SÓ NÃO SE ENGANA QUEM CEDE AO MEDO DE CAMINHAR NO DESCONHECIDO - SÓ SE PERDE AQUELE QUE NÃO ESTÁ SEGURO DO RUMO QUE ESCOLHEU.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Congresso Marx em Maio – Perspectivas para o século XXI - Intervenções

Nos passados dias 3 a 5 de Maio de 2012, na Faculdade de Letras, em Lisboa, decorreu uma importante iniciativa de reflexão e debate para o campo dos marxistas. Tratou-se de um Congresso Internacional, realizado pelo "Grupo de Estudos Marxistas" e cujo traço mais marcado talvez tenha sido a sua heterogeneidade - académica, temática, mesmo ideológica, não obstante ter em Marx a sua génese-guia.
Abaixo se transcreve uma das comunicações ali realizadas, de Manuel Raposo, muito interessante pelos tópicos de análise que elenca e nos coloca à reflexão.



Para que não se percam os frutos da civilização  
I
Escolhi como título desta intervenção a frase "Para que não se percam os frutos da civilização" que é parte de um parágrafo de uma conhecida carta de Karl Marx a Pavel Annenkov (de 1846) em que Marx dá a sua opinião acerca de Proudhon, antes ainda de ter escrito a

Miséria da Filosofia.

O parágrafo inteiro diz o seguinte:
"Os homens nunca renunciam ao que ganharam, mas isso não quer dizer que não renunciem à forma social em que adquiriram certas forças produtivas. Muito pelo contrário. Para não serem privados do resultado obtido, para não perderem os frutos da civilização, os homens são forçados a mudar todas as suas formas sociais tradicionais, a partir do momento em que o modo do seu comércio já não corresponde às forças produtivas adquiridas." (1)
("Comércio" no sentido lato de relação, transacção)
Esta afirmação da necessidade histórica das revoluções sociais é acompanhada de uma crítica impiedosa ao desejo de Proudhon de conciliar as contradições do sistema capitalista em vez de pensar "no derrube da própria base dessas contradições". E Marx comparava essa tentativa de conciliação ao que sucedera nas vésperas da revolução francesa de 1789, afirmando os seguinte:
"No século XVIII uma multidão de cabeças medíocres estava ocupada em encontrar a verdadeira fórmula para equilibrar as ordens sociais, a nobreza, o rei, os parlamentos, etc., e no dia seguinte já não havia rei, nem parlamento, nem nobreza. O justo equilíbrio entre esse antagonismo (conclui Marx) era o derrube de todas as relações sociais, que serviam de base a essas existência feudais e ao antagonismo dessas existências feudais." (2)
Marx mostra aqui como são inúteis as tentativas de conciliar os termos irredutíveis das contradições sociais quando elas chegam ao seu ponto culminante – isto é, quando as sociedades se abeiram do seu termo histórico.
A ideia que trago a este debate é a de que a actual crise capitalista é uma radiografia do estado terminal a que chegou a civilização burguesa. De que não estamos a passar apenas por mais um ponto baixo de mais um ciclo do processo produtivo, mas estamos a viver a falência do sistema produtivo capitalista que chegou a um limite, que entrou na sua fase senil.
Com isso está em causa todo o edifício social que assenta nesse sistema produtivo. As contradições em que o capitalismo está enredado não podem ser resolvidas dentro dele próprio; só uma revolução social o pode fazer da única maneira viável: pondo fim às relações sociais capitalistas.
Consequentemente, a acção do comunismo marxista, tem de ser guiada por este propósito se quiser ter um papel na transformação social que está em gestação.
Passo aos argumentos.
II
O discurso dominante sobre a crise procura encerrar o problema numa espécie de círculo de giz "económico". É a tentativa de absolver o sistema social capitalista. Na verdade, o que está em causa não é a "economia" (que é uma coisa que em si não existe), mas a economia capitalista; e a crise não é dos negócios, mas de uma civilização inteira.
Mas esta restrição da crise ao "económico" domina. E domina de tal modo que penetrou, ainda que sob formas modificadas, o senso comum e mesmo a esquerda.
O círculo de giz funciona.
Funciona, por exemplo, quando se trata o neoliberalismo como uma deriva mental duma fracção da burguesia responsável pela deriva material do sistema, aceitando a ingenuidade de pensar que uma qualquer ideologia possa alterar as leis de funcionamento do capitalismo;
Ou quando se atribui à globalização e à financeirização do capital a origem da presente crise mundial, em vez de ver nelas recursos a que o sistema deitou mão para atenuar e adiar a crise;
Ou ainda quando se cai na ilusão de que existem medidas políticas (nomeadamente medidas de política económica) que podem solucionar os problemas sem tocar no quadro do próprio sistema capitalista, esquecendo que os problemas existem e avolumam-se precisamente porque esse quadro se vai mantendo.
Creio estar aqui boa parte da razão pela qual o movimento revolucionário pelo socialismo não dá sinais de crescer, apesar da decadência do capitalismo. É este a meu ver o nó da situação: um movimento revolucionário bloqueado no meio de uma crise geral do sistema capitalista.
III
Se não é uma crise de negócios, nem uma simples deriva ideológica – então o que é a presente crise?
As correntes marxistas que me parece terem uma posição mais clara sobre o assunto chamam a atenção para o facto de as raízes do colapso financeiro de 2007-2008 remontarem aos anos de 1970. De facto, depois do crescimento impetuoso subsequente à segunda grande guerra, o ritmo de acumulação do capitalismo dos grandes centros mundiais foi sofrendo uma desaceleração. Com altos e baixos, mantém-se há perto de 40 anos com reduzidas taxas de acumulação. O estoiro de 2007-2008 (iniciado no coração do capitalismo mundial, é de notar) terá sido o desembocar deste longo processo. E este último trambolhão arrasta agora mesmo os novos centros de acumulação que entretanto se afirmavam – a China, a Índia, o Brasil – cujas taxas de crescimento sofreram quebras importantes.
Todo o sistema capitalista mundial está portanto em quebra, contrariamente à ideia de que se assiste apenas a uma transferência de poderes.
40 anos de crise é coisa que parece contrariar a própria ideia de crise que, na acepção de Marx, é um momento, mais ou menos curto, de acerto de contas entre o excesso de produção e a escassez do mercado. Engels todavia fornece uma pista importante em dois momentos. Numa nota de 1885 à

Miséria da Filosofia aponta a possibilidade de "a estagnação crónica [passar a ser] o estado normal da indústria moderna, apenas

com ligeiras oscilações" (3). Também numa nota (talvez de 1886, segundo Maximilien Rubel) ao Livro III de

O Capital, Engels insiste na possibilidade de os ciclos regulares (até então mais ou menos decenais) terem dado lugar a uma situação caracterizada por "uma alternância mais crónica, mais alongada, a uma melhoria relativamente breve e fraca dos negócios e a uma depressão relativamente longa e indecisa atingindo vários países industriais em momentos diferentes." (4)

