SÓ NÃO SE ENGANA QUEM CEDE AO MEDO DE CAMINHAR NO DESCONHECIDO - SÓ SE PERDE AQUELE QUE NÃO ESTÁ SEGURO DO RUMO QUE ESCOLHEU.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

As insurreições árabes e o mundo - Uma útil reflexão.

Pelo interessante material informativo que contém, abaixo se publica uma reflexão de um autor(*) conhecedor da realidade árabe, organizada para uma conferência recentemente realizada na UniSanta, Santos, SP, Brasil, com o título "A Revolução no Mundo Árabe e a Nova Geopolítica Mundial". Espelhando no seu próprio conteúdo (e em algumas opiniões do autor) o carácter muito contraditório da situação actual no norte de África e no Médio Oriente, tem o mérito de procurar olhar a realidade com uma perspectiva confiante nas energias transformadoras dos povos árabes, não obstante as muitas debilidades políticas e orgânicas das forças revolucionárias respectivas e a violência da contra-ofensiva desencadeada pelo imperialismo. E, na verdade, tudo continua em aberto.  


O MUNDO ÁRABE

 São 21 países árabes, mais a Palestina (ocupada por Israel) e o Sarauí (ocupado por Marrocos);
 Desses países, oito são monarquias absolutistas (ou chamadas petromonarquias) e 13 são “repúblicas” (de fachada);
 As potências imperiais França, Inglaterra e Itália dominaram diversos desses países a partir do século XIX;
 As “independências” nacionais iniciam-se em 1922 e concluem-se em 1977.

Dados Económicos e Populacionais

 Os árabes são 347 milhões no mundo, ou 5,18% do total (de 6.710.926 habitantes do planeta);
Seu PIB somado é de 2,477 trilhões de dólares (um PIB brasileiro), ou 4% do PIB da terra (que é de 61,963 trilhões de dólares no total);
 Suas reservas de petróleo são da ordem de 685,11 bilhões de barris, ou 50,81% do total do planeta (que é de 1,348 trilhões de barris – reservas provadas);
 Sua produção diária visando a exportação é de 22,967 milhões de barris/dia ou 27,26% do total do planeta (que é da ordem de 84,24 milhões de b/d).

Árabes ou Muçulmanos?


• Nem todo árabe é muçulmano e vice-versa, ou seja, milhões de muçulmanos não são árabes;
• Países árabes são 21 e islâmicos são 47;
• Existem hoje no mundo 1,6 bilhões de muçulmanos, dos quais 1,4 bilhões são sunitas e 0,2 bilhões são xiitas;
• Apenas 8% dos árabes não são muçulmanos (27,76 milhões). Maioria desses são cristãos cooptas ou ortodoxos;
• Em relação ao mundo, apenas 19,95% dos muçulmanos do planeta são árabes (um em cada cinco).


A QUESTÃO CENTRAL É O PETRÓLEO

 Os EUA consomem todos os dias 19,497 milhões de barris de petróleo. Produzem, porém, apenas 7,27 milhões de barris (37,42%). Dessa forma, importam todos os dias 12,22 de milhões de barris! (Fonte: US Energy Information Administration 2010);
 Dados de 2009 indicavam que esse país possui uma frota de 250 milhões de veículos movidos a derivados de petróleo. Toda a sua economia é movida a petróleo. Não possuem nenhuma alternativa energética que vá superar o petróleo pelo menos num prazo de 30 a 50 anos.


Importadores Não Produtores de Petróleo

Japão – 5,57 milhões de barris por dia
Alemanha – 2,677 milhões de barris por dia
 Coreia – 2,061 milhões de barris por dia
 França – 2,060 milhões de barris por dia
 Itália – 1,874 milhões de barris por dia
 Espanha – 1,537 milhões de barris por dia
      (Fonte: CIA World FactBook de 2010)


Países Exportadores de Petróleo

 Arábia Saudita – 8,651 milhões de barris por dia
 Rússia – 6,65 milhões de barris por dia
 Noruega – 2,542 milhões de barris por dia
 Irão – 2,519 milhões de barris por dia
 Emirados Árabes – 2,515 milhões de barris por dia
 Venezuela – 2,203 milhões de barris por dia
 Kuwait – 2,146 milhões de barris por dia
 Argélia – 1,847 milhões de barris por dia
 Líbia – 1,525 milhões de barris por dia
 Iraque – 1,438 milhões de barris por dia
(Fonte: US Energy Information Administration de 2010).


Outros Dados do Petróleo
 Das 130 empresas petrolíferas existentes no mundo, 35 são estatais (25,92%), mas estas detêm o controle de 75% de toda a produção mundial;
 Todas as 10 maiores empresas petrolíferas do planeta são estatais;
 As “seis irmãs” privadas da indústria do petróleo (não são mais sete), são: ExxonMobil (EUA); ChevronTexaco (EUA); Shell (Holanda); British Petroleum – BP (Inglaterra); Total S/A (França) e ConnocoPhillips (EUA);
 Estas empresas privadas possuem apenas 10% das reservas de petróleo do mundo; empregam 514 mil trabalhadores e faturaram em 2010 1,697 trilhões de dólares.


REVOLTA OU REVOLUÇÃO ÁRABE?

 Não tenho dúvida sobre isso: estamos vivendo uma revolução em curso. Mas que não sabemos ainda onde vai desembocar. Disputa-se a liderança com os Estados Unidos, a maior potência do planeta.  Vladimir Ilich Ulianov, o Lénine da Revolução Bolchevique de Outubro de 1917, disse que as condições objectivas para uma revolução ocorrem quando “os de cima não conseguem mais governar como antes e os de baixo não aceitam mais ser governados como antes” (Fonte: “Bancarrota da II Internacional”, escrita entre Maio e Junho de 1915). Isso está verificando-se ;
 Entende-se por condições objetivas o desemprego, miséria, fome, baixa salarial, repressão policial. Todos esses elementos estão presentes em praticamente todos os países árabes;
 Resta-nos o debate sobre o caráter da revolução, seus compromissos, seus rumos, suas tarefas, os possíveis acordos internacionais que ela estabelecerá com outros países, se levará o mundo árabe a se afastar do Ocidente ou não.


Comentários sobre a Líbia
Nunca confiámos na chamada “oposição líbia”. Estes possuem escritório de “representação” em Washington. Restabeleceram a bandeira da monarquia do rei Idris, derrubado em 1969. Nunca tiveram expressão política nenhuma, internamente. Imploraram para o Ocidente bombardear o seu próprio país;
 Os EUA continuam a usar a política do canhão. Agora ela vem travestida de ajuda humanitária. Se os EUA estivessem mesmo preocupados com um povo que vem sendo massacrado por um governo, deveria estar neste momento bombardeando sem nenhuma dó o Estado de Israel. Isso é hipocrisia pura! Política de dois pesos e duas medidas.
 A guerra contra a Líbia é a 1ª do chamado AFRICOM – African Commander, que fica sediado na cidade alemã de Stutgard e é comandado pelo general norte-americano Carter Ham. Essa estrutura é parte do Comando Unificado das Forças Armadas dos EUA, composta por seis frotas navais operacionais em todo o mundo, com 11 porta-aviões nucleares, quatro mil aviões caças e quatro milhões de homens no activo;
 Infelizmente, como diz Fiori (UFRJ), temos muita gente que ainda acredita que a guerra contra a Líbia ocorre por “causas humanitárias e pelos direitos humanos” e para “levar democracia” para esse país;
 Não tenhamos dúvidas: a intervenção na Líbia extrapola todos os limites do direito internacional e a Carta das Nações. A NATO agora chega ao Mediterrâneo e dentro da África. Faz parte da estratégia do EUA para tentar “moldar” um novo Médio Oriente;
 Obama tem dito que essa é uma “operação militar por tempo limitado”. Puro jogo de palavra. Isto é uma guerra! É preciso dizer que esta é a 3ª guerra contra países muçulmanos na qual Obama se mete (Afeganistão, Iraque e, agora com ele, a Líbia);
 O que se previu há três anos, quando os estatutos da NATO foram modificados, autorizando que ela actuasse fora da Europa, quando se dizia que era para atacar países “rebeldes” em qualquer parte do mundo, vem se confirmando. Tenta-se agora fazer com que a guerra contra a Líbia seja uma “guerra da NATO”;
 O que temos percebido é já uma profunda divisão, tanto entre os países árabes como nos governos europeus. A resolução da ONU vem sendo desrespeitada completamente. O objectivo claro é instalar um governo dos tais “rebeldes” que já esta sendo rapidamente reconhecido por boa parte do mundo. Vão apoderar-se do petróleo líbio.


Comentários sobre a Síria
• As ruas sírias, como as ruas árabes em geral, clamam por mudanças. Mas, a situação desse país e do governo do presidente Dr. Bashar Al Assad tem particularidades que as distingue de outros países árabes do Oriente Médio;

• A Síria e seu governo tem inimigos antigos e poderosos no OM e no mundo. Entre eles estão os Estados Unidos, a Arábia Saudita e Israel;
• A Síria forma hoje com o Irão e a Turquia, uma poderosa aliança que apoia a luta pela libertação da Palestina (com o Hamas e o Fatah) e a Independência do Líbano (com o Hezbolláh);
• A queda do atual governo sírio e a entrada de Damasco no campo ocidental é uma imensa e significativa vitória estadunidense e imperialista. Praticamente enterra a revolução e a primavera árabe;
• Não tem grau de comparação entre a importância estratégica que tem a Líbia e a Síria no cenário do OM. Derrubar hoje Kadafi e colocar um aliado americano na Líbia quase nada muda. A Líbia já era aliada americana e da Europa desde 2002

A Síria forma com os governos do Irão e da Turquia um sólido eixo que evita um controle total dos EUA no MO; o objectivo do imperialismo é quebrar esse eixo;
 A derrubada do governo sírio actual seria para colocar no poder um subserviente a Washington e à sua política;
 Está em jogo a retirada de Damasco e o encerramento dos escritórios de todas as organizações guerrilheiras e revolucionárias que actuam nos países do Médio Oriente, em especial da Palestina e do Líbano. A Síria concede democraticamente abrigo a estas organizações (Hamas, Hezbolláh, Fatah, FDLP, FPLP, PCP, PCL, Jihad Islâmica entre outras);
Procuram isolar ainda mais o Irão, enfraquecendo o Hezbolláh, que agora formou um novo governo no Líbano, com Nagib Mikat como 1º Ministro;


