acerca da actualidade.

Pelo interesse que reveste, transcreve-se em seguida um artigo, publicado na sua última edição, de 21/1.



A União Europeia designou 2010 como o Ano Europeu contra a Pobreza. E por isso aparecem já e cada vez com mais frequência as muito adequadas notícias nos órgãos de comunicação social. Dão a boa nova e deixam a ideia de um grande empenhamento das instituições europeias e nacionais, no combate a este flagelo social e do qual são vítimas milhões de seres humanos, não apenas na União Europeia mas em todo o mundo.

Eis alguns números e factos que ilustram esta realidade. Mais de 1100 milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia; o número daqueles que vivem abaixo do limiar da pobreza aumenta diariamente. Mais de dois milhões, estão nessa situação no nosso País. Destes, cerca de 700 mil são assalariados e outros tantos são pensionistas e reformados.
Em todo o mundo milhões de trabalhadores são empurrados para o desemprego. Em Portugal já ultrapassam os 700 mil e as multinacionais, mas não só, continuam a encerrar empresas e a levantar a tenda deixando atrás de si um rasto de miséria e infelicidade para milhares de operários e outros assalariados. Na maior parte dos casos, sem qualquer perspectiva de voltarem a arranjar um posto de trabalho.

Segundo a ONU, morrem por ano mais de 36 milhões de seres humanos devido à fome. Ou seja, 70 seres humanos morrem em média por minuto por falta de alimentos. Em Portugal são já mais de 200 mil os que já não ganham o suficiente para se alimentarem e já passam fome. E tudo isto sucede quando, em consequência dos avanços da ciência e da técnica, a capacidade de produção de bens alimentares nunca foi tão grande e quando somos informados pela comunicação social de que centenas de milhares de toneladas desses mesmos bens são destruídos e colocados no lixo, para não prejudicar as margens de lucro dos senhores que dominam e mandam no circuito, desde a produção até à distribuição.
Ainda segundo a ONU, mais de 30 mil crianças morrem por dia devido a causas que podiam ser evitadas se tivessem acesso aos extraordinários avanços da ciência na área da Saúde. Mas, mais uma vez, a ganância dos parasitas (que são apresentados como grandes defensores dos direitos humanos!) pelos escandalosos lucros que o gigantesco negócio do medicamento lhes proporciona, condena à morte esses milhares de crianças todos os dias. Se outros exemplos não houvesse – e infelizmente há muitos mais – este bastaria para ilustrar o carácter profundamente desumano e cruel do capitalismo.

Trata-se de autênticos crimes contra a Humanidade pelos quais os seus autores deviam ser julgados e punidos. As causas da pobreza estão, pois, na essência do sistema capitalista. Na exploração de que são vítimas os operários e restantes trabalhadores que criam a riqueza do País e na sua injusta repartição – que concentra uma grande parte nas mãos daqueles que sendo uma minoria – os capitalistas – detêm os meios de produção e atiram para a pobreza e a miséria aqueles que são a imensa maioria – os assalariados – que têm como única riqueza a sua força de trabalho e, através dela, quando a conseguem vender, o salário, desvalorizado permanentemente.
Mas não é isto que vamos ver e ouvir sobre a pobreza durante o ano de 2010 da parte dos dirigentes europeus, do Governo/PS e de toda a direita. Porque não são as causas que os preocupam mas sim a crescente tomada de consciência por parte dos trabalhadores e dos povos do carácter explorador, injusto e desumano do sistema capitalista.
Vamos sim vê-los ao lado dos Belmiros, Amorins e outros que tais, em iniciativas de caridade doando cheques, refeições, roupas, etc. E, com grande hipocrisia, deitar lágrimas de crocodilo pelos coitados dos pobres que o destino condenou (e não eles!) a viver na pobreza.
Neste contexto, ganha ainda mais importância a grande acção nacional do Partido, a começar para a semana e a desenvolver-se até final de Março, que deve envolver todas organizações e militantes e através da qual daremos a conhecer as nossas propostas para uma nova política, ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País, tendo como horizonte o socialismo – onde a exploração e a pobreza darão lugar à justiça social, à liberdade e à democracia em todas as suas vertentes: política, económica, social e cultural.