Parece ser este o caso de hoje, com a agravante de o marasmo atingir o grosso dos países capitalistas ao mesmo tempo. Onde está a origem deste declínio arrastado?
Ao que tudo indica, num factor que acompanha e condiciona o processo de crescimento capitalista: a queda da taxa de lucro.
Socorro-me de três estudos, que me parecem dignos de nota, que chamam a atenção para a queda efectiva da taxa de lucro do capital, fruto precisamente, como Marx bem vincou, do progresso capitalista.
O francês Claude Bitot, em 1995, mostra que a taxa de lucro nos 25 países da OCDE foi decaindo à medida do desenvolvimento posterior à segunda grande guerra (5).
Outro francês, Tom Thomas, vinca o carácter crónico da actual crise, pegando na hipótese colocada por Marx de uma sobreprodução absoluta de capital (6).
Recentemente, em 2011, o norte-americano Andrew Kliman constata também a queda da taxa de lucro nos EUA ("um longo declínio iniciado na segunda metade dos anos 50"). Segundo ele, terá sido essa a causa que foi puxando para baixo os ritmos de crescimento e que tornou débeis as recuperações subsequentes à grande crise dos anos de 1970 e às várias crises dos anos 80 e 90 – acabando por fazer a cama ao colapso de 2007-2008 (7).
A importância que vejo neste ponto de vista é que ele coloca a tónica não em supostas derivas ideológicas (neoliberal ou outra), nem na hipertrofia financeira do capital – mas no bloqueio da própria produção capitalista.
Numa situação em que o capitalismo vê declinar a sua força motriz, que é o lucro, todo o sistema social esgota o seu papel histórico, tornando-se então "um obstáculo ao desenvolvimento da produtividade". "Com isso", diz Engels, [o capitalismo] "prova, simplesmente, uma vez mais, que entra no seu período senil e que, cada vez mais, se limita a sobreviver". (8)
IV
Portanto – bloqueio da acumulação, fase senil.
Sabemos que o capital ao reproduzir-se reproduz também as relações sociais que lhe são próprias. Ora, a crescente dificuldade de reprodução do capital traduz-se numa dificuldade crescente de reprodução das relações sociais – daí a decomposição das instituições (nomeadamente do Estado), o esvaziamento da democracia, o abandono do estandarte do progresso, o apagamento das grandes crenças burguesas (nação, pátria, família, deus).
A civilização burguesa terá então entrado numa etapa final. É isso que transparece na própria maneira como a burguesia fala do seu regime. A ideologia do progresso contínuo, da prosperidade, que foi desde sempre a marca do positivismo burguês, da superioridade sobre as formações sociais atrasadas, transfigurou-se num discurso de
justificação do retrocesso: não mais emprego garantido, não mais melhoria de vida de pais para filhos, não mais consumo livre, não mais lazer, não mais saúde e instrução para todos, não mais nada disso.
Visto no seu sentido de fundo este é um discurso que denuncia a incapacidade das classes dominantes para convencerem as classes dominadas da superioridade do seu sistema; denuncia a incapacidade de uma civilização para mobilizar o todo social em torno dos seus objectivos de classe.
Uma sociedade que já só assegura (não apenas nos factos mas também pela voz dos seus mentores) um amanhã pior que o dia de hoje – e que afirma só poder subsistir nessa condição! – é uma sociedade que caminha para o fim.
Podia dizer-se – uma sociedade já sem apresentação...
Em termos históricos não há portanto remendos possíveis – e isso está de resto patente na ineficácia das tentativas, tanto do capitalismo puro e duro como do reformismo, de colmatar as brechas do edifício.
V
Dito isto, então a verdadeira causa da nossa época é pôr termo ao capitalismo.
Certo. Mas a revolução social não está de modo nenhum ao virar da esquina. Como disse antes, o movimento comunista está bloqueado no meio da crise do sistema capitalista.
É difícil encontrar uma explicação completa para este facto, mas não erro se disser que concorrem para isso
- as enormes mutações sociais no proletariado mundial pelo menos desde 1970-80;
- a dissolução ideológica que o marxismo revolucionário sofreu no século XX, acompanhando o longo estertor da revolução soviética;
- e, no presente, a ausência de um claro ataque político às bases do sistema capitalista (porque, como disse Marx, é a própria base das contradições que deve ser derrubada).
Este estado de coisas, no entanto, não está congelado. Há sinais de mudança, embora a prazo que não se pode medir.
Centro-me nas mudanças de natureza social dos últimos 30-40.
Até 1970 a classe operária produtora de mais valia cresceu nos principais países capitalistas (9).
Nas décadas seguintes foi decaindo nesses países. Mas à escala global o seu número aumentou em termos absolutos devido aos crescimentos enormes verificados no Terceiro Mundo. Deu-se portanto uma proletarização maciça nos países periféricos e um aumento em valor absoluto do proletariado mundial. Isto quanto ao número.
Também a partir de meados dos anos de 1970, o desemprego cresceu muito nos países mais desenvolvidos, colocando fora da produção milhões de trabalhadores (10).
Ao mesmo tempo, sobretudo nos anos mais recentes, uma grande parte, e uma parte crescente, dos desempregados passaram a ser desempregados permanentes – ou como precários ou mesmo como excluídos do sistema do salariato.
Em qualquer caso, é de notar que esta desagregação do proletariado se faz por rebaixamento de uma parte dos trabalhadores à condição de um sub-proletariado ou mesmo de um lumpen-proletariado – não por aburguesamento ou ascensão social.
Esta evolução traduz, de forma gritante, o processo de substituição do trabalho vivo por trabalho morto que acompanha a acumulação capitalista (11).
E o que fica demonstrado não é a impossibilidade da revolução social, mas a inutilidade histórica do capitalismo da nossa época que se tornou incapaz de transformar o progresso material em benefício social.
Apesar, portanto, da complexidade desta evolução social e dos solavancos por que passa, uma coisa é certa: o processo vai na direcção de ampliar enormemente as classes proletárias, na acepção de classes despojadas de qualquer meio de produção. Mais ainda, como grande parte dessa massa não tem ocupação no quadro da produção capitalista – e é mesmo, em boa parte, impedida pelo sistema de ter uma ocupação útil – os factores de explosão social crescem também em proporção. Os motins de Londres ou Paris, ou as revoltas árabes são disso exemplos.
Em resumo: não será por falta de actores que a revolução social deixará de se fazer.
VI
Mas há ainda um outro argumento, que tem a ver com uma camada social particular: as chamadas classes médias.
As sociedades capitalistas mais desenvolvidas caracterizam-se, pelo menos desde os começos do século XX, por gerarem uma vasta camada social, na maioria assalariada, situada, pela sua condição de vida, entre o operariado e a burguesia.
A sua função, em termos gerais, é enquadrar a produção, intervir na circulação do capital e proporcionar a realização da mais valia.
Essa camada social é um sinal distintivo das sociedades imperialistas, como Lenine, por exemplo, bem vincou.
Olhando para os últimos 50 ou mesmo 100 anos, um dos seus principais papéis tem sido o de assegurar a estabilidade social e política dos regimes capitalistas desenvolvidos. Aliadas naturais da burguesia, essas camadas garantiram o balancé que tem sido a sucessão de republicanos e democratas nos EUA, de trabalhistas e conservadores no Reino Unido, de social-democratas e democratas-cristãos na Alemanha, dos equivalentes no Japão, em França e na Itália – e até de PS e PSD em Portugal nos últimos 38 anos.
Todo o mundo mais desenvolvido tem tido nessas camadas o fiel de balança no que respeita a manter o poder do capital sem agitações, servindo de barreira a qualquer movimento com cariz de classe da parte do proletariado.
Mas como os tempos mudam, interessa notar o seguinte:
Mais ou menos até final do século XX o crescimento do sector terciário absorveu em parte os despedimentos da indústria. Esse facto, além de diminuir o impacto do desemprego, manteve entre os trabalhadores a crença de que o capitalismo sempre assegurava as hipóteses de ascensão social (12).
As classes médias, porém, entraram em retrocesso. Por um lado, porque também nos serviços a rentabilidade do trabalho aumentou e permite dispensar mão de obra; por outro lado, porque o pântano da produção capitalista obriga agora a burguesia a penalizar mesmo os seus parentes próximos.
Depois de ter levado a massa proletária produtiva à pobreza ou à beira disso e de a castigar por todas as formas – a maré da crise não parou de subir e molha já os pés das classes intermédias. O significado deste facto parece-me importante:
- o ascensor social empanou;
- a burguesia capitalista aliena o apoio social e político do seu principal aliado;
- o confronto de classes clarifica-se, aproximando as sociedades capitalistas do modelo (digamos assim) canónico de duas classes antagónicas: burguesia, proletariado.
A choradeira oficial sobre o empobrecimento da classe média é apenas uma forma de comiseração do poder, um gesto para tentar ainda segurar esse parceiro histórico. Mas a tendência de proletarização dessas classes parece irreversível, dando mais um sinal do fim de uma época.
Do ponto de vista do comunismo só há que saudar essa clarificação.
(Faço um parêntese para dizer que esta evolução não se traduz, nem de imediato nem necessariamente, num posicionamento anticapitalista dessas camadas – pelo contrário, o primeiro reflexo de boa parte delas será o de defenderem os privilégios anteriores, de aderirem a ideologias nacionalistas e mesmo fascistas, de se demarcarem da massa proletária, reagindo como uma espécie de aristocracia falida. Mas isso não anula o facto de, a prazo, a burguesia capitalista ir ficando mais só no terreiro – dependendo o comportamento político das classes médias do papel que a massa proletária propriamente dita desempenhar no confronto de classes.)
VII
Último argumento.
Arrisco afirmar que a ideia axial que percorre a obra de Karl Marx é a de que o capitalismo é perecível, não é eterno – que é uma formação social com um papel histórico limitado e portanto também com um tempo de vida determinado. O papel histórico é socializar o trabalho, libertar os produtores da propriedade – enfim, "fazer crescer sem freio e em progressão geométrica a produtividade do trabalho humano".
É fácil ver na evolução do último século a larguíssima socialização do trabalho, a extensíssima abolição da propriedade individual em todo o globo e o aumento colossal da produtividade do trabalho. Isso, sem dúvida, aproximou a humanidade do socialismo, colocando-nos hoje muito adiante daquilo que era o mundo, por exemplo, em 1917.
O que já não é tão fácil é prever o tempo de vida do capitalismo, porque isso não depende apenas do descalabro do sistema; depende decisivamente, das forças sociais que se decidam a pôr-lhe termo.
Mas o desenrolar da crise tem o condão de ajudar a rasgar os véus com que a sociedade burguesa se recobre e de pôr à vista a natureza da sua dominação classista.
O que é que a crise põe à vista?
Põe à vista o Estado, não como árbitro dos conflitos sociais, ou como expressão de um suposto interesse colectivo, nacional – mas como instrumento de uma classe;
Mostra a democracia, na realidade, como uma plutocracia de que as massas populares estão inteiramente arredadas; como uma ditadura da burguesia que assume feições cada vez mais totalitárias;
Mostra a classe capitalista, toda ela, com um único plano para aliviar a crise – que consiste em explorar mais eficazmente as classes trabalhadoras;
Mostra que a condição de uma eventual recuperação económica é a destruição de meios de produção, seja pela gradual desvalorização do capital, seja pela violência da guerra;
Mostra em plena acção a lei geral da acumulação capitalista, visível na criação de uma massa crescente de desempregados e de marginalizados e no aumento da pobreza;
Mostra que o tempo ganho pela sociedade graças ao aumento da produtividade não se traduz em menos tempo de trabalho obrigatório, mas sim na irracionalidade de mais desemprego e maior grau de extorsão dos trabalhadores em actividade;
Mostra ainda a acção concertada das burguesias por cima dos limites nacionais, mostra a semelhança dos problemas sofridos pelas massas trabalhadoras dos diferentes países – e mostra portanto a falta que faz, da banda dos proletários, um internacionalismo que vá para lá da mera solidariedade moral e se traduza numa efectiva coordenação prática das acções de resistência.
O esclarecimento e a mobilização das massas proletárias não pode passar ao lado destes factos. Eles são os elementos educativos por excelência que a realidade prática nos fornece para mostrar o limite a que chegou este sistema social e o absurdo que é prolongar o seu tempo de vida.
De resto, se bem percebo o sentimento que os trabalhadores têm a respeito do mundo em que vivem, não é a confiança no capitalismo que os leva a aceitá-lo – é antes a noção resignada de que não há alternativa viável que o substitua, e sobretudo de que não há força que o possa deitar abaixo.
Ora, na linha do marxismo revolucionário, a tarefa não é reabilitar ou remendar o capitalismo, mas desacreditá-lo aos olhos do proletariado.
Atacar as bases do mundo capitalista não é, sobretudo nas circunstâncias actuais, uma ideia desgarrada da realidade quotidiana. Ao contrário, é a condição de estimular e reunir as forças de classe dos trabalhadores e de os levar a encarar a necessidade de construir um mundo conduzido por regras opostas às do mundo capitalista.
Que o burguês não veja a crise para além do défice, da dívida, da quebra do lucro, da falta de crédito e dos remédios correspondentes para esse tipo de males – está certo. Mas que os proletários vejam as coisas pelo mesmo prisma – está errado.
O proletariado já teve de fazer muitos sacrifícios por causas alheias. Chegou a altura de afirmar a sua própria causa.
Propor ao proletariado a saída do círculo de giz do capitalismo – é esse, a meu ver, o papel do comunismo marxista.


Notas
(1) Carta de Karl Marx a Pavel V. Annenkov, Marx-Engels Obras Escolhidas, Tomo I, p. 546. Edições "Avante!", Lisboa – Edições Progresso, Moscovo, 1982.
(2) Idem, p. 553.
(3) Karl Marx,

Miséria da Filosofia. Prefácio de F. Engels à 1.ª edição alemã, p. 20. Edições "Avante!". Lisboa, 1991.

(4) Karl Marx,

O Capital, Livro III, p. 1772. Éditions Gallimard, 1963 e 1968.

(5) Claude Bitot,

Inquérito ao capitalismo dito triunfante. Edições Dinossauro, Lisboa, 1996.

(6) Tom Thomas,

A crise crónica ou o estádio senil do capitalismo. Edições Dinossauro, Lisboa, 2007.

Marx admite uma situação de sobreprodução absoluta de capital nestes termos: "uma sobreprodução que afectaria não este ou aquele domínio ou alguns domínios importantes da produção, mas seria absoluta pela sua própria amplitude e englobaria portanto todos os domínios da produção". Karl Marx,

O Capital, Livro III, p. 1595. Éditions Gallimard, 1963 e 1968.

(7) Andrew Kliman,

The failure of capitalist production. Pluto Press, London, 2012.