Comentários sobre a Palestina
Obama tem feito discursos dirigidos ao mundo árabe. Não nos iludamos. Nada de novo no front. Vejamos algumas conclusões preliminares:
Tem dito que a ONU não deve proclamar o Estado Palestino na sua 66ª Assembleia Geral que se inicia em 21 de Setembro;
Continua apontando o dedo contra o Irão;
 Voltou as suas baterias contra o acordo entre a Fatah e o Hamas (e mais 11 outros grupos palestinos que lutam contra a ocupação israelense);
 Tem falado de forma clara sobre o carácter judaico do Estado de  Israel, coisa que nenhum outro presidente havia feito de forma tão enfática;
 Confessou em público que os Estados Unidos continuarão tentando controlar todas as rebeliões, revoltas, para manter o seu domínio naquela estratégica região. Os EUA tornam-se assim a maior força contra a democracia no Oriente Médio.
 Na próxima semana [no passado dia 21/9] instala-se em NY, às 15h (16h em Brasília), a 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Será a 1ª vez que uma mulher discursará na abertura e será a presidente Dilma. Ela abrirá os trabalhos apoiando que a ONU aceite e admita a Palestina como seu 194º Estado-Membro;
 Essa votação é crucial e estratégica. Não só para reparar uma injustiça que já totaliza quase 64 anos (desde que a ONU aprovou dois estados pela Resolução 181 de 29/11/1947), como para impor uma derrota ao imperialismo estadunidense e ao sionismo direitista de Israel;
 Mesmo que os EUA vetem a Resolução dos palestinos, a AG pode votar o tema e eles serão admitidos como estado não-membro (igual ao status do Vaticano). Ainda assim, isso é extremamente positivo, pois tem todos os direitos que um estado normal, assina convénios com todos os países, recebe recursos, vota em tudo na ONU (menos na AG) e passa a ser membro do TPI, podendo pleitear, inclusive, a prisão de Netanyahú por crimes contra a humanidade cometidos contra os palestinos. Esse é o grande medo e pavor dos sionistas.

Reivindicações Unificadas das Revoluções no Mundo Árabe

1 – Revogação do Estado de Emergência;
2 – Libertação dos presos políticos;
3 – Liberdade de organização partidária;
4 – Liberdade sindical e social;
5 – Liberdade da imprensa e de expressão;
6 – Eleições livres em todos os níveis;
7 – Convocação de Assembleias Constituintes Livres, Democráticas e Soberanas.


UMA CONTRA-REVOLUÇÃO EM MARCHA

 O dedo do imperialismo norte-americano está tentando de todas as formas barrar a Revolução Árabe. Alguns sinais disso podemos observar:
1. A invasão do Bahrein pela Arábia Saudita, com apoio americano para proteger a sede da 5ª Frota e o massacre do povo bareinita;
2. A intervenção imperial directa na Líbia, instaurando um governo aliado e subserviente aos EUA;
3. A tentativa de manipulação e o controle da revolução no Egipto e na Tunísia;
4. Apoio total e integral dos EUA a Israel opondo-se a que a ONU proclame o Estado Palestino seu membro agora em Setembro. Obama reconheceu o caráter judaico de Israel;
5. Manobras para derrubar o governo da Síria e colocar no poder um governo aliado de Washington.
Tudo isso, se consumado, colocará em risco os rumos da revolução árabe que poderá ser derrotada.



CONCLUSÕES
1. Obama perde neste processo.  O seu discurso do Cairo, de Julho de 2009, estendendo a mão para os muçulmanos, provou-se ser uma farsa. Não deu passo algum para respeitar os muçulmanos e os árabes em geral. Insiste em classificar partidos políticos como o Hamas e o Hezbolláh como “terroristas” e não o são. Vai-se antagonizando com mais de 1,6 bilhões de muçulmanos em todo o mundo. Vetar a Palestina na ONU ampliará o fosso entre os EUA e as nações árabes e muçulmanas.
Os novos governos árabes não serão tão subservientes com os norte-americanos. Aquilo de que os Estados Unidos sempre tiveram pavor poderá acontecer, que é a participação, com destaque, da Irmandade Muçulmana nos governos árabes. Estes países tendem a afastarem-se da órbita da NATO, da União Europeia e mesmo dos Estados Unidos.
Israel poderá sair derrotado. Perdeu com o seu discurso de que o maior inimigo é o Irão, que este precisaria ser derrotado e bombardeado e que seu programa nuclear visa a construção da bomba atómica. Seu veto e suas ameaças à criação do Estado da Palestina vai deixá-lo cada dia mais isolado do mundo árabe e islâmico.

Um novo Oriente Médio será construído. Deverá crescer a democracia, os partidos terão maiores liberdades, bem como a imprensa. Eleições gerais devem ocorrer em curto prazo no Egipto e na Tunísia. O Médio Oriente nunca mais será o mesmo depois deste imenso tremor político ocorrido.
O inimigo central continuará sendo os Estados Unidos. Por isso a batalha pelos novos rumos e o controle para onde vai a revolução árabe é dificílima.

O islão não é a solução. Dificilmente veremos um Egipto, uma Tunísia ou qualquer outro país árabe como repúblicas islâmicas. Os países continuarão sendo laicos em toda a região, tal qual o Iraque e a Síria sempre foram.
Novas alianças surgem no Oriente Médio. Está em curso uma nova e histórica aliança política e sindical, envolvendo a juventude, os estudantes e os movimentos sociais em geral. Será preciso que seculares, nacionalistas e patriotas (nasseristas), socialistas e comunistas, muçulmanos e cristãos progressistas, se unam numa plataforma comum, para fazer valer as suas reivindicações históricas. É crucial que as organizações de massa, os sindicatos, os partidos políticos organizados mantenham a pressão das ruas lutando pela verdadeira democratização dos países árabes.

O Irão e a Turquia fortalecem-se no Médio Oriente. Por razões diversas, mas em especial por sempre terem apoiado a causa palestina. O Irão em particular sempre apoiou todos os movimentos revolucionários antiamericanos na região. Programa nuclear para fins pacíficos do Irão segue firme. A Turquia, que rompeu com Israel e se aproxima dos árabes, sai como grande líder no processo de reconfiguração do MO.
Crescerá o nacionalismo árabe. Fundado por Gamal Abdel Nasser, poderá ganhar papel preponderante. Esse nacionalismo defende a soberania e a independência dos países árabes, respeito aos direitos dos seus povos e solidariedade ao povo palestino. A esquerda poderá crescer, em especial comunistas e socialistas.

Al Qaeda, uma das grandes derrotadas. O fundamentalismo não foi e não será alternativa. A organização Al Qaeda sempre pregou a violência e o estado islâmico. O que se tem visto, além da rejeição ao estado teocrático, é uma revolução de carácter mais insurrecional e urbana, com baixa violência por parte das massas árabes.
Modelo neoliberal em xeque. Difícil que os rumos da revolução árabe substituam o modelo capitalista pelo socialismo. No entanto, encontra-se em xeque o modelo de capitalismo financeiro denominado neoliberal.

Mentiras que caíram por terra. A primeira é que as redes sociais da Internet e os celulares foram os grandes responsáveis pela revolução árabe. Apenas 20% da população egípcia têm acesso à Internet (em outros países, ainda menos) e apenas um terço possui celulares. A segunda, que não houve líderes e o processo foi espontâneo. É diferente não aparecerem do que não terem lideranças.
Teorias que caíram por terra. Pelo menos duas. A de Francis Fukuyama (O Fim da história). E a de Samuel Huntington (Choque de civilizações). A de Fukuyama já estava desmoralizada há uma década. Agora, enterra-se de vez a de Huntington.

Uma revolução ainda não concluída. Chu En Lai, líder revolucionário chinês, ao ser indagado em 1970 sobre o que achava da revolução francesa de 1789 respondeu: “ainda é cedo para avaliarmos”. Isso vale para o MO.
Como disse Danton, líder dessa revolução, “precisamos de audácia, mais audácia e sempre audácia”. É verdade. Ele foi guilhotinado e quem o guilhotinou também morreu dessa forma. São as idas e vindas de uma revolução. Depois disso veio Napoleão (1800), a Restauração (1814), a Revolução de 1848 (incendiou parte da Europa), a Comuna de Paris (em 1871). Por isso, muita cautela ao avaliarmos a Revolução Árabe.

Crise e declínio dos Estados Unidos. Os EUA sofrem o maior aprofundamento e desestabilização no seu processo de declínio da sua posição hegemónica no sistema de relações internacionais com a presente Revolução Árabe, que tem um sentido democrático, popular e anti-imperialista. Como diz Lawrence Summers, ex-reitor de Harvard e chamado “declinista”: “como pode o maior devedor do planeta continuar sendo a maior potência económica”? De fato, não é possível.

Democracia se constrói pela soberania de um povo. Os EUA passaram anos afirmando que devem levar a “democracia” para o Médio Oriente. Fico com o Prof. Andrew Bacevich, da Universidade de Boston, que afirma: durante nove anos os EUA forçaram uma porta (democracia no MO), que só se abre para fora. E mais: essa porta só se abre por vontade própria. Os acontecimentos das últimas semanas demonstraram com clareza que não apenas partes importantes do Médio Oriente estão prontas para a mudança, mas também que esse impulso vem de dentro.

(*)Prof. Lejeune Mirhan – Sociólogo, Escritor e Arabista. Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabes de Lisboa e Director do Instituto Jerusalém do Brasil. Colunista de Oriente Médio do Portal da Fundação Maurício Grabois – FMG. Colaborador da Revista Sociologia da Editora Escala. Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de SP (2007-2010), Presidente da Federação Nacional dos Sociólogos – Brasil – FNSB (1996-2002) e Vice-Presidente da Confederação Nacional das Profissões Liberais – CNPL (2002-2005). Foi professor de Sociologia, Ciência Política e Métodos e Técnicas de Pesquisa da Unimep entre 1986 e 2006.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Discurso de Nikos Seretakis (PC da Grécia) na Univ.Fed.do Rio de Janeiro -14/09/2011


Caros amigos;

Em nome do KKE (Partido Comunista de Grécia), gostaria de agradecer-vos pelo vosso gentil convite para participar e contribuir neste importante seminário sobre os 140 anos da Comuna de Paris.
Aproveito esta oportunidade para agradecer a todos os camaradas, trabalhadores e jovens do Brasil que manifestam sua solidariedade com as lutas do KKE e da PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores), o movimento sindical classista em nosso país.
O tema que este seminário aborda é de grande importância teórica, política e prática, especialmente em condições de crise capitalista, porque o estudo das experiências, positivas e negativas, das revoluções anteriores e da construção socialista, a defesa das leis do desenvolvimento do socialismo e a defesa da contribuição histórica da União Soviética e em geral do socialismo no século XX, são condições imprescindíveis para construir hoje uma estratégia revolucionária, cientificamente elaborada.