(Armindo Miranda, da CP do CC do PCP, in "Avante!", n° 1886)



Confirmando inteiramente esta justa denúncia, um estudo do economista Eugénio Rosa - cujos estudos são autênticas ferramentas de combate, a usar pelos explorados na sua luta contra o capital - indica exactamente como, com a conivência do governo do Partido "Socialista" e à custa dos recursos do Estado português, a banca enriquece com a crise. Assim, apesar da crise grave que enfrenta o País e das crescentes dificuldades para a maioria dos portugueses, só nos primeiros 9 meses de 2009 os cinco maiores bancos a funcionar em Portugal – CGD, BCPMillennium, Santander Totta, BES e BPI – obtiveram lucros líquidos que atingiram 1.448 milhões de euros!

Como se vê, para os banqueiros não há crise, ou melhor, em Portugal a banca enriquece com a crise e com as dificuldades dos portugueses. Para além das formas clássicas de extracção de mais valia (taxas de juro e spreads elevados, comissões exorbitantes, especulação que de novo surge em força, etc.) que utiliza para obter elevados lucros, a banca também lança mão de uma outra forma, menos conhecida mas não menos escandalosa; no período 2005-2009, arrecadou mais cerca de 1.468 milhões de euros de lucros apenas por não ter pago a taxa legal de IRC e de derrama, taxa que qualquer pequeno empresário é obrigado a pagar mas que à banca ninguém obriga - isto é, em vez dos 27,5% a que estaria obrigada, segundo dados divulgados pela sua própria Associação Portuguesa de Bancos, a banca pagou em 2008 somente 12,8% em impostos, e, para 2009, a estimativa é que pague só 9,8%!

Tudo isto ocorre a par da sobre-exploração do trabalho dos assalariados ao serviço dos banqueiros; enquanto os vencimentos dos trabalhadores bancários vêm perdendo peso na percentagem dos encargos dos bancos, atingindo em 2008 o valor mais baixo com apenas 27,5%, neste mesmo ano a remuneração média dos seus administradores variou entre 698.000 euros e 777.100 euros!

São estas e outras verdades que vão desmascarando as mentiras da propaganda do capitalismo e os venenosos apelos à concertação e conciliação de classes daqueles que lhe fazem o jogo. A luta pelo Socialismo está definitivamente na ordem do dia.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Haiti - Um povo lutador e martirizado

As imagens feitas por um amador pouco após o terramoto e ontem transmitidas pelas cadeias de TV, mostrando de um ponto elevado uma panorâmica da cidade de Port-au-Prince, à primeira vista sugeriam serem nuvens a cobertura nebulosa que se via pairando sobre toda a extensão da cidade, mas não era assim, não eram nuvens reais e sim uma pavorosa nuvem de poeira compacta, originada pela derrocada de grande parte das edificações da cidade, acabadas de cair pelo impacto do sismo.
Depois de sofrer a devastação de violentos tufões, a terrível catástrofe natural que agora atingiu o país vem chamar a nossa atenção para as duras realidades que já há muito atingem o seu martirizado povo haitiano, um povo alegre, animoso, lutador incansável pela sua independência e pela sua dignidade mas tão martirizado pelas agressões e ocupações estrangeiras, pela exploração desenfreada dos seus recursos, sucessivamente praticadas pelas potências neocoloniais e pelo imperialismo.


Originariamente chamada "La Hispaniola", a ilha foi colónia de Espanha desde a sua "descoberta" por Cristóvão Colombo (em 1492) até que, explorando a decadência da colonização espanhola, os franceses substituem os espanhóis na parte ocidental da ilha (1697) e, em resultado desta disputa franco-espanhola, pouco após a declaração da independência de França (1804) a ilha é dividida em dois territórios, com a parte até aí sob domínio francês a dar origem à actual República do Haiti e a parte oriental, entretanto reocupada e sob domínio espanhol, a obter mais tarde também a independência, sob a designação de República Dominicana. Com uma superfície total de 76.192 km² e cerca de 9 milhões de habitantes, a ilha conta 641 quilómetros de extensão entre os seus pontos extremos.
Para além da população indígena índia, objecto da escravização pelos espanhóis e depois de quase ter sido totalmente dizimada, o Haiti tem uma população maioritária descendente de africanos escravizados pelos colonialistas. Ao começar a Revolução Francesa (1789), já viviam na colónia francesa cerca de 500 mil negros, 24 mil mestiços e 32 mil brancos.
Possuindo terrenos muito férteis, a sua produção de açúcar chegou a disputar a hegemonia açucareira do Brasil, para além de produzir milho, café, cacau, todo o tipo de produtos hortícolas e frutícolas, etc, além de um litoral e de montanhas lindíssimos, com as belezas naturais típicas das ilhas do Caribe.