(8) Karl Marx,

O Capital, Livro III, tomo I, p. 274. Éditions Sociales, Paris, 1969. (Passagem redigida por Engels sobre notas de Marx).

(9) Em 1970, na média dos seis maiores da OCDE (França, Itália, Grã-Bretanha, RFA, EUA e Japão), representava quase 40% da população activa total. C. Bitot, o. c.
(10) No conjunto dos 25 países da OCDE o desemprego foi de uns 11 milhões entre 1950 e 1974, e de 1974 até final do século saltou para 35 milhões, acompanhando o enorme incremento do capital fixo. C. Bitot, o. c.
(11) O valor do capital fixo investido por posto de trabalho, em França, era em 1950 inferior a 100 mil francos; em 1990, era superior a 1 milhão de francos, isto é, 10,4 vezes mais. Em comparação, de 1890 a 1950 a diferença não passou de 3,7 vezes mais. C. Bitot, o.c.
(12) O emprego no terciário em França, Itália, Grã-Bretanha, RFA, EUA e Japão representava, na média dos seis países, as seguintes percentagens da população activa: em 1960, 43,9%; em 1970, 49,2%; em 1990, 65,5%. C. Bitot, o.c.
Em Portugal, o terciário representava 27,5% em 1960 e 51,3% em 1991. Elísio Estanque,

A classe média: ascensão e declínio. FFMS, Lisboa, 2012.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Não às agressões imperialistas! Paz sim, guerra não!

Pela sua importância política e flagrante oportunidade, pelo seu justo conteúdo anti-imperialista, abaixo se transcreve a posição hoje tomada pelo P.C.P. sobre as continuadas agressões do imperialismo contra o povo sírio, na sua escalada de agressões e ocupações militares criminosas naquela martirizada região.

Sobre os acontecimentos na Síria e a posição do governo português


Face aos recentes acontecimentos na Síria e à decisão do governo português de considerar “persona non grata” a Embaixadora da Síria acreditada em Portugal, o PCP:
1 – Condena o massacre terrorista na localidade de Al-Houla, na Síria, que vitimou mais de uma centena de civis inocentes, na sua maioria mulheres e crianças. Este brutal atentado, praticado por via de assassinatos à queima-roupa ou degolações, que surge na sequência de uma onda de violência marcada por vários outros massacres e atentados bombistas, vem demonstrar o carácter terrorista da acção de bandos armados - alguns dos quais confessadamente armados e pagos por países estrangeiros - uma componente indesmentível da campanha de desestabilização interna da Síria que dura há mais de um ano.
2 – Chama a atenção para o facto de que este massacre não pode deixar de ser analisado à luz da estratégia de militarização, subversão, agressão, ingerência e guerra do auto-apelidado “grupo de amigos da Síria” integrado pelas principais potências imperialistas e ditaduras fundamentalistas do golfo-pérsico. Uma estratégia, afirmada sem pejo e amplamente noticiada na comunicação social mundial, que passa pelo financiamento, armamento e treino de grupos armados que várias fontes identificam com ligações a redes terroristas, e que continuam a operar na Síria.
3 – Alerta para as dramáticas consequências que qualquer tentativa de enveredar por uma “solução militar” para a questão síria teria para o povo sírio, para toda a região do Médio Oriente e mesmo no plano internacional. Rejeita liminarmente as declarações de responsáveis políticos e militares norte-americanos e da União Europeia que apontam para a possibilidade de uma agressão militar externa contra a Síria, com ou sem a cobertura de uma resolução do CS da ONU. Tais posições colocam-se objectivamente no campo dos que desenvolvem a sua acção contra os esforços entretanto realizados para manter no campo político e diplomático a resolução da questão Síria e acima de tudo contra os legítimos direitos democráticos e nacionais do povo sírio, nomeadamente o direito à paz, à soberania, independência e integridade territorial do seu país.
4 – Recorda que foi com base em campanhas similares à que se desenvolve hoje relativamente à Síria (e que entretanto a história se encarregou de demonstrar que se trataram de falsificações e conspirações em torno de supostos massacres ou arsenais de armas de destruição massiva) que, do Kosovo ao Afeganistão, do Iraque à Líbia, se desencadearam sangrentas guerras de agressão e ocupação que resultaram na morte de muitos milhares de vidas, empurraram milhões de pessoas para a condição de refugiados, destruíram países inteiros, alimentaram o terrorismo e criaram novos focos de tensão desde o Magrebe até à Ásia Central. Guerras de agressão, perpetradas hipocritamente em nome da “democracia” e dos “direitos humanos” cujos reais motivos foram os interesses económicos e geoestratégicos das principais potências imperialistas da NATO e os lucros do complexo industrial militar e das multinacionais a si associadas.
5 – Condena igualmente os massacres de centenas de civis perpetrados pelas forças militares dos EUA e da NATO nas últimas semanas no Afeganistão, Paquistão, Iémen, entre outros, nomeadamente com o recurso a aviões não tripulados. Massacres que constituindo agressões condenadas pelos governos dos países visados, não mereceram, nem por parte das grandes cadeias internacionais de comunicação social, nem por parte dos aliados dos EUA na NATO, uma única palavra de condenação.
6 – Alerta para o facto de que os acontecimentos na Síria, no Médio Oriente e Ásia Central - elementos de uma mesma estratégia imperialista de crescente agressividade, belicismo e recolonização - são inseparáveis por um lado dos objectivos do imperialismo de controlo dos enormes recursos naturais e energéticos destas regiões e por outro do agravamento da crise do capitalismo.
7 – Deplora a inaceitável e vergonhosa postura do Governo português – e em especial do MNE Paulo Portas – de alinhamento com a estratégia de guerra, agressão e ingerência externa das principais potências da NATO. Postura de que a decisão de considerar a embaixadora da Síria acreditada em Portugal «persona non grata» é uma lamentável prova. Uma postura tão mais grave quanto Portugal como membro do Conselho de Segurança da ONU deveria pautar a sua actuação pela busca de soluções políticas e diplomáticas para os conflitos. Uma postura bem exemplificativa da política externa seguida pelo actual MNE profundamente contrária à Constituição da República Portuguesa e aos princípios da Carta das Nações Unidas.
8 - Apela aos trabalhadores e ao povo português, e aos movimentos unitários pela paz e pela defesa dos direitos nacionais dos povos, que se mobilizem e expressem a sua voz em defesa da resolução pacífica dos conflitos, contra a guerra, pela paz e a cooperação entre os povos.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Recordando... e comparando, decorridos mais seis anos e meio!

Em Dezembro de 2006, o PCP realizava o seu Encontro Nacional  "Portugal e a União Europeia - Nos 20 anos de adesão à CEE". Aí se procedeu a um balanço das consequências para o país e para o povo da nossa "integração" nesta "União" Europeia, enquanto se elencavam as providências a tomar por Portugal para alterar esse rumo. Tais balanço e providências, à distância temporal dos seis anos e meio entretanto decorridos, deixam-nos uma sensação quase que "saudosa", e simultâneamente amarga, pela nossa infantil ingenuidade nas expectativas que ainda se afirmavam de uma reforma (?) progressista (?!) da "U."E. 
Sobre o balanço realizado, é útil passarmos hoje em revista esse retrato datado. Logo no início da sua Resolução final, precisamente no seu ponto 1, podemos ler:

"1. A evolução de Portugal no contexto da União Europeia

1.1. Elementos económico-sociais comparativos

1.1.1. O País, 20 anos depois da adesão, vive um momento particularmente difícil, indissociável da integração comunitária e inseparável da intensificação da ofensiva contra os direitos de quem trabalha, e redução e/ou eliminação de funções do Estado conquistadas com o 25 de Abril, de importância estratégica no desenvolvimento do País e nas áreas sociais, nomeadamente na educação, saúde e segurança social. Ofensiva que, sob o pretexto do cumprimento das políticas comunitárias, serve os grandes interesses económicos e financeiros e enfrenta a resistência dos trabalhadores e das populações.
Uma análise da situação socio-económica actual de Portugal, 20 anos depois da adesão à então CEE, demonstra que o crescimento económico irregular, com períodos de decréscimo e de estagnação, mas tendencialmente de decréscimo, foi acompanhado do agravamento das desigualdades na distribuição do rendimento nacional, do agravamento das assimetrias regionais, da debilitação de sectores produtivos nacionais, da ampliação dos problemas e fragilidades da economia nacional e da acentuação da sua dependência e de défices estruturais. Havendo sinais de uma mudança na opinião da população portuguesa, crescentemente desfavorável à União Europeia.

1.1.2. A apregoada convergência está em retrocesso, depois de um período de alguma aproximação do PIB per capita de Portugal (expresso em paridade de poder de compra), com o valor médio da União Europeia a 15. Em 1986 aquele índice era de 59,4% do valor médio da União Europeia a 15, atingiu em 2000 73,2% (o seu valor máximo), tendo recuado desde então para 65,8% em 2005 (valor semelhante ao de 1989), período que corresponde à introdução prática do euro. A taxa de crescimento anual do PIB per capita (preços constantes de 2000) tem vindo a decrescer de década para década, ficando próxima do zero no período 2001-2006.

1.1.3. Entretanto, apesar dos fundos comunitários, não foram ultrapassados défices estruturais de aproveitamento dos recursos naturais ou da produção de bens materiais. O País continua a não aproveitar todas as suas potencialidades na produção de alimentos e outros bens essenciais, as empresas portuguesas (por diferenciais de produtividade e competitividade) perdem mercados na concorrência com as empresas de outros países (comunitários e terceiros), não se colmatou o nosso elevado défice científico e tecnológico, agravou-se substancialmente o défice energético e a dependência do petróleo e, apesar dos progressos verificados, mantêm-se significativas insuficiências e carências em termos de infra-estruturas de transportes e logística.

1.1.4. O aumento da debilidade do sector produtivo reflecte-se no agravamento do défice da balança de transacções correntes (BTC). Em 2005, o saldo da BTC portuguesa apresentava um défice de cerca de 14 mil milhões de euros, ou seja, cerca de 9,5% do PIB. Mas, em 1986, primeiro ano da adesão, Portugal tinha um saldo positivo da BTC de cerca de 500 milhões de euros, o que demonstra o enorme acréscimo de dependência após 20 anos de adesão, com o País a importar mais do que exporta, e a produzir menos do que necessita para o seu consumo. O saldo médio da BTC apresenta uma situação de défice permanente, e crescente de década para década.

1.1.5. Um outro reflexo da crescente debilidade do sector produtivo, e consequência da revisão de uma legislação laboral que era favorável aos trabalhadores, é o agravamento do desemprego, apesar do aumento da emigração para diversos países da União Europeia, por vezes em condições de grande precariedade e exploração. Emigração que teve como reverso uma crescente e significativa imigração, em grande parte «clandestina», particularmente de países de língua oficial portuguesa e países do Leste da Europa, brutalmente explorada e precarizada. Em 2005, a taxa oficial de desemprego foi 7,6% (taxa dita em sentido restrito, não contabilizando milhares de verdadeiros desempregados). Quanto à qualidade do emprego existente, a tendência é para a precariedade, com Portugal a ter uma das maiores taxas de trabalho precário da União Europeia, e bastante superior à média comunitária. Por exemplo, os contratos a prazo passaram de 11% do total de emprego em 1994, para 19,5% em 2005, ou seja, para quase um milhão de trabalhadores.