O legado político da Comuna de Paris
O grande heroísmo de homens, mulheres e até crianças que deram suas vidas por uma nova sociedade no primeiro assalto operário ao céu, a experiência da Comuna de Paris e as lições tiradas do curso dos 72 dias do primeiro poder operário no mundo, continuam vigentes.
A burguesia mostrou-se capaz de cometer os maiores crimes, a fim de salvar o poder do capital. Optou por se aliar aos invasores do exército prussiano, para massacrar a classe trabalhadora de Paris. Provou que tinha deixado para trás definitivamente seu papel progressista anterior.
A principal lição das experiências da Comuna de Paris é, como escreveu Marx, que “a classe operária não pode simplesmente tomar posse da máquina estatal existente e colocá-la em movimento para os seus próprios fins.” Ao contrário, como afirmou Lenine, “a classe operária deve quebrar, destruir a “máquina do Estado”, não se limitando apenas a se assenhorear dela “. A ditadura do proletariado, o poder mais democrático até quando haja Estado, em vez da ditadura do capital.
A segunda lição fundamental que a história da Comuna nos ensina é que o novo poder deve começar imediatamente “a expropriação dos expropriadores”, isto é, a socialização dos meios de produção concentrados.
A Comuna de Paris dá resposta a todos os derrotistas e conformistas que consideram a correlação de forças como algo estático, que fecham os olhos à objectiva agudização das contradições e a maturação da luta de classes.
Finalmente, a história da Comuna ensina, através da experiência de sua derrota, que o proletariado deve ter estratégia e táctica com base científica, conhecimento profundo das leis que regem a luta de classes. Esta tarefa pode ser realizada apenas por um partido comunista com teoria revolucionária, em conflito com a ideologia burguesa, o reformismo e o oportunismo.
Estas conclusões têm importância vital para o movimento revolucionário. Foram confirmados pelas experiências seguintes, ou seja, da Grande Revolução de Outubro, na Rússia, da Revolução Cubana e da construção socialista no século passado. As lições extraídas das experiências das revoluções e contra-revoluções, dos êxitos e retrocessos nos dão força para a luta que travamos hoje. Avançamos para o futuro ensinados pelo passado.
Essas experiências tiram ilusões de que seja possível um governo colocar o Estado burguês a serviço dos interesses do povo. Tais ilusões custaram caro ao movimento popular no passado (como no caso do Chile) e hoje em dia tornam-se ainda mais perigosas, sendo que o movimento operário encontra-se perante desafios muito grandes, onde a escolha entre a linha de ruptura e a adaptação determinará a direcção dos acontecimentos.
As contra-revoluções, os retrocessos do socialismo na União Soviética e em outros países socialistas, não alteram o carácter da nossa época, como época da transição do capitalismo para o socialismo.
A necessidade da revolução socialista, a derrubada do capitalismo e a construção da nova formação sócio-económica comunista, não é determinada pela correlação de forças num dado momento histórico, mas pela exigência histórica da resolução da contradição fundamental entre o capital e o trabalho, a abolição da exploração do homem pelo homem, a abolição das classes.

A crise capitalista e as lutas na Grécia
Permitam-me apresentar alguns aspectos da luta actual do KKE que talvez sejam interessantes para vocês, do ponto de vista da troca de experiências.
A crise económica capitalista encontrou o KKE ideológica e politicamente preparado, em razão de nossas análises sobre as seguintes questões:
- o desenvolvimento do capitalismo grego, nas condições da sua incorporação à União Europeia;
- a política de alianças, que aperfeiçoamos e que se baseia na estrutura social e de classes do país;
- o trabalho que desenvolvemos nos últimos dezoito anos para tirarmos conclusões científicas sobre a construção socialista no século XX e sobre as causas da vitória da contra-revolução, particularmente aquelas de carácter interno.
O KKE enfatizou, desde o primeiro momento, que a crise actual é uma crise de super-produção capitalista, que exprime a agudização da contradição principal do capitalismo. Mostrou que as medidas anti-populares expressaram necessidades do capital para assegurar a sua competitividade e rentabilidade.
O nosso Partido chamou atenção para as contradições dentro da União Europeia, os conflitos entre as potências imperialistas principais e com as forças capitalistas emergentes, como a China – onde todos os factos provam que as relações de produção capitalista já predominam – a Índia, o Brasil, o papel da Rússia, etc.
Mais de 20 greves gerais no âmbito nacional foram organizadas com êxito, de 2010 até agora, além de inúmeras greves por ramos, sectores e empresas, manifestações, ocupações, com a participação de centenas de milhares de trabalhadores.
Os comunistas estão na vanguarda destas batalhas, lutando nas fileiras da PAME, que congrega todos os Sindicatos, Federações, Centros Laborais e Comités de Luta das empresas e sectoriais de orientação classista, envolvendo milhares de trabalhadores.
A organização das lutas se faz em condições de polémica aguda com as forças do sindicalismo ao serviço do patronato, com as direcções das confederações gerais no sector privado e público, cujas maiorias são compostas por quadros do PASOK (partido social-democrata, actualmente no poder) e da ND (partido liberal) tendo, ao mesmo tempo, o apoio das forças oportunistas. Este bloco constitui um pilar para a estratégia do capital. Defende a União Europeia, semeia ilusões e mistificações e cultiva a colaboração de classes.

Organização nos locais do trabalho – a aliança social
Tomamos medidas adicionais para consolidar a intervenção do partido e realizar trabalho de massas nas fábricas e na indústria em geral, porque aqui se coloca o terreno principal da luta e serão decididos o desenvolvimento da luta de classes e a perspectiva das alianças sociais. Neste quadro, procedemos a uma reestruturação interna na organização dos membros do Partido e à unificação das organizações partidárias que têm um campo de acção unificado.
Colocamos a questão do reagrupamento do movimento operário como questão ainda mais urgente. Elaboramos um quadro de acção e de reivindicações comuns para o movimento operário e sua aliança com as camadas médias mais pobres, os autónomos, os artesãos, os pequenos comerciantes e agricultores, os movimentos da juventude e das mulheres.
Demos impulso à formação duma aliança social a nível nacional na base desse quadro comum de objectivos de luta. É um acontecimento que se dá pela primeira vez na Grécia em tal direcção. Esta iniciativa tomada pela PAME foi apoiada pela Frente Militante dos Camponeses (PASY), a Frente Anti-monopolista dos Trabalhadores por conta própria e Pequenos Comerciantes (PASEVE). Este agrupamento alargou-se com a participação da Frente de Luta dos Estudantes (MAS) e a Federação das Mulheres Gregas (OGE). Nasceu assim um núcleo da aliança social sustentada em organizações e forças classistas e radicais. Isto levou à formação de comités populares desta aliança em bairros, comités de luta em locais de trabalho etc.
Nós queremos que os comités populares sejam formados de maneira bem preparada, através de amplos processos de massas, que não sejam uma mera “etiqueta”. Que se dirijam às mais vastas massas populares em volta de problemas específicos ou de um conjunto de problemas. Cada parte constituinte desta aliança (sindicato, associação de mulheres, outra organização) continua a sua actividade no seu campo ou sector, em locais de trabalho, zonas industriais, bairros, universidades e escolas. Não se trata de um agrupamento temporário, mas de uma força que facilita a entrada dos trabalhadores e outras camadas populares à luta organizada numa direcção anti-monopolista e anti-imperialista
O êxito e força desta aliança jogam-se nas fábricas, nos locais de trabalho, onde o conflito entre o trabalho e o capital se expressa clara e directamente. Tem havido já alguns resultados positivos na readmissão de trabalhadores despedidos, no pagamento de salários e indemnizações e na ligação da electricidade a famílias que não pagaram as facturas, devido à sua pobreza. Têm-se dado e continuam a dar-se importantes mobilizações pela abolição das portagens nas auto-estradas, os novos impostos, os problemas da saúde, contra o fechamento de escolas e outros.

Reivindicações e politização da luta
Prestamos cuidado imenso às reivindicações do movimento operário. As lutas que se limitam a certas reivindicações parciais, cujo objectivo é mitigar as consequências da crise, não são eficazes; os governos mostram dureza, correm riscos, contudo, não podem fazer as concessões que faziam no passado.
Cada luta por questões específicas deve contribuir na organização, concentração e preparação das forças populares para a derrubada do sistema explorador, e abrir o caminho para o poder do povo e a economia do povo, para o socialismo.
O nosso critério  é que as exigências vão ao encontro das necessidades actuais dos trabalhadores. Ponto de partida é a afirmação de que a classe operária é a produtora da riqueza e deve reivindicá-la. Desta maneira, elevamos a exigência dos trabalhadores, promovemos a consciência dos interesses de classe comuns entre as camadas populares e forjamos a aliança social
Existe hoje uma oportunidade histórica no terreno da incessante luta de classes: dirigir o pensamento e a acção dos povos em luta – sob a direcção da classe operária – para o poder da classe trabalhadora. Deve-se entender que, se mesmo num determinado país, for eleita pelo povo uma maioria parlamentar favorável aos trabalhadores e se nessa base se formar um governo, este não será capaz de ultrapassar os limites das leis básicas do capitalismo se não resolver as questões da socialização dos principais meios de produção, da desvinculação do país da União Europeia e da OTAN, da planificação da economia e do estabelecimento do controle operário. É uma oportunidade para amadurecer a ideia de que é imperativa a mudança da classe que detém o poder estatal e não apenas uma mudança de governo.

A proposta politica do KKE
Α proposta politica do KKE resume-se à consigna: Frente Democrática, Anti-Imperialista, Anti-Monopolista, pelo poder popular e economia popular.
Para que a economia popular possa existir, visando satisfazer as necessidades da população e não às necessidades do lucro, é necessário resolver a questão da propriedade.
Isto implica: mudança nas relações sociais de propriedade, historicamente ultrapassadas, que determinam o sistema politico. Socialização dos meios de produção básicos e concentrados nas seguintes áreas: energia, telecomunicações, riqueza mineral, mineração, indústria, abastecimento e distribuição de água, transportes. Socialização do sistema bancário, do sistema de extracção, transporte e gestão dos recursos naturais; do comércio exterior; construção de uma rede centralizada de comércio interno. Sistemas exclusivamente públicos, gratuitos e universais de educação, saúde, de bem estar e de previdência social.
Ao lado do sector socializado, poderá se formar um sector de cooperativas de produção ao nível da pequena agricultura, em ramos onde a concentração tenha um nível baixo. Ambos sectores estarão incluídos num mecanismo central de planeamento económico.
O planeamento central é imprescindível para que se formulem as escolhas e os objectivos estratégicos, para priorizar sectores e ramos da produção, para determinar aonde nossas forças e nossos meios deverão ser concentrados. É uma necessidade que deriva do próprio desenvolvimento social.