Detentor do honroso título de primeiro país independente da América do Sul colonial - uma independência conquistada após sucessivas revoltas e lutas da sua população escravizada, mobilizada pelo objectivo de conquistar a liberdade contra os colonizadores, primeiro contra os espanhóis e depois contra os franceses -, os duzentos anos da sua independência são uma inenarrável epopeia de lutas e combates, de traições e de vitórias, de resistência e de determinação de um povo corajoso, constantemente forçado a retomar as suas lutas, primeiro pela abolição da escravatura, depois pela soberania e pelo seu direito a viver em paz.
Abandonado e exorcizado pelas potências colonialistas logo que declarou a sua independência política - que assim queriam fazer do Haiti um mau exemplo que os outros povos colonizados não deviam seguir - o seu povo teve de batalhar sempre e até os dias de hoje para ser senhor do seu distino, das suas riquezas e das suas enormes potencialidades naturais, contra o poder e a exploração das elites possidentes, representadas inicialmente por governadores-gerais colonialistas, depois por líderes independentistas auto-proclamados imperadores e mais tarde por presidentes, uns designados outros eleitos, uns patriotas outros fantoches na mão das potências imperialistas.

De um passado recente de repressão, de prisões, torturas e milhares de assassinatos, quem não lembra o terrível período da ditadura do "Papa Doc" e dos seus sicários torturadores, os "tontons macoutes"? Instaurada em 1957, pelo médico François Duvalier, um ditador sanguinário, seguidor das práticas do culto "vudu" que, não satisfeito por se declarar presidente vitalício do Haiti, antes de morrer (1971) designou o filho seu sucessor ("Baby Doc"), e com esta manobra prolongou esse negro período até 1986, submetendo o povo haitiano, durante quase três décadas, a uma das mais cruéis ditaduras da História do século XX. Entidades humanitárias apontam para 30.000 mortos, vítimas das sucessivas chacinas de militantes e activistas de esquerda, tendo sempre por alvo principal os comunistas.