1.1.6. Na área social, apesar da dificuldade de comparação de dados da evolução dos últimos 20 anos, podemos verificar que Portugal é um dos países com maiores desigualdades de rendimento dos que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Tendo como base o coeficiente de Gini (índice que reflecte e quantifica a dimensão dessas desigualdades), em 2005 este era de 35,6% em Portugal face aos 30,7% da média da OCDE, apenas sendo ultrapassado pelos EUA, Polónia, Turquia e México. Portugal era também o País com maiores desigualdades de rendimento da União Europeia: os 20% com maiores rendimentos tinham rendimentos 7,2 vezes superiores aos 20% com menores rendimentos, verificando-se uma tendência para o agravamento deste índice durante os últimos anos (dados de 2004).

1.1.7. Portugal é o País com menor salário mínimo da UE-15 e o País com menor despesa em protecção social per capita em paridade de poder de compra. Daí que a chamada taxa de pobreza, cujos dados mais recentes datam de 2004, tenha atingido 21% em Portugal, uma das maiores da UE, não havendo tendência para a sua diminuição. Isto significa que há mais de dois milhões de pessoas a viver na pobreza. Ou seja, Portugal continua no pelotão mais atrasado do desenvolvimento social e atingiu o pelotão da frente no agravamento das desigualdades sociais e regionais.

1.1.8. Relativamente à educação, elemento inquestionável para a mudança de situação, apesar dos progressos obtidos em resultado da Revolução de Abril, Portugal tem, ainda a maior taxa de abandono e insucesso escolares da UE – cerca de 40% em 2006 –, sendo quase três vezes superior à média da UE-25.
( http://www.pcp.pt/joomla/index.php?option=com_content&task=view&id=7510&Itemid=325 )

De facto, só por este primeiro ponto se percebe como foi feita uma avaliação certeira do estado a que tínhamos chegado, nesse já tão distante final de 2006... Entretanto, deste então o que se passou, ou melhor, o que mais nos caiu em cima?  É-nos indispensável uma avaliação de memória, mesmo que muito rápida, procedendo ao balanço comparativo dos dois tempos que assinalam a nossa marcha para o abismo, o de 2006 e o actual, conduzidos pela mão da nossa "amiga", "democrática" e "solidária" "U.E..
Mas vejamos somente alguns tópicos, socorrendo-nos de notícias breves na Imprensa:

"Enquanto os défices correntes na Irlanda e, em menor grau, na Espanha, caíram no último ano para níveis mais sustentáveis, no caso de Portugal e da Grécia permanecem "excessivamente altos", respectivamente em 10,4 por cento e 9,9 por cento."
(Lusa, Abril de 2011)

"A OCDE prevê que o PIB de Portugal vá encolher 3,2 por cento este ano e voltar a cair 0,9 por cento em 2013. Ambos os números são bastante mais pessimistas que as previsões do Governo.
Caso as projecções da OCDE se concretizem, os défices orçamentais ascenderiam a 4,6 por cento do PIB este ano e 3,5 por cento no próximo - acima das metas oficiais (4,5 por cento e 3 por cento)."
(Público, 22.05.2012)

"Segundo o INE, entre o 1º Trimestre de 2011 e o 1º Trimestre de 2012, (quadro 4) o desemprego oficial aumentou em Portugal de 12,4% para 14,9% (de 689 mil para 819 mil desempregados), mas o desemprego real, que inclui também os "inactivos disponíveis" e o "desemprego visível, aumentou de 17,7% para 21,5% (o número de desempregados subiu de 1.007.000 para 1.224.000). E no fim do 1ºTrimestre de 2012, segundo dados da Segurança Social, estavam a receber o subsidio de desemprego apenas 359 mil desempregados, ou seja, somente 29 em cada 100, não recebendo qualquer subsidio de desemprego 865.000 desempregados." 
(Dados divulgados, em estudo recente, de Eugénio Rosa)

"As receitas fiscais caíram 3% nos primeiros quatro meses deste ano, enquanto a despesa corrente aumentou 1%. O Estado português está a recolher menos impostos, sobretudo em IVA, enquanto o corte de 5% nas despesas com pessoal foi insuficiente para colocar a despesa total a cair. O défice do subsector Estado atingiu 3,05 mil milhões de euros nos primeiros quatro meses do ano, o que representa um agravamento face ao desequilíbrio de 2,45 mil milhões de euros registado no mesmo período do ano passado.
O agravamento deve-se ao efeito combinado do aumento da despesa corrente em 1%, enquanto as receitas totais do Estado registaram uma queda de 2,3%, penalizadas pela descida de 3% nas receitas fiscais.
Segundo anunciou hoje a Direcção Geral do Orçamento, na Execução Orçamental de Maio, o saldo da Administração Central
 e da Segurança Social  foi negativo em 1,9 mil milhões de euros."
(Negócios Online, 23.05.2012)

Não resisto a acrescentar um comentário, deixado para esta notícia:



sábado, 19 de maio de 2012

PCP saúda KKE

O Secretariado do CC do PCP enviou, no dia 9, uma saudação ao Partido Comunista da Grécia (KKE) pelos resultados obtidos nas recentes eleições. Na mensagem afirma-se:

«Ao tomarmos conhecimento dos resultados finais das eleições legislativas no vosso país queremos transmitir-vos as nossas felicitações pelo resultado obtido pelo KKE, que se traduziu num reforço da influência eleitoral do vosso Partido, tão mais importante quanto obtido em difíceis condições de luta política e ideológica.
«Os recentes desenvolvimentos no vosso país testemunham bem da complexidade e exigência da luta dos trabalhadores e do povo grego, mas expressam simultaneamente uma real vontade de mudança e uma forte condenação das políticas anti-sociais e antidemocráticas do grande capital.
«Assim, queremos reiterar-vos a solidariedade de sempre dos comunistas portugueses à vossa persistente luta em defesa dos direitos e aspirações dos trabalhadores e do povo grego, uma luta que consideramos inseparável da nossa própria luta em Portugal assim como da luta mais geral dos povos contra o grande capital e o imperialismo, pelo progresso social, a paz e o socialismo.»

terça-feira, 24 de abril de 2012

Importante posição de "militares de Abril"


Realizam-se nesta data, por todo o país, as comemorações populares do aniversário da Revolução do 25 de Abril, comemorações que culminarão na grande manifestação popular que se realiza na Av. da Liberdade, em Lisboa.
Passados 38 anos sobre essa data gloriosa da história do povo português, "militares de Abril" integrantes da Associação 25 de Abril - A25A - decidiram tomar uma posição política de crítica à actual situação que se vive no país, tomando como alvo o governo de turno dos banqueiros e monopolistas, PSD/CDS. Independentemente do facto de estarem decorridos 36 anos de políticas e governos contra-revolucionários, sempre da responsabilidade - expressa ou encapotada - dos partidos da troika anti-Abril - PS/PSD/CDS -, para além das colagens oportunistas e descaradas de Mário Soares e de outros responsáveis do PS - colagens decerto programadas com os militares da sua área política dentro da A25A -, não obstante ainda a forma escolhida para o divulgarem, anunciando a ausência dos "militares de Abril" das cerimónias que decorrem na Assembleia da República, o conteúdo do Manifesto divulgado pelos dirigentes desta Associação tem objectivamente uma importante relevância política no momento actual. Neste contexto, sublinha-se especialmente a posição da Associação dos Oficiais das FF.AA., anunciando estar solidária com a posição da A25A.  

Imediatamente sujeita às respostas revanchistas de numerosos personagens da contra-revolução e de diversos "analistas" e "politólogos" ao serviço do grande capital, a atitude certa das forças e organizações operárias, democráticas e patrióticas, é a de saudação a esta tomada de posição dos militares que se afirmam hoje defensores dos valores e ideais de Abril, sob pena de os deixarmos isolados nessa sua atitude, mesmo sabendo-se que ela peca por tardia e que não condena claramente todos os partidos responsáveis pelo estado calamitoso a que o país chegou, com uma economia arruinada, com práticas "sociais" verdadeiramente terroristas, com a liquidação prática das liberdades políticas e dos postulados constitucionais abrilistas que ainda restam, num quadro geral de miséria, de sofrimentos físicos e morais inumeráveis para o nosso povo, de submissão aos ditames imperialistas da U.E. 
A histórica definição estratégica da política de alianças que permitiu aprofundar e defender as extraordinárias conquistas da Revolução de 1974, consubstanciada na fórmula "Aliança Povo-MFA", apesar das distâncias temporais e de contextos muito diferentes, não obstante todas as mudanças retrógradas verificadas, continua a ser uma fórmula política útil e ainda aplicável. Sem MFA, sem a vasta agregação de vontades democráticas e progressistas no seio dos militares que proporcionou a realização do distante 25 de Abril de 74, a divulgação e o apoio a este grito de protesto de numerosos "militares de Abril" não podem ser substimados ou diluídos por considerações de comodidade política. O seu significado imediato e mesmo a médio prazo é suficientemente relevante para ser deixado isolado e alvo fácil da actividade diluidora dos inimigos do Povo e da Democracia. Ou pior, oportunísticamente aproveitado por saudosos do nacionalismo fascista.
Como contributo solidário e para essa divulgação, abaixo se transcreve o texto desse Manifesto.           

                                     Abril não desarma

Há 38 anos, os Militares de Abril pegaram em armas para libertar o Povo da ditadura e da opressão e criar condições para a superação da crise que então se vivia.
Fizeram-no na convicta certeza de que assumiam o papel que os Portugueses esperavamde si. Cumpridos os compromissos assumidos e finda a sua intervenção directa nos assuntos políticos da nação, a esmagadora maioria integrou-se na Associação 25 de Abril, dela fazendo depositária primeira do seu espírito libertador.
Hoje, não abdicando da nossa condição de cidadãos livres, conscientes das obrigações patrióticas que a nossa condição de Militares de Abril nos impõe, sentimos o dever de tomar uma posição cívica e política no quadro da Constituição da República Portuguesa, face à actual crise nacional.
A nossa ética e a moral que muito prezamos, assim no-lo impõem!
Fazemo-lo como cidadãos de corpo inteiro, integrados na associação cívica e cultural que fundámos e que, felizmente, seguiu o seu caminho de integração plena na sociedade portuguesa.

Porque consideramos que:

O contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa foi rompido pelo poder. As medidas e sacrifícios impostos aos cidadãos portugueses ultrapassaram os limites do suportável. Condições inaceitáveis de segurança e bem estar social atingem a dignidade da pessoa humana.