Que poder pode assegurar um tal rumo de desenvolvimento
Hoje é possível agrupar a classe operária, camadas intermédias da cidade e do campo, todos os trabalhadores, apesar do nível de acordo com a concepção do KKE sobre o socialismo, em torno de reivindicações e de objectivos anti-imperialistas e anti-monopolistas. No âmbito da aliança popular podem existir forças com diferentes concepções sobre o poder. Para nós comunistas, o poder popular não pode ser outro senão o poder da classe operária, o poder socialista.
O nosso partido no seu 18º congresso enriqueceu a sua concepção programática sobre o socialismo, utilizando as conclusões sobre a construção do socialismo na URSS durante o século XX.
O Estado revolucionário da classe operária, a ditadura do proletariado, tem o dever de obstruir as tentativas da classe burguesa e da reacção internacional para restaurar o domínio do capital. Tem o dever de criar uma sociedade nova com a abolição da exploração do homem pelo homem. As suas funções organizativa, cultural, política, educacional e defensiva são guiadas pelo Partido da classe operária. Dará expressão a uma forma mais elevada de democracia, tendo como característica fundamental a participação enérgica da classe operária, do povo, na resolução dos problemas básicos da construção da sociedade socialista e no controle do poder de Estado e dos seus órgãos. É um órgão da classe operária na luta de classes, que continua através de outras formas e sob novas condições.
O centralismo democrático é princípio fundamental do Estado socialista. É indispensável que o exercício do controle operário seja garantido na prática.
O poder revolucionário da classe operária basear-se-á nas instituições que nascerão da luta revolucionária. As instituições parlamentares burguesas serão substituídas por novas instituições do poder operário.
O poder de Estado da classe operária será baseado nas unidades de produção, nos locais de trabalho, através dos quais a classe operária exercerá o controle social da administração e eleger a maioria dos representantes para os órgãos de poder (outras vias de eleição são as escolas e faculdades, as organizações de massas e das mulheres).
A representação das cooperativas de agricultores e de pequenos produtores autónomos assegura sua aliança com a classe operária. O poder popular cuida da composição social dos órgãos em todos os níveis e em particular dos órgãos superiores do poder.
O mais alto órgão do poder de Estado será um organismo de trabalho – que legislará e governará ao mesmo tempo – investido dos poderes executivo e legislativo dentro do seu âmbito de competências. Não é um parlamento, os seus representantes não são permanentes, podem ser destituídos, não se desligam da produção e não têm nenhum benefício económico especial pela sua participação nos órgãos de poder do Estado.
As conclusões sobre o carácter do poder popular, a importância da organização dos trabalhadores nos locais do trabalho constituem provisões valiosas. Nos dão força, nos ajudam na luta quotidiana, reforçando a nossa orientação principal para a organização da classe operária dentro das empresas e dos locais do trabalho e a consciência sobre os limites objectivos que têm as instituições e as estruturas que o movimento operário desenvolve nos marcos do capitalismo, promovendo formas da aliança popular que possam, em viragens da luta de classes, tornarem-se embriões do novo poder.
Estimados amigos e camaradas,
Temos a convicção firme de que o século XXI será marcado por uma nova onda de revoluções socialistas ou seja, como o grande poeta comunista grego Yianis Ritsos afirmou, vivemos «o último século antes do homem».

Victor Jara - assassinado há 38 anos, "caminha ao nosso lado".

Manifiesto

Yo no canto por cantar

ni por tener buena voz

canto porque la guitarra

tiene sentido y razon,

tiene corazon de tierra

y alas de palomita,

es como el agua bendita

santigua glorias y penas,

aqui se encajo mi canto

como dijera Violeta

guitarra trabajadora

con olor a primavera.



Que no es guitarra de ricos

ni cosa que se parezca

mi canto es de los andamios

para alcanzar las estrellas,

que el canto tiene sentido

cuando palpita en las venas

del que morira cantando

las verdades verdaderas,

no las lisonjas fugaces

ni las famas extranjeras

sino el canto de una alondra

hasta el fondo de la tierra.



Ahi donde llega todo

y donde todo comienza

canto que ha sido valiente

siempre sera cancion nueva.
 
 
Victor Jara




 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Um acto de dignidade e soberania


O Ministério das Relações Exteriores efectuou a retirada do seu pessoal diplomático na Líbia, onde a intervenção estrangeira e a agressão militar da NATO agudizaram o conflito e impediram o povo líbio de avançar para uma solução negociada e pacífica, no pleno exercício da sua autodeterminação.

A República de Cuba não reconhece o Conselho Nacional de Transição nem nenhuma autoridade provisória e só dará o seu reconhecimento a um governo que se constitua nesse país de maneira legítima e sem intervenção estrangeira, mediante a vontade livre, soberana e única do povo irmão líbio.
O embaixador Víctor Ramírez Peña e o primeiro secretário Armando Pérez Suárez, acreditados em Tripoli, mantiveram uma conduta impecável, estritamente apegada ao seu estatuto diplomático, correram riscos e acompanharam o povo líbio nesta trágica situação. Foram testemunhas directas dos bombardeamentos da NATO sobre objectivos civis e da morte de pessoas inocentes.
Com o grosseiro pretexto da protecção de civis, a NATO assassinou milhares deles, desconheceu as iniciativas construtivas da União Africana e de outros países e, inclusive, violou as questionáveis resoluções impostas pelo Conselho de Segurança, em particular com o ataque a objectivos civis, o financiamento e fornecimento de armamento a uma parte, bem como a instalação de pessoal operacional e diplomático no terreno.
As Nações Unidas ignoraram o clamor da opinião pública internacional, em defesa da paz, e tornaram-se cúmplices de uma guerra de conquista. Os factos confirmam as advertências prévias do comandante em chefe Fidel Castro Ruz e as oportunas denúncias de Cuba na ONU. Agora sabe-se melhor para que serve a chamada "responsabilidade de proteger" nas mãos dos poderosos.
Cuba proclama que nada pode justificar o assassinato de pessoas inocentes.
O Ministério das Relações Exteriores reclama a cessação imediata dos bombardeamentos da NATO que continuam a ceifar vidas e reitera a urgência de que se permita ao povo líbio encontrar uma solução pacífica e negociada, sem intervenção estrangeira, no exercício do seu direito inalienável à independência e à autodeterminação, à soberania sobre os seus recursos naturais e à integridade territorial dessa nação irmã.
Cuba denuncia que a conduta da NATO destina-se a criar condições semelhantes para uma intervenção na Síria e reclama o fim da ingerência estrangeira nesse país árabe. Apela à comunidade internacional a impedir uma nova guerra, insta as Nações Unidas a cumprirem seu dever de salvaguardar a paz e proteger o direito do povo sírio à plena independência e autodeterminação.

Havana, 3 de Setembro de 2011.

(in "resistir")

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Uma Festa de Classe!


Mais uma edição da Festa do "Avante!" está prestes a começar. Amanhã, pontualmente às 19 horas, depois de muitas semanas/meses de trabalho militante, terá lugar o comício de abertura da festa anual dos comunistas portugueses. Há muito se sabe - sabe quem quer, sabe quem a visita e partilha, sabe quem olha a Festa sem preconceitos anticomunistas - que a Festa do "Avante!" é a maior realização político-cultural de massas que se realiza em Portugal, todos os anos se renovando como espaço de alegria e fraternidade, aberto à fruição por multidões de jovens e menos jovens, nos seus espectáculos, nas suas exposições, nas suas mostras culturais - este ano temos a XVII Bienal de Artes Plásticas - nos seus espaços gastronómicos, nos seus debates políticos.
A Festa é isto e muito mais, todos os anos surpreendendo os nossos amigos e também os nossos inimigos, por uma fundamental razão: é uma festa de classe. Isto mesmo fica bem atestado na parte do editorial do jornal "Avante!" que hoje saiu:

"As 6300 participações nas jornadas de trabalho – o número mais elevado dos últimos anos – são bem a demonstração da disponibilidade dos comunistas para a necessária luta que temos à nossa frente.

A confirmar que o Partido que constrói esta Festa que mais ninguém consegue construir é um partido necessário, indispensável e insubstituível.
Esta Festa feita à nossa maneira comunista, com esta participação militante, dedicada, em que cada um, porque participa na sua edificação, a sente como sua, como nossa – e transmite esse sentir aos milhares de visitantes que por lá passarão durante os três dias da sua duração – é bem a demonstração da sociedade que um dia construiremos.
Na realidade, numa situação como a que vivemos – em que as classes dominantes, através de uma poderosa ofensiva desenvolvem a ideologia das inevitabilidades, da resignação, da passividade, do conformismo, do não-vale-a-pena – a construção da Festa do Avante!, nos moldes em que se concretiza, constitui uma resposta frontal a essa ideologia, derrotando-a aqui e agora, numa batalha ganha com o empenhamento, a determinação, a convicção e a certeza, nascidas da consciência revolucionária.
Amanhã lá estaremos, nós, militantes comunistas; mais os que, não sendo filiados no Partido, estão connosco nas lutas de todos os dias."

Palavras certeiras, palavras justas, na avaliação desta característica fundamental da Festa do "Avante!" que a distingue de todos os outros eventos políticos e que explica porque razão todos os outros partidos políticos, sendo todos partidos do grande capital e ao seu serviço, jamais conseguiram ou conseguirão realizar um evento com tal dimensão e grandeza política: esta é uma festa dos trabalhadores. Construída e realizada por trabalhadores - operários, empregados, intelectuais, artistas - e que lhe imprimem uma diferenciadora e indelével marca de classe, marca de classe que a todos eles lhes permite, legítima e orgulhosamente, chamarem-lhe a sua Festa.
Vêm aí três dias carregados de são convívio, de confiança na luta, de futuro. Vamos à Festa!