A sujeição do Haiti aos ditames do imperialismo estadunidense é um longo e criminoso processo. Manietado economicamente, o Haiti entra no século passado sob a tutela dos EUA e estes, a pretexto de garantirem a cobrança da dívida dos "empréstimos" concedidos, passam a intervir directamente na administração do país. Em 1905, passam a controlar as alfândegas (!) e, em 1915, invadiram militarmente a ilha e assumiram o governo. Os americanos impuseram uma nova constituição - "hábito" este, aliás, que não mais abandonaram até hoje, em todos os países por si ocupados. Esta ocupação militar vai durar até 1934 e só em 1941 abdicaram da administração alfandegária haitiana, tudo a bem da "democracy Made in USA", claro!
Seguiram-se sucessivos governos da elite, sucessivos golpes e defecções, o longo - e dramaticamente penoso - período da ditadura dos Duvalier's e, após quatro anos de governo dos militares, têm finalmente lugar eleições presidenciais (1990), sendo eleito um padre, Jean-Bertrand Aristide, que se afirma defensor da "teologia da libertação", com dois terços dos votos contados. Derrubado por um golpe (mais um!) oito meses depois, exila-se... nos EUA.
Em Setembro de 1994, uma "força multinacional", liderada pelos EUA, entrou no Haiti para reempossar Aristide. Até 2000, o mandato de Aristide é uma sucessão de crises e, neste ano, a oposição das elites acusa-o de fraude nas eleições realizadas, passando em 2003 a reclamar a sua renúncia. Em 2004 estalam confrontos armados na capital, provocados por milícias da direita, e os EUA intervêm de novo com as suas tropas, depondo Aristide e enviando-o para o exílio, mas desta vez para um país africano... São mandatados pela ONU (de novo, sempre eles!) para comandar mais uma "força multinacional" de intervenção, destinada a restabelecer as sacrossantas "ordem e autoridade". Cedendo esse papel aos militares brasileiros, desde então o Haiti vive, mais uma vez na sofrida história do seu povo, sob ocupação de forças militares estrangeiras ao serviço de uma inalterada estratégia imperialista. O presidente actual é René Préval, um dissidente do partido de Aristide, eleito em 2006 com o apoio da muito conveniente "comunidade internacional"/versus EUA.
O infernal ciclo de dependência e submissão haitiana face aos EUA vai prolongar-se até aos nossos dias. Com um cortejo dramático de todo o tipo de carências que continua, ininterruptamente, a flagelar as populações deste martirizado país. A corrupção do poder campeia; a miséria extrema e a fome fustigam mais de 90% do povo haitiano; a total inexistência de infra-estruturas essenciais - o Haiti possui somente 1.000 km de estradas asfaltadas -, deixa as populações sem meios de vivência minimamente civilizados; a completa carência de serviços sociais e de organismos de gestão económica dos recursos do país, remete os haitianos para um dos últimos lugares entre os países mais subdesenvolvidos.
Um facto chocante, recentemente relatado por militares brasileiros: o povo haitiano, procurando sobreviver contra a fome, come "biscoitos" de lama, feitos com barro, misturado com açúcar ou sal, gordura ou margarina, ou algum vegetal! E ao invés de fornos, a massa resultante é seca ao Sol, na rua. Estas práticas de sobrevivência, que nos envergonham a todos nós, humanos, e que remetem grande parte do povo do Haiti para um estádio social "pré-histórico" -, não nos enganemos, não são do pós-terramoto; são do seu dia-a-dia, anterior ao cataclismo que agora o vitimou.
Nestes dias de caos instalado no país, com um "governo" totalmente inepto e corrupto - a revelar a manifesta fraude da gestão da ONU, que em seis anos nada foi capaz de realizar para apoiar de facto aquele povo, desde sempre colocado sob suspeita - nestes dias dramáticos para o martirizado povo haitiano, os meios de comunicação mundiais divulgam doações financeiras, entregas de géneros alimentares, tendas, cobertores, água, noticiam sucessivos embarques e chegadas ao Haiti de equipas de resgate e apoio aos sobreviventes do violento sismo. Tudo o que for enviado e feito nunca será demasiado.
Mas, infelizmente, em tempos de alargada solidariedade internacional misturam-se e confundem-se atitudes muito distintas, desde a hipócrita oferta de ajuda pelos maiores responsáveis pela anterior e continuada miséria do povo haitiano - os EUA -, desde entidades empresariais que, qual corvos em torno de cadáveres, sempre surgem prontas a ganhar rios de dinheiro com as verbas para a "reconstrução", até às solidárias e desinteressadas ajudas de alguns poucos governos, instituições e pessoas como nós, verdadeiramente amigos dos haitianos, procurando formas de apoio e de solidariedade que façam sentir ao povo mártir do Haiti que tem amigos, que não está só perante a catástrofe destes dias, que os seus amigos (por vezes dele esquecidos, por vezes distantes) sempre estiveram ao seu lado e agora tudo irão fazer para dele ficarem mais próximos, mais unidos pelos fraternos e indestrutíveis laços da solidariedade internacionalista.
A nós, aos trabalhadores, aos revolucionários, aos democratas sinceros e anti-imperialistas, cabe-nos desenvolver as nossas campanhas de solidariedade sincera, tanto política como material quanto possível, ao mesmo tempo que temos o dever de desmascarar o imperialismo e as suas sujas manobras - fartamente veiculadas pela imprensa dominante que o serve -, manobras e propaganda que visam manifestamente manipular os genuínos sentimentos de compaixão e de apoio, hoje sentidos pela generalidade dos povos em todo o mundo.
Adenda:
O desembarque ontem (16/1) no Haiti, de um maciço efectivo militar dos EUA - 10.000 homens! -, ocupando o aeroporto e assumindo praticamente todos os poderes, vem confirmar de forma eloquente os verdadeiros propósitos do imperialismo estadunidense. Acabados de chegar, impõem a proibição de aterrar no aeroporto de Port-au-Prince a um avião francês, que transportava um hospital de campanha e equipas médicas , não obstante todas as diligências diplomáticas do governo francês que, após ser obrigado a alterar a rota do seu avião de transporte para a República Dominicana, acabou por decidir divulgar uma nota pública de crítica à arrogância e prepotência do governo dos EUA. E tudo isto se passa nestas horas dramáticas, onde um socorro pode decidir vidas humanas. E é isto que é propagandeado como o "apoio" do país-modelo, da "terra da liberdade e da democracia"...