O rumo político seguido protege os privilégios, agrava a pobreza e a exclusão social, desvaloriza o trabalho.

Sem uma justiça capaz, com dirigentes políticos para quem a ética é palavra vã, Portugal é já o país da União Europeia com maiores desigualdades sociais. Portugal não tem sido respeitado entre iguais, na construção institucional comum, a União Europeia.

Portugal é tratado com arrogância por poderes externos, o que os nossos governantes aceitam sem protesto e com a auto-satisfação dos subservientes. O nosso estatuto real é hoje o de um “protectorado”, com dirigentes sem capacidade autónoma de decisão nos nossos destinos.

Entendemos ser oportuno tomar uma posição clara contra a iniquidade, o medo e o conformismo que se estão a instalar na nossa sociedade e proclamar bem alto, perante os Portugueses, que:

- A linha política seguida pelo actual poder político deixou de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril configurado na Constituição da República Portuguesa;

- O poder político que actualmente governa Portugal, configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores;

Em conformidade, a A25A anuncia que:

- Não participará nos actos oficiais nacionais evocativos do 38.º aniversário do 25 de Abril;
- Participará nas Comemorações Populares e outros actos locais de celebração do 25 de Abril;
- Continuará a evocar e a comemorar o 25 de Abril numa perspectiva de festa pela acção libertadora e numa perspectiva de luta pela realização dos seus ideais, tendo em consideração a autonomia de decisão e escolha dos cidadãos, nas suas múltiplas expressões.

Porque continuamos a acreditar na democracia, porque continuamos a considerar que os problemas da democracia se resolvem com mais democracia, esclarecemos que a nossa atitude não visa as Instituições de soberania democráticas, não pretendendo confundi-las com os que são seus titulares e exercem o poder.
Também por isso, a Associação 25 de Abril e, especificamente, os Militares de Abril, proclamam que, hoje como ontem, não pretendem assumir qualquer protagonismo político, que só cabe ao Povo português na sua diversidade e múltiplas formas de expressão.
Nesse mesmo sentido, declaramos ter plena consciência da importância da instituição militar, como recurso derradeiro nas encruzilhadas decisivas da História do nosso Portugal.
Por isso, declaramos a nossa confiança em que a mesma saberá manter-se firme, em defesa do seu País e do seu Povo. Por isso, aqui manifestamos também o nosso respeito pela instituição militar e o nosso empenhamento pela sua dignificação e prestígio público da sua missão patriótica.

Neste momento difícil para Portugal, queremos, pois:

1. Reafirmar a nossa convicção quanto à vitória futura, mesmo que sofrida, dos valores de Abril no quadro de uma alternativa política, económica, social e cultural que corresponda aos anseios profundos do Povo português e à consolidação e perenidade da Pátria portuguesa.

2. Apelar ao Povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia.

Viva Portugal!

Lisboa, 23 de Abril de 2012

Associação 25 de Abril.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres árabes, na luta!


Por ocasião da comemoração deste Dia Internacional da Mulher, transcreve-se um artigo sobre o papel central das mulheres árabes, nas transformações progressistas operadas nos seus países, hoje palcos de renhidas lutas democráticas, nacionais, populares.

Na linha de frente, as mulheres
Por Soraya Misleh, do ICArabe

Diferentemente do que se costuma difundir, no mundo árabe, o protagonismo feminino nos campos de batalha e em diversas áreas do conhecimento é histórico.
As revoluções no mundo árabe vêm derrubando não só ditaduras e trazendo à tona as suas relações com o império. Vêm também desconstruindo estereótipos. Entre eles, as tão frequentes quanto equivocadas generalizações em relação às mulheres árabes. No Brasil e em várias partes do globo, a imagem transmitida por agências de notícias internacionais e mídias corporativas é de um grupo absolutamente homogéneo. São mulheres cobertas com véus, submissas, que escondem uma sensualidade intrínseca por detrás das suas pesadas roupas, normalmente de cor escura. O colorido da diversificada e rica sociedade árabe é deliberadamente omitido.
O primeiro mito que as revoluções que tiveram início na Tunísia em fins de 2010 e se alastraram por diversos países colocou por terra foi o de que essas mulheres jamais se colocariam na linha de frente das batalhas por direitos. Os levantes que derrubaram até agora quatro ditaduras – e continuam em curso – demonstraram que o seu protagonismo foi e tem sido fundamental para pôr fim a regimes opressores. No Egito, é comum a cena de milhares de mulheres na Praça Tahrir. Ao se congelar essa imagem, outro mito é desfeito: o de que todas elas usam véus. O senso comum, fundamentado na ideia de que toda a árabe é muçulmana, é desafiado (como se não houvesse outras religiões ou nenhuma fé no seio dessas sociedades e todas as islâmicas usassem obrigatoriamente véu, o que também é uma falácia). Há mulheres cobertas, descobertas, com roupas de todo tipo, como em qualquer outra sociedade.
A ideia de que as muçulmanas estão à margem desses processos também é desmontada no curso das revoluções. A egípcia feminista Nawal El Saadawi, que pôde ser vista ao lado de outras lutadoras nas grandes manifestações na Praça Tahrir, explica em seus escritos que o Islão chega a ser mais suave no que se refere às diferenças de género. O que ocorre é que a religião tem sido usada como meio de dominação, mediante distintas interpretações, de modo a favorecer o grupo político hegemónico e a manter a opressão de classe.
O que ainda está por ser desconstruído é a ideia de que a participação feminina em revoluções no mundo árabe é novidade. Quem elucida esse tema é Nawal. No seu único livro traduzido para o português, “A face oculta de Eva – as mulheres do mundo árabe”, ela salienta: “A história tem descrito, com falsidade, muitos dos fatos relacionados ao sexo feminino. As mulheres árabes não são mentalmente deficientes, como os homens e a história, escrita por eles, tendem a afirmar, tampouco são frágeis e passivas. Ao contrário, as árabes mostraram resistência ao sistema patriarcal centenas de anos antes que as americanas e europeias se lançassem a essas mesmas lutas.” Sistema esse que passou a predominar a partir do surgimento da noção de propriedade privada e a divisão de classes", como ensina Nawal na sua obra. Em tempos ancestrais, em que predominava o nomadismo e a agricultura de subsistência, as mulheres detinham a igualdade em assuntos sociais, económicos e na esfera política.
Destituídas dessa posição e relegadas às camadas sociais inferiores, as mulheres da região, assim como em outras partes do globo, vêm assumindo a linha de frente na oposição a esse status quo. Assim, ao longo dos séculos, têm desempenhado papel fundamental nas lutas contra o colonialismo, a dominação, por direitos, por justiça. Não poderia ser diferente: acabar com a desigualdade de género é uma bandeira crucial na transformação dessas sociedades. Nesse ponto, Nawal é categórica: “Enquanto os assuntos do Estado ou do poder administrativo forem delegados à mulher dentro de uma estrutura social de classes, baseada no capitalismo e no sistema familiar patriarcal, homens e mulheres hão de permanecer vítimas da exploração.” Mudar esse estado de coisas mantém-se na ordem do dia de muitas mulheres.

Protagonismo histórico
Em seu livro, Nawal descreve uma série de acontecimentos que não deixam dúvidas do seu protagonismo histórico em diversas áreas – nos campos de batalha, na literatura, na poesia. Ela cita diversos nomes femininos que inclusivé combateram nas fileiras do profeta Maomé ou contra ele e seus seguidores, na era islâmica. As próprias esposas do profeta eram exemplos de mulheres firmes, que não abriam mão de seus direitos.
Dando um salto no tempo até o início do século XX, a escritora relata que no Egito foram as mulheres as primeiras a deflagrar greves, a ocupar fábricas e a marchar por direitos. Participaram activamente na revolução nacional de 1919, contra o imperialismo britânico. No país, em 1923, foi fundada a Federação das Mulheres. Em outra revolução, em 1956, arrancaram o direito a voto.
A autora complementa: “O Egito não foi o único país árabe no qual a mulher participou ativamente na luta contra o imperialismo estrangeiro e a opressão interna. A mulher em todo o mundo árabe lutou ombro a ombro com o homem pela libertação nacional e pela justiça social.” Na Síria, no Líbano e na Argélia, tiveram papel fundamental contra a ocupação francesa. No Iraque, também se opuseram ao imperialismo e contribuíram “para acelerar as transformações sociais”. Na Jordânia, historicamente têm “organizado a luta nas frentes sociais, políticas ou econômicas”. No Sudão, tiveram papel destacado no movimento nacional de libertação contra os ingleses. No Kuwait, na Líbia, no Iêmen, no Marrocos, têm dado a sua contribuição por justiça e liberdade.
Na Palestina, foram pioneiras em protestar contra a instalação dos primeiros assentamentos sionistas ainda no final do século XIX, com fins coloniais – e têm resistido aos mais de 60 anos de ocupação israelense na linha de frente. “A extensa lista de mártires serviria para encher as páginas de todo um capítulo, mas entre as mais conhecidas estão Leila Khaled, Fátima Bernaw, Amina Dahbour, Sadis Abou Ghazala e outras cujos feitos intrépidos um dia serão admirados pelas futuras gerações de jovens e mulheres.”

( Editado no Blog Escrevinhador)





sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Os Povos Acusam: Terroristas!

Há dias, numa caixa de comentários, a propósito dos últimos desenvolvimentos da "crise"/versão doméstica e as suas dramáticas consequências sociais, foram publicadas as duas opiniões que abaixo se transcrevem e que sintetizam bem numerosas outras avaliações cidadãs àcerca das duas faces dessa mesma moeda:

"É uma evidência que a bolha em obrigações que nada valem está (mais uma vez) prestes a rebentar. É uma evidência que os países "subprime" são a forma mais rentável de ir mantendo os lucros e evitar o colapso. Existe uma enorme neblina à volta disto, mas não querer saber ou negar, além de delírio é suicídio"

"Começa a vir ao de cima. Mas o mais grave é o que nem aqui, ainda, foi dito. É um problema simples, com uma solução macabra. Os recursos não chegam para todos. Portanto quem realmente domina, está a assegurar que chega para si, e para quem lhe convém. Os outros, estão a mais..."