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Meios de "informação" criminosos


Na cobertura da situação existente em vários países árabes - nomeadamente a Líbia e a Síria -, marcada por uma violenta guerra de contra-informação, poucos são os jornalistas que relatam com isenção a realidade, sendo-lhes necessárias muita determinação e muita coragem para o fazerem. É o caso do autor deste despacho, escrito a partir de Tripoli e já ameaçado de morte, tal como o seu camarada Mahdi Darius Nazemroaya, por "colegas" estadunidenses com os quais partilhava o Hotel Rixos, infestado dos chamados "jornalistas embedded", alguns dos quais elementos da CIA e de outros serviços de inteligência dos países agressores.
Lá como cá, seja na fabricação de climas adequados à dócil aceitação das "verdades" difundidas pelos imperialistas, seja na mistificação e manipulação das situações nacionais internas, os pequenos "goebbels" que pululam as redacções dos grandes meios mediáticos são isto mesmo: criminosos, justamente merecedores de uma firme condenação, hoje política e amanhã criminal, como réus de crimes nojentos de lesa-povos, cometidos diariamente contra as mentes e as consciências dos seus concidadãos mais desprotegidos.

"A propaganda de guerra entrou em nova fase, e hoje envolve a acção coordenada de estações de TV por satélite. CNN, France24, a BBC e a rede al-Jazeera converteram-se em instrumentos de desinformação, usadas para demonizar governos e governantes e justificar agressões armadas.
Essas práticas são crimes tipificados na legislação internacional.  É preciso pôr fim à impunidade desses criminosos ‘midiáticos’.

A informação processada e distribuída sobre a Líbia e a Síria marca um ponto de virada na história da propaganda de guerra, e os meios usados tomaram de surpresa a opinião pública internacional.


Quatro potências – EUA, França, Reino Unido e Qatar – somaram os seus meios técnicos para intoxicar a ‘comunidade internacional’. Os principais canais usados foram a CNN (embora privada, interage com a unidade de guerra psicológica do Pentágono), France24, a BBC e a rede al-Jazeera.


Esses veículos estão sendo usados para atribuir aos governos da Líbia e da Síria crimes que não cometeram, ao mesmo tempo que trabalham para encobrir os crimes que estão sendo cometidos pelos serviços secretos daquelas potências bélicas e pela OTAN.


Assistimos a golpe similar, em menor escala, em 2002, quando os canais Globovisión distribuíram imagens do que seria (mas não era) uma revolta popular contra o presidente eleito Hugo Chávez e imagens de activistas armados, identificados pela Globovisión como se fossem activistas chavistas, atirando contra manifestantes.
Essa encenação tornou-se necessária para mascarar um golpe militar orquestrado por Washington, com a colaboração de Madrid.
Em seguida, depois que o levantamento popular legítimo fez abortar o golpe e reintegrou o presidente eleito, investigações conduzidas pela justiça venezuelana e por jornalistas sérios revelaram que a ‘revolução’ filmada e distribuída pelo canal Globovisión não passava de simulacro, criado por artifícios técnicos, e que nenhum chavista jamais atirara contra manifestantes; e que, isso sim, os manifestantes haviam sido vítimas de atiradores mercenários ao serviço da CIA.


Vê-se acontecer o mesmo, novamente, agora, mas os criminosos são canais de televisão consorciados que distribuem imagens de eventos inexistentes na Líbia e na Síria. O objetivo é fazer crer que a maioria dos líbios e dos sírios desejariam a destruição de suas instituições políticas e que Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad teriam massacrado os seus próprios povos. A partir dessa intoxicação ‘midiática’, a OTAN atacou a Líbia e está em vias de também destruir a Síria.


Facto é que, depois da 2ª Guerra Mundial, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou legislação específica que proíbe e pune essas práticas ‘midiáticas’.


A Resolução n. 110, de 3/11/1947 criou “procedimentos a serem adotados contra a propaganda e incitadores de nova guerra”, condena “propaganda construída explicita ou implicitamente para provocar ou encorajar qualquer tipo de ameaça à paz, quebra de paz negociada ou acto de agressão."


A Resolução n. 381 de 17/11/1950 reforça aquela condenação e condena explicitamente qualquer censura à informação, como parte da propaganda contra a paz.

Finalmente, a Resolução n. 819 de 11/12/1954 sobre “remoção de barreiras que impeçam a livre troca de informação e idéias” reconhece a responsabilidade dos governantes no acto de remover barreiras que impeçam a livre troca de informação e idéias.


Ao fazê-lo, a Assembléia Geral desenvolveu doutrina própria sobre a liberdade de expressão: condenou todas as mentiras que levam à guerra; e impôs o livre fluxo de informações e idéias e o debate crítico, como armas a serem usadas necessariamente a favor da paz.

Palavras e, sobretudo, imagens, podem ser manipuladas de modo a servirem como ‘justificativa’ para os piores crimes.
Nesse sentido, a intoxicação da opinião pública provocada pelas falsas notícias distribuídas por CNN, France24, BBC e al-Jazeera pode ser definida como prática de “crime contra a paz”. 


Essas práticas criminosas ‘midiáticas’ devem ser vistas como mais sérias do que outros crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos pela OTAN na Líbia e por agências ocidentais de inteligência na Síria, na medida em que os crimes ‘midiáticos’ precederam e possibilitaram a prática dos demais crimes.


Todos os jornais, redes de televisão públicas e privadas e todos os jornalistas que operaram na propaganda de guerra – a favor dos ataques militares contra a Líbia (e, deve-se prever, em breve também contra a Síria) – devem ser julgados pela Corte Internacional de Justiça."
 
Thierry Meyssan, "Mathaba"

(Publicado no blog "Lótus Egípcio")

sábado, 13 de agosto de 2011

O Capitalismo, imparável, agoniza

Decorridos três anos após o eclodir da crise estrutural do sistema capitalista global, depois de inúmeras reuniões e conferências dos principais próceres do capitalismo, reunidos em diferentes figurinos - G-5, G-8, G-20, Comissão Europeia, Foruns e Mettings de geometria variável, cimeiras de todos os tipos e participantes, etc  -  tudo eles têm realizado, tudo têm encenado, utilizando todas as teses e estratagemas, com o propósito central e constante de persuadirem os povos com a falsa imagem de si próprios que tudo seriam capazes de solucionar e resolver e que possuiriam o controle e domínio dos acontecimentos. Mas a realidade, com a força dos factos, resiste às mistificações que sobre ela tecem e desmente-os, todas os meses, todas as semanas, todos os dias.
Três anos depois, a crise aprofundou-se, ganhou novos contornos auto-destrutivos, liquidou panaceias e tímidas tentativas de a controlar e investe com toda a brutalidade contra os trabalhadores e os povos, em todos os continentes. Traço novo da actualidade da crise sistémica do capitalismo é o facto de estar hoje a fustigar não já só os países periféricos e menos desenvolvidos mas os que constituem o centro nevrálgico e mais desenvolvido do capital globalizado: os EUA, a U.Europeia, o Japão, irradiando já os seus efeitos letais sobre os "milagrosos" países de reserva estratégica, os chamados "BRICS", até há pouco considerados como possíveis novas "locomotivas" desenvolvimentistas que iriam assegurar, nesta situação de regressão económica do centro, a reprodução do capital.

Se nos planos económico e financeiro/cambial as notícias são aterradoras para os defensores do capitalismo, a esse quadro objectivo soma-se nestes últimos meses e semanas um outro elemento de caracterização da actualidade muito importante: por todo o mundo, praticamente, eclodem revoltas populares, insurreições, movimentos de contestação do sistema capitalista, novas manifestações de protestos e insubmissões populares, tudo configurando um quadro de resistência e de contestação ao "status quo" dificilmente imaginável há pouco tempo atrás para os analistas e comentadores que, ao serviço dos governos e poderes de turno, desempenham o sujo papel da manipulação ideológica da realidade. Primeiro as revoltas e insurreições populares nos países árabes, depois as grandes manifestações e ocupações insurgentes de ruas e praças em numerosas capitais "ocidentais", a par de vigorosas lutas travadas por diversos movimentos operários nacionais, defrontando as forças repressivas e impondo-lhes grandes recuos e derrotas, com novas expressões da luta de classes, com contornos contestatários novos (são ex. os recentes levantamentos populares em estados norte-americanos) e com a vinda às ruas e à luta de populações que ainda há pouco se poderia pensar estarem "pacificadas", submetidas, recuadas (ex., as grandes manifestações em Telavive - 300.000! -, que ainda decorrem). Nas camadas juvenis, nas gerações mais jovens de assalariados precários e sem direitos, crescem as demonstrações de resistência e de maior disponibilidade para o combate social e para lutas de conteúdo político e de rejeição do sistema dominante.
O mundo muda vertiginosamente, num tempo histórico que parece acompanhar os fenómenos da relatividade descritos por Einstein, "encurtando" os espaços e os tempos. Vencendo as barreiras da desinformação e da intoxicação dos grandes "média" globalizantes, os trabalhadores e os povos sentem-se mais próximos, mais irmanados por uma comum e crescente repulsa pelo actual estado de coisas que ainda vigora no mundo capitalista e, vão unificando paulatinamente energias e vontades de mudança, fazendo crescer a confiança nas suas próprias forças, acreditando mais, a cada dia que passa, a cada luta travada, não importa em que canto distante do globo, que "sim, é possível", lutar e enfim conquistar novos avanços no combate por um mundo novo e melhor. A cada dia que passa, o poder dos banqueiros e dos monopólios perde apoios e antigos simpatizantes e ganha novos adversários, novos opositores.
O capitalismo, como sistema mundial, imparável na sua marcha destruidora e anti-humana, de facto agoniza, entrou definitivamente no seu último trajecto vital. Mergulhado em crise profunda e galopante, roído pelas suas próprias e insanáveis contradições,confrontando-se com a óbvia incapacidade de se auto-reformar, recorrendo de forma crescente à guerra imperialista e de extermínio de povos e países inteiros, defrontando uma resistência crescente das massas trabalhadoras e populares, o sistema capitalista já entrou no período final da sua etapa senil. Brutal, desumano, caminha aceleradamente para o seu fim, neste século XXI que sem dúvida testemunhará o seu afundamento e desaparecimento.