São considerações certeiras. Quanto à situação vivida actualmente pelos portugueses, em resultado da política de um poder troikiano social-terrorista e genocida, tornaram-se espantosamente vulgares e comuns tiradas de personagens do "arco governativo" como a da madame Ferreira Leite, preconizando que, a partir dos setenta anos, quem necessitar de hemodiálise que a pague - traduzido, significa que, se não possui recursos para o fazer, que morra p'rái! Significativamente, o espécime de avantesma que se intitula ministro(!) da Economia(!!!), dois dias após, vem debitar uma "peça" que lhe escreveram, defendendo que os pastéis de Belém deviam internacionalizar-se como a Mac'Donalds (o mentecapto acaso ignorará o ridículo que constitui tal comparação?), como solução para o acelerado afundamento económico do país, entremeando esgares de bacoco risível com olhinhos odientos de menino do papá aterrorizado mas neonazi. O criminoso cortejo de medidas de roubos social-terroristas, praticadas pela política de classe governamental apoiada pela troika interna, PS/PSD/CDS é já interminável: roubo de pensões e salários, cortes de prestações sociais dos mais vulneráveis no fim da escala social, aumentos brutais nos impostos indirectos e na alimentação, aumentos galopantes nas tarifas de serviços tornados indispensáveis - electricidade, combustíveis, telecomunicações, transportes -, imposição de aumentos verdadeiramente genocidas nas taxas do S.N.S., nova legislação para os arrendamentos de casas, condenando ao despejo expedito as famílias mais pobres e idosas, o apagão abrupto do sinal analógico de televisão, deixando sem tv milhares de famílias pobres, etc, etc. Na legislação do trabalho, intensificam a ofensiva, apoiados pelos amarelos nas reuniões da "Concertação" Social, querendo liquidar o actual direito a férias, ao descanso aos sábados, aos feriados - significativo: o feriado do 5 de Outubro, da implantação da República, nem os fascistas ao longo de quarenta e oito anos liquidaram...! -, às horas extra pagas, ao recebimento de subsídio de desemprego,etc. 
Em síntese, às ordens da troika externa, CE/BCE/FMI - capitaneada pela dupla gangsteriana Merkel-Sarkozy - e por decisão própria, ideológica, visando rasurar e enterrar definitivamente o pouco que ainda resistiu até agora das conquistas e transformações democrato-populares do nosso 25 de Abril, o governo hoje de turno está em campanha permanente, agredindo violentamente os trabalhadores, os reformados, as camadas mais pobres e fragilizadas, os idosos. Numa única mas apropriada palavra, o governo de Portugal conduz uma campanha terrorista, com propósitos claramente genocidas, contra o próprio povo português.

Paralelamente, no plano internacional, nos últimos dias assistimos a desenvolvimentos exponenciais do carácter agressivo e criminoso do imperialismo e do terrorismo neofascista de Estado, bem espelhados em vários factos que têm chegado à imprensa mundial. No Afeganistão, militares "made in USA" são filmados urinando sobre os cadáveres de militantes nacionalistas afegãos; no Irão, é assassinado à bomba um cientista nuclear iraniano, pela dupla assassina CIA/Mossad; na base imperialista de Guantánamo prosseguem as detenções ilegais de cidadãos aprisionados em qualquer país, transportados ilegalmente através do globo, torturados e violentados física e psiquicamente; prosseguem os ataques a populações civis inteiras, com recurso aos "drones", aeronaves teleguiadas altamente sofisticadas e caras; provas testemunhais gravadas revelam actividades de recrutamento de agentes terroristas pela CIA e outros serviços secretos "ocidentais", em vários países (Iraque, Afeganistão, Paquistão, Índia, etc); enquanto tudo isto ocorre, o eixo imperialista EUA/UE/NATO planeia a guerra contra o Irão, contra a Síria e contra outros países, aproximando-nos perigosamente de uma confrontação militar internacional de proporções dantescas, pela entrada provável no conflito da Rússia e da China. Entretanto, factos internos nacionais difundidos pelos orgãos de comunicação são reveladores da degradação social crescente: em África, nomeadamente no Sudão, morrem diariamente à fome milhares de seres humanos, nomeadamente os mais desprotegidos, mulheres e crianças; na Grécia, mães e pais impossibilitados já de proverem à alimentação e sustentação básica dos seus filhos, entregam-nos à guarda de instituições caritativas às centenas, sofrendo assim dores morais e afectivas inenarráveis; imagens de ruína, fome, miséria, crescente marginalidade social, chegam-nos diariamente de países tão distantes quanto europeus, asiáticos, africanos, sul-americanos, norte-americanos, revelando um processo imparável e generalizado de regressão civilizacional.  Os exemplos são tantos que seria exaustivo mencioná-los todos, mas tendo por denominador comum a mesma causa: uma degenerescência social-terrorista dos regimes políticos enfeudados ao comando global das potências imperialistas.

O terrorismo, nas suas múltiplas dimensões imperialistas - terrorismo económico, terrorismo social, terrorismo cultural, terrorismo político, terrorismo militar - é hoje a prática de governação predominante do capitalismo mundial. Regimes de democracia burguesa degeneram em sistemas de dominação proto-fascista, nalguns casos com óbvios traços de genocídio neonazi. Os conceitos, e as palavras que os traduzem, são violentos, brutais mesmo, mas são dolorosamente reais. Não há outra designação para as práticas desapiedadas e terroristas; são isto mesmo, terrorismo.
O nosso futuro colectivo, um futuro incrivelmente próximo, disputa-se hoje renhidamente  entre os democratas e os patriotas e os neoliberais de vocação neofascista. Um futuro que irá decidir-se entre uma democracia para os tempos actuais, construída pelo poder político das classes laboriosas, organizadas em Estados democrático-populares que assegurem as várias dimensões da Democracia - política, económica, social, cultural, nacional e patriótica -, e um neofascismo articulado por Estados repressivos das liberdades, aplicando políticas terroristas de dominação dos trabalhadores e dos povos que, inteira e exclusivamente ao serviço do grande capital monopolista, reduzam os assalariados à condição de escravos do século XXI e façam retroceder os parâmetros civilizacionais aos mais atrasados do principio do século anterior.
A luta, a luta social e política de trabalhadores e de populações laboriosas, aliadas a outras camadas específicas e igualmente anti-monopolistas, tornou-se inevitável - irrecusável, sem alternativa e urgente -, com uma urgência que está em conexão dialéctica com a acelerada marcha para o abismo que persegue o seu comum inimigo de classe. Estamos no tempo de lutar pela viragem e pela derrota dos planos, práticas e propósitos criminosos do capitalismo imperialista. Hoje, é um combate de vida ou de morte, para cada um de nós e simultâneamente para a Humanidade. A equação é:    Democracia/Liberdade, "versus"Terrorismo/Neofascismo. Que se desiludam todos quantos ainda alimentam e difundem a crença - cega para a realidade - que pudesse ser possível conter a besta capitalista-imperialista e transitar para regimes de um "capitalismo bom", humano, respeitador dos direitos humanos, saudosista. A marcha da História não se detém: ou a direccionamos para o progresso social e para novos avanços civilizacionais - para o Socialismo - ou ela rodará para o abismo de um novo período de barbárie e desumanidades. O tempo, a hora é de agirmos. Cumpramos o nosso dever cívico e revolucionário, apontando aos trabalhadores e aos povos o caminho justo, o caminho certo, desmascarando e derrotando os propósitos do capitalismo imperial terrorista e dos seus executantes de serviço - governos, forças e formações proto-fascistas, sectores colaboracionistas e quintas-colunas infiltradas nos movimentos operários e nos partidos operários e comunistas.
A luta vai ser muito dura, muito complexa, muito exigente, sem tréguas, da máxima urgência. E também exaltante, pela convicção e alegria revolucionárias e pela nossa comum determinação de legarmos aos nossos filhos e netos um mundo novo, livre das chagas e pestilências da exploração, liberto da opressão humilhante da canga imperialista, livre das guerras e com a marca impressiva da fraternidade humana plenamente realizada.
Não à resignação, não ao conformismo, não às falsas contemporizações, não ao comodismo individualista e desistente. Sim à luta, sim à unidade de combate, sim à fraternal caminhada até à vitória dos trabalhadores, rumo à democracia e à liberdade dos nossos povos, rumo ao socialismo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A História repete-se? Não, mas por vezes assemelha-se muito.



À beira da passagem para um novo ano, na caminhada interminável do calendário, o pensamento foge-nos para a realização de balanços e análises sobre a marcha das nossas vidas pessoais e, por extensão do campo de visão, também sobre a marcha do nosso país e do mundo.
Há duas ou três semanas, um conhecido comentador da Antena 1, diplomata de carreira,  “saiu-se” com uma que nos dá que pensar, não tanto pela sua “criatividade” mas pelo seu carácter sintomático. Perguntou o dito comentador ao pivot do programa: “Sabe qual é o país mais parecido com Portugal?” – e, perante a espera deste pela resposta, acrescentou: “É o Portugal de antes do 25 de Abril!”.
O episódio relatado exige uma explicação adicional: sobre o tema tratado no momento da pergunta - a situação nos países árabes do norte e leste de África -, o dito comentador pretendeu dar Portugal como um exemplo da continuidade política cíclica dos países, não obstante as convulsões que momentaneamente os podem atingir.  Neste caso (o de Portugal e dos portugueses), para além da evidente mistificação com a qual o comentador com assinatura quis ludibriar os ouvintes da Antena 1 - levando-os a admitir que tudo está já como antes, o que não é inteiramente verdade - , vale a pena avaliar que semelhanças já se produzem numa comparação política das duas épocas, intervaladas por longos quase 38 anos.
O que interessa avaliarmos é em que medida existe acerto na rábula utilizada pelo reaccionário "comentarista" encartado, não na sua perspectiva retrógrada mas sim procurando fazer uma análise comparada justa. A História não se repete, afirmamos muitas vezes, pelo óbvio e irrecusável facto de o já ocorrido não puder voltar a ocorrer. Mas é bem verdade que a marcha da História nos surpreende amiúde, ao avaliarmos acontecimentos, factos e sobretudo ambientes/contextos com semelhanças surpreendentes, a confirmar o carácter relativamente constante – mas não imutável – dos comportamentos colectivos dos homens e das suas organizações políticas.


Um país pasmado, à espera da revolução

Comparando os dois períodos em Portugal, o dos idos anos setenta e o actual, um dado central emerge: o Capitalismo Monopolista de Estado aí está, regressado em força após 35 anos de contra-revolução, de novo operando a fusão entre poder económico e poder político, com o Estado inteiramente subordinado aos interesses do grande capital e reconfigurado para garantir plenamente essa sua função de classe. As importantes transformações sociais conquistadas no Ano Um da Revolução estão praticamente exauridas, com os governos dos banqueiros e monopolistas lançados numa autêntica “cruzada” para as destruir completa e totalmente, no Trabalho, na Saúde, no Ensino, na Segurança Social, na Habitação, na Cultura, tornando a cada dia que passa as realidades sociais mais assemelhadas às situações existentes nos últimos anos do fascismo.Tal como ocorria à época, os políticos estão desacreditados, os governantes fingem-se surdos aos protestos populares, enquanto crescem a pobreza e a miséria nas classes e camadas sociais mais vulneráveis, avança a recessão profunda na economia, com o cortejo dos nossos défices estruturais a crescer; aumenta galopantemente o desemprego, prossegue a marcha destrutiva de liquidação das pequenas empresas, sufocadas pelo garrote financeiro do corte de crédito pelos banqueiros, cava-se mais fundo o já enorme fosso social entre ricos e pobres; retiram direitos laborais que foram resistindo pela luta dos trabalhadores, reduzindo os salários e os complementos salariais, diminuindo o valor das pensões de reforma e elevando a idade para a ela termos direito, aumentando incessantemente as cargas fiscais nos rendimentos do trabalho e nos serviços e produtos de consumo popular, planeiam aumentar as cargas horárias do trabalho (as formais e as “informais”!), .

Paralelamente, os aparelhos repressivos crescem e, com pretexto no aumento dos assaltos a ourivesarias, a bombas de gasolina e a caixas multibanco - evidentemente um aumento de criminalidade parido pela drástica degradação social e que vai continuar a crescer! -, o governo justifica a tese da “necessidade” de recorrer a eles e usa a repressão policial tanto contra a criminalidade como contra as lutas operárias e populares, hoje chamadas "actividades perturbadoras da coesão e paz social", ao mesmo tempo que manobra visando comprometer e assegurar a fidelidade das forças policiais e militares ao projecto ditatorial já em execução. Diametralmente, as liberdades políticas e sindicais falecem, delas já só restando em muitas vertentes do seu exercício concreto uma máscara formal, a ocultar a sua progressiva extinção.
Tal como no passado, também o vector da submissão do regime ao imperialismo está presente: antes, pela mão dos embaixadores imperialistas, hoje pela via institucional "democrática" da integração do país na nefasta "União" Europeia e a submissão canina dos governos de turno aos ditames coloniais e imperialistas desta, com a supervisão dos seus próprios tecnocratas já fisicamente instalados nos ministérios e serviços do Estado português, dizendo directamente aos políticos do grande capital e aos burocratas portugueses o que devem - e como devem - fazer, com direito a reverenciais coberturas mediáticas, quase diárias, do que faz e diz o sr. Poul Thomsen!
Os eurocratas mandam e os marionetas do governo português aplicam, com um zelo verdadeiramente canino, os cortes (roubos autênticos) nos salários e nas pensões, os aumentos nos impostos, as privatizações do que resta por privatizar dos sectores económicos estratégicos e a quem os entregar, preparam pressurosamente as chamadas “reformas estruturais” para nos ajoelharem,  na legislação do trabalho, na política de investimentos públicos, na organização da Justiça, na política fiscal, nas forças militares e policiais, etc. Pode afirmar-se com inteira verdade que aquilo que Merkel e Sarkozy vão tramando nestas últimas semanas, e a que chamam a “governação económica”e a “união orçamental”, já está por antecipação em plena fase de aplicação, sem qualquer consulta ou sequer arremedo de procedimento democrático, conduzindo um país esvaído ao matadouro dos banqueiros carniceiros! E, perante o desespero dos jovens portugueses, sem saídas profissionais, sem perspectivas de vida, sem futuro, a solução que os governantes nacionais apontam é a mesma que “orgulhosamente” apontava Oliveira Salazar(*) – a emigração, a alienação no exterior das suas competências adquiridas e da sua força de trabalho, forçando-os a irem criar riqueza e enriquecerem os países e as burguesias além-fronteiras - como há dias afirmava um secretário de Estado e agora reafirmou aos professores o "presidente do conselho" de ministros, logo secundado pelo seu ministro dos assuntos parlamentares.
Paralelamente, no plano ideológico, a política terrorista da intimidação de massas martela as consciências para que desistamos de lutar pelos nossos direitos, para que aceitemos a "inevitabilidade" de agora retrocedermos aos níveis sociais de há meio século, inoculando diariamente o medo, a insegurança, visando criar um sentimento de pavor face ao tempo imediato, acenando com maiores violações das liberdades políticas, com mais miséria, visando amedrontar e paralisar os ânimos, castrando a vontade de resistir com a ameaça de novas guerras que, de facto, surgirão como inevitáveis, face aos conflitos crescentes entre as potências imperialistas em disputa.

Um mundo em ebulição política

Em conexão com esta situação interna, a situação internacional espelha a agudização das contradições do capitalismo globalizado e revela também traços de semelhança com a situação existente há quatro décadas.  Nessa época, a agudização da luta de classes e dos conflitos sociais e geracionais que se revelam, por exemplo, nos acontecimentos de Maio de 68, em França, e no fenómeno contestatário dos hippies, nos EUA,  nos finais dessa década de sessenta, virá a ter grandes desenvolvimentos em várias partes do mundo na década seguinte, com o surgimento da crise do sistema capitalista nos seus primeiros anos (73/74), transformando-se em grandes convulsões sociais e políticas, com grandes lutas operárias em numerosos países em vários continentes e um vigoroso ascenso das lutas de emancipação e libertação nacionais nas antigas colónias e nos países do terceiro mundo.
Hoje, com grandes semelhanças com aquele passado, assistimos no mundo à maior vaga de contestações sociais e políticas de sempre, tanto pelo número de países onde decorrem como pelo seu carácter de longa duração, com reivindicações políticas crescentemente radicais, contestando os próprios fundamentos do capitalismo, confrontando os governos pró-imperialistas com lutas populares massivas, com uma frequência e radicalidade inusitadas. Tal como nas décadas 60/70, também massas juvenis saem nestes dias às ruas em grandes acções de contestação dos fundamentos das "democracias" burguesas, a par de uma generalizada  e muito activa condenação dos enormes fossos sociais entre os muito ricos e as enormes multidões de pobres, afrontando directamente o poder do capital monopolista financeirizado e os seus regimes políticos neoliberais.
Cresce incessantemente uma nova consciência popular, em revolta contra as agressões de recorte neofascista e em luta contra o carácter terrorista das práticas sociais dos poderes governamentais submetidos às ordens do imperialismo. Estalam revoltas e protestos todos os dias em países dos vários continentes, resistindo e afrontando os planos do capital global-imperialista de reduzirem os povos à servidão e os países e nações à condição de províncias coloniais. Sob os nossos olhos, o mundo acelera a sua marcha de transformação e de mudanças, estilhaçando os anteriores paradigmas do poder burguês e buscando caminhos e soluções novas.


Um ímpeto poderoso que é urgente sabermos direccionar para a via da superação revolucionária

Este quadro, de âmbito mundial, regional e nacional, de crise estrutural e generalizada do capitalismo - que agoniza - coloca um enorme e decisivo desafio às organizações políticas revolucionárias do proletariado. Ideológica e orgânicamente muito fragilizadas, ainda a braços com muitas hesitações e visíveis desenvolvimentos oportunistas, com dificuldade em sacudir o jugo da ideologia burguesa e avançarem decididamente na mobilização dos movimentos operários e populares para a actividade de transformação revolucionária do "status quo". Partidos comunistas que se reclamam como continuadores dos ideais e objectivos de Marx e de Lénine acabam de realizar mais um Encontro Internacional, em Atenas - o 13º., nesta fase de ressurgimento pós-derrocada do campo socialista no continente europeu - no qual participaram 78 partidos oriundos de 59 países e se deram alguns passos, ainda que tímidos, na direcção correcta. Mas outros e mais decididos têm que ser dados e com grande urgência, e não com esta periodicidade anual e já rotineira. 
Um período da Resolução Final aprovada neste Encontro justifica aqui uma transcrição, ao assinalar algumas componentes importantes da direcção ideológica necessária à correcção dos desvios reformistas e revisionistas em curso:

«A luta ideológica do movimento comunista é de importância vital para defender e desenvolver o socialismo científico, repudiar o anticomunismo contemporâneo, fazer frente à ideologia burguesa, às teorias anticientíficas e às correntes oportunistas que rejeitam a luta de classes, e para combater o papel das forças social-democratas que, apoiando a estratégia do capital e do imperialismo, defendem e concretizam políticas antipopulares e pró-imperialistas. A compreensão da natureza unificada das tarefas de luta pela emancipação social, nacional e de classe, pela promoção clara da alternativa socialista, exige uma contra-ofensiva ideológica do movimento comunista.
A superação do capitalismo e a construção do socialismo constituem uma necessidade imperiosa para os povos. Face à crise do capitalismo e às suas consequências, as experiências e práticas internacionais de construção socialista provam a superioridade do socialismo. Sublinhamos a nossa solidariedade para com os povos que lutam pelo socialismo e estão envolvidos na construção do socialismo.
Só o socialismo pode criar as condições para a erradicação das guerras, do desemprego, da fome, da miséria, do analfabetismo, da insegurança de centenas de milhões de pessoa e da destruição do meio ambiente. Só o socialismo cria as condições para um desenvolvimento consentâneo com as necessidades contemporâneas dos trabalhadores.
Operários, camponeses, trabalhadores da cidade e do campo, mulheres, jovens, apelamo-vos para que lutem junto de nós para pôr fim à barbárie capitalista. Existe uma esperança, existe uma perspectiva. O futuro pertence ao socialismo.
O socialismo é o futuro!».

"O socialismo é o futuro!" - mas o futuro conquista-se no presente, pela luta determinada e de classe. E, nas circunstâncias existentes em Portugal, tal como nas vésperas da Revolução Portuguesa de Abril, não resultará de reformas ou correcções do capitalismo por via institucional - esta, manifestamente bloqueada - mas sim da luta de massas pela sua superação que, passo a passo, jornada a jornada, criará as condições de crise do regime que abrirá o caminho à insurreição e levantamento populares.
Para tal, também ensinamentos da experiência revolucionária que antecedeu os acontecimentos de Abril de 1974 nos poderão ser úteis. Do trabalho de Álvaro Cunhal, "Rumo à Vitória" (Ed. "Avante!", 1979, pág. 257), transcreve-se a seguinte passagem, que termina com uma citação de Lénine:

"Que acontecimentos irão precipitar a criação da situação revolucionária, ou seja, a crise simultânea das classes dominantes e das classes dominadas? Bancarrota provocada pelas despesas de guerra? Súbito e vertical agravamento do custo de vida? Sérias derrotas militares na Guiné? Ou qualquer imprevisível acontecimento que eleve ao rubro a indignação popular? Ou outro que lance a desorientação e o pânico nos círculos governantes e abra uma brecha por onde possa irromper o caudal da acção popular? O dever dos revolucionários é estarem atentos ao evoluir da situação nacional, é, como ensinou Lénine, "saber encontrar, pressentir, determinar exactamente a via concreta ou a volta dos acontecimentos que conduzirá as massas para a grande luta revolucionária verdadeira, decisiva e final"
À distância temporal de mais de meio século, em circunstâncias históricas muito diversas, as semelhanças das situações vividas, no passado e no presente, aconselham-nos a ter atentamente em conta estas palavras.
Tanto mais que, no plano das condições objectivas criadas, essa viragem revolucionária já entrou na ordem do dia. Construamos, então, corajosa e persistentemente, as necessárias condições subjectivas para a levar a cabo. 