Se os dados da realidade contemporânea nos sustentam esta nova visão sobre um capitalismo agonizante, tal não significa que ele aceite o suicídio. Resistirá à morte que se avizinha, debater-se-á contra as suas próprias mazelas mortais, originará ainda incontáveis crimes e sacrifícios - humanos, sociais, ambientais, civilizacionais - mas desaparecerá nos anos ainda das vidas de muitos de nós. Entretanto, esse processo transformador não terá geração espontânea, não resultará de um gradual transição do velho para o novo, qual crisálida miraculosa. A destruição deste sistema explorador será tarefa dos explorados, dos povos em luta contra a sua etapa imperialista terminal. E isto deve constituir a prioridade central da existência e da actividade dos partidos operários e revolucionários.
Neste espaço já anteriormente se escreveu sobre as perplexidades e os atrasos que se evidenciaram na generalidade dos partidos que se afirmam operários e marxistas-leninistas, quando a maior e mais grave crise do capitalismo eclodiu há três anos atrás, apontando-se nessa altura algumas das possíveis razões para esses atrasos e incapacidades. Tais razões, hoje, pouco nos podem já ajudar a sustentar uma análise rigorosa da actualidade nesta segunda metade de 2011. E, sobretudo, é a realidade actual, na sua dialéctica, que nos "empurra" para uma nova avaliação e um novo rumo a darmos ao combate de classes. Em finais de 2008, foi doloroso e gerou estupefacção ouvir dirigentes comunistas aceitarem como necessário a injecção de grandes somas dos recursos públicos na banca, alegadamente justificada pela necessidade de garantir a liquidez dos bancos(!). Hoje, tais erros são absolutamente imperdoáveis. Não mais é possível justificar tais posições oportunistas com o carácter surpreendente e desconhecido da nova situação criada pelo capital. Estamos obrigados - sempre - a avaliarmos de forma séria e autocrítica os erros que cometemos, aprendendo com a experiência a não mais voltar a cometê-los.

Nesta nova realidade, em mutação histórica acelerada, os revolucionários têm o indeclinável dever, perante os trabalhadores e os povos, de erguer corajosamente a bandeira do Socialismo, apontando o caminho da insubmissão e da luta revolucionária à classe operária e a todos os explorados, mostrando e demonstrando-lhes que não existe qualquer outro caminho, não existem terceiras vias ou percursos alternativos, escapatórias. Para as forças revolucionárias esse caminho, único, sólido, consequente e coerente, será sem dúvida muito áspero, muito exigente. Ser-nos-ão necessários muita determinação, muita coragem política, muita moral revolucionária para o percorrer sem hesitações ou tibiezas acomodatícias. Mas, em alternativa, trair este caminho equivalerá a cair no pântano do oportunismo, da conciliação de classes, da traição aos interesses e tarefa histórica do proletariado, tornando os partidos operários em partes integrantes do sistema de opressão e exploração dos trabalhadores e dos povos.

"Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação." (Lénine - "Que Fazer?")

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ode à Loucura

Como homenagem fraterna e solidária aos revolucionários cubanos, nesta data de 26 de Julho, transcreve-se um texto publicado no sítio "Trabajadores.cu" e traduzido e editado no "Solidários". Particularmente a juventude, mas também os mais maduros que resistem e não desistem de lutar por um mundo novo, devemos seguir o caminho desta Loucura saudável, protagonizada há 58 anos em Cuba.

Como explicar que, em meio à repressão e tirania de Fulgencio Batista e seus sicários esses meninos e meninas lançaram-se para o desconhecido e arriscaram seus sonhos mais doces: a namorada, o trabalho, os amigos, a vida.
“Há loucura que fizeram o dia” ... é o que diz numa de suas canções Silvio Rodriguez e, a mim, parece lembrar o 26 de julho de 1953, quando Santiago de Cuba e Bayamo amanheceram com Sol e estilhaços.
De que outra forma, entender a ousadia daqueles jovens intrépidos - atacando os quartéis da Moncada e Carlos Manuel de Céspedes - guerreiros inexperientes de peito aberto às balas e coração transbordando de Pátria.
Como explicar que, em meio à repressão e tirania de Fulgencio Batista e seus sicários esses meninos e meninas lançaram-se para o desconhecido e arriscaram seus sonhos mais doces: a namorada, o trabalho, os amigos, a vida.
"Há loucuras de Deusas e de Deus" ... segue cantando o poeta e a mim parece que ele diz pensando em Fidel, Raúl, Almeida, Haydée e Melba, em Abel Santamaría e seus olhos bem abertos e que não param de olhar para nós, de dar luz aos cubanos e cubanas.
“Há loucuras tão vivas, tão saudáveis, tão puras, que uma delas será minha morte” ... termina de cantar Silvio e eu sigo desejando que tenha sido traçada em letras a decisão irrevogável de entregar nossa alma e fôlego para as coisas mais simples e maiores: para Cuba, para que sempre seja 26 de julho, e para que continuem existindo "loucuras que são a esperança."
Betty Beatón Ruiz


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Líbia: Mais um testemunho directo - e corajoso - da barbárie imperialista.

A Líbia sob fogo da OTAN: um festim de sangue

É claramente evidente que a OTAN excedeu o seu mandato, mentiu acerca das suas intenções, é responsável por assassínios extra-judiciais, tudo em nome da “intervenção humanitária”.

No período em que integrei o Comité de Relações Internacionais no Congresso, entre 1993 e 2003, tornou-se-me evidente que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) constituía um anacronismo. Fundada em 1945, no final da II Guerra Mundial, a OTAN foi criada pelos EUA como resposta à sobrevivência da União Soviética enquanto Estado Socialista. A OTAN constituía o garante político, para os EUA, de que a dominação capitalista sobre as economias Europeia, Asiática e Africana iria prosseguir. E esta garantia assegurava também a sobrevivência do apartheid global então existente.
A OTAN é um pacto de segurança colectiva através do qual os estados membros assumem que um ataque contra qualquer deles é um ataque contra todos eles. Por conseguinte, se a União Soviética tivesse atacado um qualquer dos seus membros europeus, o escudo militar norte-americano seria activado. A resposta soviética a este pacto foi o Pacto de Varsóvia, que sustentou um “cordão sanitário” em torno do território russo central, na eventualidade de um ataque da OTAN. Dessa forma o mundo foi cindido em blocos, dando origem à “Guerra Fria”.
Os “guerreiros frios” confessos dos dias de hoje continuam a encarar o mundo dessa forma, e não conseguem ultrapassar a visão de uma China Comunista e de um Império Soviético amputado como Estados inimigos dos EUA cujas movimentações, seja em que parte do planeta se verifiquem, devem ser contrariadas. O colapso da União Soviética proporcionou uma oportunidade acelerada para que a hegemonia dos EUA fosse exercida em áreas de anterior influência russa. Territórios africanos e eurasiáticos onde se situam antigos estados soviéticos satélites, bem como o Afeganistão, o Paquistão e outros têm sempre assumido um lugar predominante nas teorias da “contenção” e do “ricochete” que até aos dias de hoje orientam a política dos EUA.

Com tudo isto como pano de fundo, o ataque de foguetões contra Tripoli na noite passada é inexplicável. Tripoli, uma área metropolitana com cerca de 2 milhões de habitantes, suportou 22 a 25 bombardeamentos ontem à noite, abalando e partindo janelas e fazendo tremer o meu hotel até aos alicerces.
Abandonei o meu quarto no Hotel Rexis Al Nasr, caminhei pelo exterior, e podia sentir o cheiro dos explosivos. Por toda a parte, habitantes locais de mistura com jornalistas estrangeiros de todo o mundo. Enquanto ali estávamos, mais bombas atingiram vários pontos da cidade. As explosões clareavam o céu de vermelho, e mais foguetões disparados por jactos OTAN atravessavam as nuvens baixas antes de explodir.
Podia sentir na boca a poeira espessa levantada pelas bombas. Pensei de imediato nas munições de urânio empobrecido que se diz estarem a ser utilizadas, bem como as de fósforo branco. Se estão a ser utilizadas armas de urânio empobrecido, de que forma afectarão os civis locais?
Mulheres transportando crianças pequenas fugiam para fora do hotel. Outras corriam a lavar a poeira que lhes entrara para os olhos. Com as sereias rugindo, viaturas de emergência surgiram na zona sob ataque. Os alarmes dos carros, disparados pelos impactos sucessivos, podiam ouvir-se sob os cânticos desafiadores do povo.
Tiros esporádicos de armas de fogo romperam, ao que me pareceu em todo o lado à minha volta. A estação Euronews mostrou imagens de enfermeiras e médicos entoando cânticos, nos próprios hospitais em que tratavam aqueles que a última investida de choque e assombro da NATO deixara feridos. De repente, as ruas à volta do meu hotel encheram-se de gente a cantar e de automóveis a buzinar. Dentro do hotel, uma mulher líbia transportando uma criança aproximou-se de mim e perguntou-me por que lhes estão a fazer isto?
Quaisquer que fossem os objectivos militares do ataque (e eu e muitos outros questionamos a utilidade militar de semelhantes ataques) permanece o facto de que este ataque aéreo foi lançado contra uma grande cidade repleta de centenas de milhares de civis.
Reflecti também se algum dos políticos que autorizou este ataque aéreo alguma vez se encontrou do lado errado de munições de urânio empobrecido guiadas a laser. Teriam alguma vez presenciado os danos horríveis que estas armas provocam numa cidade e nos seus habitantes? Pode suceder que, se alguma vez tivessem estado numa cidade sob ataque aéreo, se tivessem sentido o impacto destas bombas, se tivessem visto a devastação causada não estivessem tão dispostos a autorizar um ataque contra a população civil.
Estou convicta de que a OTAN não teria sido tão negligente com a vida humana se tivesse sido convocada para atacar uma cidade importante do ocidente. Aliás, estou convicta de que tal nunca sucederia. A OTAN (tal como os EUA e os seus aliados) apenas ataca os pobres e os desprotegidos do 3º mundo.

No dia anterior, numa iniciativa de mulheres em Tripoli, uma mulher aproximou-se de mim de lágrimas nos olhos: a mãe está em Benghazi e ela não pode voltar para saber se a mãe está ou não bem. As pessoas do oriente e do ocidente do país viviam em comum, amavam-se, casavam entre si. Agora, em consequência da “intervenção humanitária” da OTAN, geraram-se e endurecem divisões artificiais. O recrutamento de aliados pela OTAN na Líbia oriental insere-se na mesma estratégia de “guerra fria” que procurava assassinar Fidel Castro e derrubar a Revolução Cubana com cubanos “aclimatados” dispostos a cometer actos de terrorismo contra o seu anterior país. Mais recentemente, a República Democrática do Congo foi ameaçada de amputação territorial, depois de Laurent Kabila recusar uma solicitação da Administração Clinton no sentido de abandonar a zona oriental do seu país. Laurent Kabila descreveu pessoalmente o encontro em que esta solicitação e a respectiva recusa sucederam. Este plano de balcanização e de amputação de um país africano (como sucedeu no Sudão) só não foi por diante porque à recusa de Kabila se juntou a mobilização de congoleses em todo o mundo, que se organizaram em defesa da integridade territorial do seu país.

Horrorizou-me saber que os aliados da OTAN na Líbia (os “Rebeldes”) têm linchado e massacrado os seus compatriotas de pele mais escura, depois da imprensa dos EUA ter identificado os Negros Líbios como “mercenários negros”. Digam-me agora, por favor: vão expulsar os negros de África? Informações da imprensa sugerem que os americanos ficaram “surpreendidos” por encontrar pessoas de pele escura em África. O que é que isto nos diz acerca desta gente?
O triste facto, entretanto, é que são os próprios líbios que têm sido insultados, aterrorizados, linchados, assassinados, em consequência das informações que hiper-sensacionalizaram esta grosseira ignorância. Quem é que vai ser responsabilizado pelas vidas perdidas no frenesim sanguinário desencadeado por estas mentiras?
E isto traz-me de regresso à pergunta que a mulher me colocou: porque está isto a acontecer? Honestamente, não pude dar-lhe a resposta educada e razoável que ela esperava. Do meu ponto de vista, todo o público internacional se debate com essa questão “Porquê?”.

O que sabemos e está muito claro é isto: aquilo a que eu assisti na noite passada não é uma “intervenção humanitária”.
Muitos alimentam a suspeita de que a questão é a quantidade de petróleo existente no subsolo líbio. Podem chamar-me céptica, mas dá que pensar como é que forças combinadas de terra, mar e ar da OTAN e dos EUA, custando milhares de milhões de dólares, são mobilizados contra um relativamente pequeno país do Norte de África e se supõe que todos fiquemos convencidos de que se trata de defender a democracia.
O que eu vi nas longas filas de espera para obter combustível não é “intervenção humanitária”. A recusa em autorizar fornecimento de medicamentos para os hospitais não é “intervenção humanitária”. O que é mais triste e que sou incapaz de dar uma explicação plausível do porquê às pessoas agora aterrorizadas pelas bombas da OTAN, mas é claramente evidente que a OTAN excedeu o seu mandato, mentiu acerca das suas intenções, é responsável por assassínios extra-judiciais, tudo em nome da “intervenção humanitária”.

Onde está o Congresso quando o Presidente excede as suas competências no desencadear da guerra? Onde está a “consciência do Congresso”?
Para aqueles que discordam do conselho de Dick Cheney, de que preparemos a próxima geração para a guerra, é necessário que dêem apoio a quem quer que seja que esteja disposto a pôr fim a esta loucura. Por favor organizem-se e depois votem pela paz. A gente de todo o mundo precisa de que nos levantemos e falemos, em seu nome e no nosso, porque a Venezuela e o Irão também estão sob ameaça. Os líbios não precisam dos helicópteros bombardeiros da OTAN, nem de bombas inteligentes, mísseis de cruzeiro ou bombas de urânio empobrecido para resolver os seus problemas internos. A “intervenção humanitária” da OTAN tem que ser denunciada pelo que realmente é à luz crua da verdade.

Enquanto anoitece sobre Tripoli tenho, juntamente com a população civil, de me preparar para mais “intervencionismo humanitário” da OTAN.

Parem de bombardear África e os pobres de todo o mundo!

16.Jun.2011



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Cynthia McKinney*
*Antiga membro do Congresso dos EUA eleita pelo Partido Democrático, integra actualmente o Green Party, pelo qual foi candidata à eleição presidencial de 2008. Nos últimos anos dos seus mandatos, vem integrando diversos movimentos cívicos,  subscrevendo várias iniciativas legislativas de frontal contestação às políticas do governo estadounidense, nomeadamente exigindo a saída das tropas do Iraque, o apuramento da verdade sobre o 11 Setembro, a divulgação dos relatórios da CIA sobre o assassinato de Martin Luther King, a denúncia das agressões imperialistas na R.P. do Congo, a exigência de apoios às vítimas em Nova Orleãs do furacão Katrina, um pedido de "impeachment" de Bush. Integrou a delegação de activistas pró-palestinianos que embarcou no "navio da dignidade" com destino a Gaza, sendo deportada para os EUA pelos sionistas e, mais recentemente, empenhou-se na luta contra a agressão militar imperialista contra o povo líbio.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Líbia - O país de vez na criminosa estratégia imperialista.

Esgotados e desmascarados os argumentos anteriormente utilizados para manipular as consciências e justificar as guerras de agressão e ocupação do imperialismo - com as patranhas da "existência" de perigosos arsenais de "armas de destruição maciça", ou do combate do "mundo ocidental ao terrorismo" - eis agora em desenvolvimento as novas teses da "protecção 'humanitária' às populações", alegadamente atacadas pelos seus próprios governos, para que os canais mediáticos e os escribas do grande capital, todos em coro uníssono, possam "explicar" às opiniões públicas  já anestesiadas as "justificações" e a "legitimidade" das novas guerras imperialistas em curso, agora nos países árabes.

A situação na Líbia, alvo de ataques e bombardeamentos aéreos diários por parte dos "aliados" da NATO, exige-nos atitudes de denúncia vigorosa desta "Aliança"(?!) e acções de solidariedade com o povo líbio, actualmente o escolhido pelos imperialistas do eixo EUA/UE como o alvo de vez da sua estratégia mais geral, ao programarem guerras de agressão contra todos os países que, mesmo de forma mitigada, se vêm opondo aos seus desígnios imperiais, ao mesmo tempo que praticam autênticos assaltos à mão armada às riquezas e recursos desses países.
De novo se repetem  as mesmas imagens, quando é possível vislumbrá-las nalguns canais noticiosos internacionais, com a divulgação de cenas de terror, de destruição - mesmo de hospitais, de escolas, de infra-estruturas vitais para a vida das populações agredidas  -, imagens do extermínio de civis transformados, numa linguagem hipócrita, em descartáveis vítimas "colaterais".

Em seguida, transcreve-se um texto publicado no "Il Manifesto" italiano e divulgado no companheiro "Blogue do Velho Comunista", no qual se descrevem os meios militares já "gastos" pelos agressores nos ataques à Líbia, bem como a forma como os arsenais estado-unidenses continuam a alimentar os esgotados stocks europeus, assim alimentando a indústria militar da morte. São dados de mais uma das muitas guerras da Nato imperialista, nas quais a participação e conivência de Portugal nos cobre a todos de enorme vergonha.  Uma criminosa participação que, em cada dia que passe, torna mais urgente a sua corajosa denúncia e a correspondente e  inadiável exigência política da saída do nosso país dessa organização, uma organização militar ao serviço da agressão imperialista contra os povos em todo o mundo.

Os estoques de munições da força aérea aliada estão esgotados. Mas para continuar a destruição da Líbia, o Pentágono aprovisiona a NATO. A guerra é assim um negócio rentável.

Em 60 dias de « Protecção Unificada » os aviões da NATO efectuaram, segundo dados oficiais, mais de 9.000 missões na Líbia, entre as quais 3.500 ataques com bombas e mísseis. A maior parte é levada a cabo pela força aérea dos EUA, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá. Aviões italianos (Tornado, Eurofighter 2000, F-16 e outros) efectuaram, segundo uma estimativa, cerca de 900 missões. Com eles participam igualmente Suécia, Espanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Qatar e Turquia.

No total, mais de 300 aviões estão envolvidos, isto porque esta guerra permite igualmente testar, em condições reais, novas armas, como o caça francês Rafale. A aeronáutica italiana está experimentando o avião Boeing KC767-A, que acabou de receber e que efectua operações de aprovisionamento em pleno voo de caças-bombardeiros e também transportes aéreos estratégicos. No seu baptismo no aeroporto de Pratica di Mare, este foi apresentado como «o pilar para uma única e excepcional capacidade de projecção da componente aérea não só a nível nacional mas também de toda a NATO». Assim, um novo sistema de armas é testado na guerra da Líbia para potencializar a capacidade da NATO na projecção de forças aéreas e terrestres noutras guerras.

A operação « Protecção Unificada » revela, no entanto, algumas deficiências. Com o incessante bombardeamento, as bombas esgotam-se. No entanto não há problema, sendo que o Pentágono continua a fornecer. O coronel Dave Lapan, porta-voz do departamento de Defesa afirmou: «Desde que a NATO tem liderado a campanha aérea, temos fornecido um apoio material, munições inclusive, aos aliados e aos parceiros participantes nas operações na Líbia». Lapan precisa que este fornecimento, cujo valor ascende agora a 24,3 milhões de dólares, inclui «bombas inteligentes teleguiadas de extrema precisão». Na Itália, estas bombas estão estocadas em enormes quantidades em Camp Darby, a base logística (estadunidense, NdT) que aprovisiona as forças aéreas dos EUA na zona mediterrânea e africana.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pelo seu voto, 440.863 portugueses afirmam-se dispostos à luta!

Sabíamos que iria ser difícil - muito difícil - defrontar todo o arsenal eleitoralista desta "democracia" burguesa, inteiramente colocado ao serviço da reprodução do sistema dominante e da perpetuação da política de direita que vem demolindo, há já 35 anos, as transformações revolucionárias de Abril.  Não há memória, em período eleitoral, de uma tão intensa e despudorada manipulação dos meios de comunicação de massas na mão do grande capital, como também nunca se assistiu a uma campanha eleitoral preenchida com tantas vacuidades e lugares comuns, sem a discussão de um único tema ou questão relevante para o futuro imediato dos portugueses. O circo eleitoral, começado a montar há várias semanas atrás, foi totalmente voltado para a ocultação da gravidade da situação a que foi sendo conduzido o país, pela mão dos partidos do capital, numa mascarada "democrática" política e éticamente abjecta, destinada a manipular as consciências, a adormecer o espírito crítico das massas populares, a induzir o conformismo e a errada sensação de impotência perante a realidade, tudo orientado pelo objectivo de persuadir as mentes de que nada havia de fundamental para escolher através do voto, restando somente aos eleitores a  "escolha" de quem prosseguirá, no "novo" governo, a política de submissa e rastejante aplicação das decisões já tomadas pelas potências imperialistas que dirigem a UE.
Reflexo desse (induzido) desinteresse político e elemento importante de análise aos números eleitorais reside no aumento da massa de abstencionistas e no crescimento dos votos brancos, o primeiro expresso nos 41,1% da abstenção - mais 120.000 eleitores a recusarem votar - e, o segundo, nos 2,67% de votos brancos - subindo de 99.000, em 2009,  para os 148.000 votos de agora.
Entretanto, um outro dado dos resultados ainda mais importante emerge, com toda a força da sua própria dimensão: neste passado domingo, mais de 440.000 portugueses tiveram a capacidade e a determinação de recusar todas as "inevitabilidades" e de afirmar vigorosamente, com o seu voto, que querem uma decidida viragem na vida nacional, que exigem e que lutam e lutarão por um outro caminho para o nosso país e para o nosso povo. São uma força imensa, pois não obstante constituírem a minoria do eleitorado português que votou, são a parte mais esclarecida e combativa dos eleitores, são todos aqueles que, de facto, levaram a luta até ao voto!  E estes são os indispensáveis e insubstituíveis.

Terminado o intenso e militante esforço que foi realizado na campanha pelos milhares de camaradas e activistas da CDU, esforço no qual  -  não se tenha a mais pequena dúvida!  -, reside por inteiro o êxito alcançado na mobilização para o voto consequente daqueles 440.000 eleitores, é chegado de novo e sempre o tempo de prosseguir a luta.  Sabemos o que pelos banqueiros e outros grandes capitalistas está sendo tramado, contra os trabalhadores e o povo, contra a independência e dignidade do nosso país. Sabemos que as próximas rábulas sobre lideranças partidárias "renovadas" se destinam a prosseguir com a cenografia das "oposições" do baile mandado  -  ora agora "comes" tu, ora agora "avio-me" eu  -, entre os partidos do "arco institucional", aqui se incluindo um metamorfoseado BE.  Entretanto, a realidade está pelos que lutam, pelos que resistem e combatem, com coragem e determinação;  o desenvolvimento dialéctico do real está com todos aqueles que estão determinados a combater o desgraçado estado actual deste regime esgotado, batendo-se pelo seu fim e substituição por um regime verdadeiramente livre e democrático, inteiramente ao serviço dos trabalhadores e das outras camadas sociais anti-monopolistas suas aliadas.
O real vai aproximar muitos dos votantes PS/PSD/CDS/BE daqueles que, eleitores da CDU ou abstencionistas, sempre lutaram e continuarão lutando contra estas políticas predatórias e destrutivas do país. Sem exclusão de um único daqueles centenas de milhar (milhões, mesmo) de operários, assalariados, intelectuais e quadros técnicos, pequenos empresários, de todos aqueles que, ludibriados pela actividade ideológica dos seus verdadeiros inimigos, votaram directamente contra os seus interesses e futuro, sem terem as ferramentas de análise que lhes permitiriam avaliar e recusar as funestas consequências de uma escolha errada e as suas próprias responsabilidades na avalanche negra que aí vem.   Não direccionemos nunca a nossa luta contra esse eleitorado que vota erradamente, mas sim e sempre contra os seus (e nossos) algozes, contra o inimigo comum. 
Prosseguir uma denúncia vigorosa dos inimigos de classe dos trabalhadores, esclarecer e agitar, unir e mobilizar para a acção, alargar e intensificar a luta, são as prioridades do momento, são as orientações na ordem do dia.  Juntos, iremos à luta - que continua!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Domingo, o Voto de Classe é CDU!

Após uma campanha eleitoral militante, defrontando a mais despudorada manipulação dos orgãos da grande comunicação chamada "social" e o silenciamento das suas posições de ruptura com o "status quo" vigente, a CDU - Coligação Democrática Unitária, encerrou esta noite a sua activa acção de contactos directos com os cidadãos, com um concorrido comício no Largo de Camões, em Lisboa. Chegou ao fim a mais mistificadora campanha de que há memória, para umas eleições falsamente chamadas "livres" e "democráticas" e na realidade manipuladas, com liberdades mitigadas, com intimidações e chantagens (sociais, económicas, religiosas), com a constante e suja promoção dos partidos ditos do "arco do poder", umas eleições típicas de uma "democracia" burguesa em adiantado estado de putrefacção.
A campanha política dos militantes da CDU, visando o esclarecimento e a mobilização da vontade popular e apelando ao voto e à luta por uma profunda mudança na actual situação do país, constituiu, mais uma vez, a afirmação de uma grande militância, de muita coragem e determinação, denunciando com firmeza os criminosos planos da troika doméstica - PS+PSD+CDS - de fazer ajoelhar o povo perante os ditames do imperialismo da troika externa - UE+BCE+FMI.
Sejam quais forem os resultados na eleição do próximo domingo, podemos estar absolutamente certos que, como sempre, os votos entregues à CDU serão a expressão directa do trabalho e dos esforços dos muitos militantes que se empenharam a fundo na campanha. Nenhum esforço realizado terá sido em vão, nenhuma acção militante se terá perdido, nenhum contacto directo com cada trabalhador, cada jovem, cada reformado, se perderá.
Sejam quais forem os resultados, a campanha política realizada para estas eleições será sempre um sólido contributo, individual e colectivo, para o prosseguimento da luta que a todos nos espera, depois de encerrado este interregno, decidido pelo grande capital para oportunamente "mudar de cavalo", descartando um Sócrates "arrebentado" e atrelando ao carro do capitalismo as cavalgaduras disponíveis que irão constituir o seu "novo" governo de turno.
No domingo, "Agora, CDU".
Na segunda-feira, "A Luta, Continua!"

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Grécia: mais um testemunho, insuspeito e em directo.


Todos aqueles que acompanhamos o desenvolvimento da situação sócio-política na Grécia vamos tendo conhecimento do brutal agravamento das condições de vida dos trabalhadores e do povo gregos, resultado directo da manobra de ocupação e espoliação selvática que neste país - nosso irmão de infortúnio - está a ser operada pela UE imperialista, de mãos dadas com os EUA.

Aqui se transcreve mais um testemunho da situação existente e, de forma implícita, também do carácter contraditório das avaliações que são feitas - lá, como cá - aos acontecimentos em curso e às saídas que restam aos povos, para se libertarem e sacodirem este jugo que lhes é "democraticamente" imposto.

E, exactamente por tudo isso, é nosso dever reforçar os laços de solidariedade combativa e de classe com os nossos camaradas gregos, honrosamente na primeira linha do duro combate que hoje se trava, na pátria helénica, entre explorados e exploradores.



"A GERAÇÃO CONDENADA DA GRÉCIA

Depois de um ano de austeridade, nós gregos vimos o nosso país e as nossas vidas ficarem irreconhecíveis.

Um ano depois de o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia terem imposto a sua própria agenda infame à Grécia, a vida aqui mudou radicalmente. Quem tem entre 18 e 24 anos de idade, o mais certo é estar desempregado como 40% da sua geração. Quem tem trinta e poucos anos e um emprego, é provável que seja em tempo parcial e flexível. É possível que não o imagine estável e não faz ideia do tempo que irá durar. Os salários caiem gradualmente, não se pode fazer greve, não podemos organizar de forma coletiva e nem sequer exigir que nos paguem. As férias estão fora de questão, adoecer é um risco demasiado grande e não é possível ter casa própria.

Os jovens gregos não podem fazer escolhas normais na vida: não podem planejar o presente, quanto mais o futuro. Mas dizem-lhes – e muitos sentem-no - que não se podem queixar. Afinal pertencem a uma geração condenada.

A maior parte dos gregos deixou de ver as notícias ou de pensar sobre a razão de isto estar acontecendo. Mas toda a gente fala entre si sobre o que se está se passando: amigos, filhos e pais, comerciantes, taxistas, professores - todos dizem que esta austeridade é desleal e injusta, mas também todos se sentem inseguros e receosos: ao fim e ao cabo não há nada que possam fazer. Esta nova realidade parece ter sido lançada sobre nós - quase como um fenómeno sobrenatural. Dizem-nos que arcamos com as culpas da crise porque "todos nós andamos na vadiagem e gastamos para além das nossas possibilidades" - mas os que sofrem mais sabem que não tiveram nada a ver com isto.

Ainda não se passaram 12 meses desde que esta crise começou, mas as pequenas histórias que ilustram a mudança estão sempre aparecendo: sem-abrigo a vasculhar os caixotes do lixo à procura de comida, amigos despedidos sem indemnização ou aceitando cortes salariais, a polícia reprimindo cidadãos em protesto, escolas e hospitais que fecham, professores e médicos que perdem o emprego, jornalistas censurados, sindicalistas perseguidos, ataques racistas no centro da cidade. Legalidade, maioria, democracia e igualdade começam a parecer palavras sem nexo.

De repente, as coisas que aconteceram há apenas um ano em lugares remotos, subdesenvolvidos – como para provar a sorte que tínhamos por pertencer à civilizada Europa – estão a acontecer agora, aqui, na Grécia. Mas os gregos não podem queixar-se, não podem reagir, porque lhes dizem que a culpa da crise é deles – mesmo quando toda a gente sabe que não pode ser apenas culpa deles.

Mas para além da cobertura mediática dominante e das declarações das elites e dos políticos, cada vez mais pessoas sentem a falta de sentido, de racionalidade, justiça e liberdade na sua vida cotidiana. Alguns recusam-se a pagar taxas sobre os transportes e nos hospitais, portagens e dívidas e outros criam pequenas redes de solidariedade locais, comércio alternativo ou auto-educação nos seus bairros. Alguns lêem blogues e contam histórias diferentes, reconfirmando a sua dignidade com actos humildes, diários, de resistência, porque sentem a diferença entre "nós" e "eles" que nenhum meio de comunicação social ou discurso estatal consegue obscurecer.

Um povo inteiro não pode viver no isolamento, sentindo medo e culpa por muito mais tempo, encarando um futuro cheio de problemas que não podem ser resolvidos. O que o FMI e os políticos gregos sabem e receiam é que um povo oprimido possa aprender a comunicar sem falar, a avançar sem parecer que se mexe, a resistir sem resistir - gradualmente as pessoas irão descobrir-se umas às outras e perceber o que se está a passar e de quem é realmente a culpa. E depois, como aconteceu em dezembro de 2008, haverá uma reacção em massa aqui na Grécia, uma reacção que poderá ser violenta e que irá uma vez mais ser classificada de imprevisível e irracional."


Testemunho de Hara Kouki, historiadora e investigadora grega.

(Texto publicado no "Guardian" e traduzido e transcrito no site "Controvérsia")