  
(*) Nota: Há dias, o palerma Alegre, engrossando a voz, afirmou que esta forma de empurrão dos portugueses para a Emigração, dado pelo governo dos seus parceiros de "troika", não era praticado pelo governo fascista. Coitado, fora do país, não estava bem informado, ignorando que a Emigração era toda uma importante linha ideológica de Salazar e Caetano, glorificando diariamente os portugueses que eles mesmos expatriavam, como se praticassem uma gesta nacional ao nível das nossas maiores glórias históricas, como os Descobrimentos...
Enfim, mais palermices - e falsificações da História! - deste triste Alegre.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

28 de Novembro de 1820 - Em Barmen (Alemanha) nasce Friedrich Engels


Um dos dois maiores pensadores políticos (e não só) do século XIX, ele e Karl Marx criadores do pensamento operário revolucionário, Engels é ainda hoje preterido quando se trata de analisar a capacidade transformadora do pensamento sócio-político e da ideologia daquela nova corrente do pensamento que viria a adoptar a designação de Marxismo e a transformar radicalmente a nossa visão do mundo e a tornar bem real e "fazível" o milenar sonho de emancipação dos explorados. Autor de uma vasta e decisiva obra de reflexão teórica e de análise política aos acontecimentos da sua época, bem se pode dizer que se o corpo de teorias que ele, com Marx e posteriormente com a contribuição igualmente essencial de Lénine criaram, tivesse ficado a chamar-se Marxismo-Engel-Leninismo estaria absolutamente certo. Assim não sucedeu, e, deixemos então de parte esta reavaliação especulativa da designação consagrada, sem deixar de sublinhar o valor extraordinário da sua elaboração teórica, seja a sós, seja conjuntamente com Marx. Assinalando o aniversário do seu nascimento, fica um convite à leitura e estudo dos seus escritos, indispensáveis para uma correcta e integral avaliação dos fundamentos teóricos do marxismo-leninismo.
Abaixo se transcreve o último parágrafo da sua Introdução à edição da obra de Marx A Guerra Civil em França, por ocasião da comemoração do 20º aniversário da Comuna de Paris, texto que ainda hoje e cento e vinte anos depois revela uma frescura e conteúdo revolucionário espantosos, a exigirem-nos que "acertemos o passo" com a História, com a máxima urgência.

"(...)Contra esta transformação, inevitável em todos os Estados até agora existentes, do Estado e dos órgãos do Estado, de servidores da sociedade em senhores da sociedade, aplicou a Comuna dois meios infalíveis. Em primeiro lugar, ocupou todos os cargos administrativos, judiciais, docentes, por meio de eleição por sufrágio universal dos interessados, e mais, com revogação a todo o momento por estes mesmos interessados. E, em segundo lugar, ela pagou por todos os serviços, grandes e pequenos, apenas o salário que outros operários recebiam. O ordenado mais elevado que ela pagava era de 6000 francos. Assim se fechou a porta, eficazmente, à caça aos cargos e à ganância da promoção, mesmo sem os mandatos imperativos que, além do mais, no caso dos delegados para corpos representativos ainda foram acrescentados.
Esta destruição do poder de Estado até aqui existente e a sua substituição por um novo, na verdade democrático, está descrita em pormenor no terceiro capítulo da Guerra Civil. Mas era necessário entrar resumidamente aqui, mais uma vez, nalguns traços daquele porque, precisamente na Alemanha, a superstição do Estado transpôs-se da filosofia para a consciência geral da burguesia e mesmo de muitos operários. Segundo a representação filosófica, o Estado é a «realização da Ideia», ou o reino de Deus na terra traduzido para o filosófico, domínio onde se realizam ou devem realizar-se a verdade e a justiça eternas. E daí resulta, pois, uma veneração supersticiosa do Estado e de tudo o que com o Estado se relaciona, a qual aparece tanto mais facilmente quanto se está habituado, desde criança, a imaginar que os assuntos e interesses comuns a toda a sociedade não poderiam ser tratados de outra maneira do que como têm sido até aqui, ou seja, pelo Estado e pelas suas autoridades bem providas. E crê-se ter já dado um passo imensamente audaz quando alguém se liberta da crença na monarquia hereditária e jura pela república democrática. Mas, na realidade, o Estado não é outra coisa senão uma máquina para a opressão de uma classe por uma outra e, de facto, na república democrática não menos do que na monarquia; no melhor dos casos, um mal que é legado ao proletariado vitorioso na luta pela dominação de classe e cujos piores aspectos ele não poderá deixar de cortar imediatamente o mais possível, tal como no caso da Comuna, até que uma geração crescida em novas, livres condições sociais, se torne capaz de se desfazer de todo o lixo do Estado.
O filisteu social-democrata caiu recentemente, outra vez, em salutar terror à palavra: ditadura do proletariado. Ora bem, senhores, quereis saber que rosto tem esta ditadura? Olhai para a Comuna de Paris. Era a ditadura do proletariado."

Londres, no vigésimo aniversário da Comuna de Paris, 18 de Março de 1891. F. Engels


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Greve Geral: Um Direito e Um Dever de Todos

Para os trabalhadores, participar nesta Greve Geral constitui um acto político da maior importância. Fazer a greve e assim contribuir activamente para o seu êxito é, para um trabalhador e de um ponto de vista de classe, simultâneamente um direito e um dever.

Um direito, a afirmar o seu vigoroso "Não!", ao roubo dos salários e pensões de reforma, à violação dos seus direitos (ainda) constitucionais, ao rumo para o desastre a que os poderes políticos - presidente da república, governo, assembleia da república, tribunais - têm conduzido Portugal e os portugueses. Deste modo, aderir e fazer esta GG é afirmar uma posição de combate às políticas que vêm destruindo, há 35 penosos anos o projecto e as aspirações da Democracia de Abril. É lutar consequentemente pelo fim deste regime corrupto, anti-democrático e anti-nacional e exigir um caminho político novo para Portugal, lutar por um novo poder político, exercido e apoiado pelos trabalhadores e por todas as classes e camadas laboriosas e ao seu fundamental serviço. Perante a traição dos banqueiros, da grande burguesia e dos seus serventuários, é afirmar o inalienável e patriótico direito do Povo Português à sua soberania perante o capital transnacional e a sua "troika", o imprescritível direito à independência nacional do seu país.

Um dever, de classe, de unidade e solidariedade entre todos os explorados, perante a miséria crescente que flagela os trabalhadores e a destruição dos seus direitos, conquistados ao longo de gerações de luta, face ao roubo mafioso e à liquidação de empresas e serviços públicos que vão deixando sem protecção social, sem saúde, sem educação, sem habitação digna, sem transportes, sem desporto e sem cultura as gerações velhas e novas. Assim, a adesão à GG é um compromisso de classe irrecusável, irrestrito e indispensável entre todos aqueles que vendem ou já antes venderam a sua força de trabalho, um acto de unidade e solidariedade inter-gerações, passadas, presentes e até vindouras. 





Mas fazer a greve - sempre, mas especialmente nesta GG -, também é um gesto do trabalhador consciente que afirma ainda uma outra importante componente desse acto da sua luta de classe; nesta sociedade de dominação burguesa, é uma poderosa afirmação da dignidade do Trabalho, do seu papel e valor insubstituíveis, uma afirmação da sua imensa superioridade económica, social, moral, humana. Mais uma forte razão para todos e cada um dos trabalhadores portugueses tomarem a decisão certa, justa, valorosa. DIA 24, UNIDOS E ORGANIZADOS, NÃO TRABALHAMOS! 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Saída da crise": Um monumental - e perigoso - embuste!

A realidade desmascara uma mentira planetária

Os mais recentes desenvolvimentos da crise estrutural do capitalismo são demasiado sintomáticos para serem ignorados, sobretudo quando são agora objecto de descaradas profissões de fé no sacrossanto poder dos mercados para se auto-regenerarem e saírem do pântano em que se atolaram, ou ainda - o que é bem pior - de  leituras ingénuas e bem intencionadas, provocadas pela crendice superficial nas "análises" das anteriores, perante a ausência de posições sérias e corajosas que permitam o seu vigoroso desmascaramento.
As últimas cimeiras dos G-20 e da "União" Europeia, com os seus fragorosos fracassos, deixam saudosos das suas edições de há dois ou três anos todos os propagandistas do sistema! O fiasco, desta vez, tornou-se inocultável. Isto significa a completa incapacidade dos poderes políticos burgueses de lidarem com a actual situação económico-financeira na generalidade do mundo capitalista. Os governos de turno ao serviço do grande capital transnacional vivem um arrastado período de total desorientação e completa falta de soluções para "gerirem" a crise aberta em 2007/8 e, consequentemente, conseguirem continuar a mascarar a sua profundidade e gravidade sistémica. As economias nacionais afundam na recessão, os índices de produção de riqueza recuam aos níveis de há três décadas atrás, os mercados internos definham fustigados pelas perdas brutais nos salários e rendimentos do trabalho, as bolsas prosseguem na sua marcha de quedas regulares "derretendo" verbas colossais, a concessão de crédito praticamente estancou, com os banqueiros a jugular a economia real e sugando às finanças públicas dos Estados verbas monstruosas que são "evaporadas" nos buracos negros criados pelo regabofe da especulação financeira das últimas duas décadas, os recursos dos países são pirateados pela força militar dos vários pólos imperialistas e os povos mergulham no período histórico mais negro desde a última Guerra Mundial, revelando crescentes semelhanças com a fase pós-Grande Depressão na década de trinta do século passado.
Este quadro "global" desmente impiedosamente todas as patranhas constantemente difundidas pelos aparelhos ideológicos do sistema, que pretendem manter os trabalhadores e os povos paralisados pela ilusão que a "crise" é temporária e que, após um período de "sacrifícios dolorosos" - que muitos já vão dizendo ser para vários anos... - , tudo há-de voltar á normalidade, com emprego, os salários actualizados, com o consumo confiante das famílias, o desenvolvimento económico e a prosperidade, garantidos os direitos e apoios sociais hoje retirados, etc, etc. Trata-se, pura e simplesmente, de um colossal embuste! Para esta crise estrutural do capitalismo, tudo o que podemos observar nos indica que não existe uma saída controlada, dirigida, pacífica e nos limites políticos dos regimes de democracia burguesa, assim como o capital nunca devolverá aquilo que agora rouba ao trabalho. O capitalismo, tal como o conhecemos durante a segunda metade do século XX e nos primeiros anos do actual, não mais retornará e já esgotou a margem de manobra que possuiu nesse período anterior. Tornou-se a si mesmo um sistema irreformável e incapaz de se regenerar numa perspectiva desenvolvimentista, mais ou menos social-democrata (como os reformistas almejam, cegamente), mais ou menos liberal (como querem fazer-nos acreditar os que escrevem os seus panegíricos). O carácter irracional e totalmente incontrolável da marcha criminosa do capitalismo, um e outra inerentes à sua lógica interna, com o aprofundamento da concentração e centralização de capitais e da sua galopante fusão com os Estados - com a elevação do Capitalismo Monopolista (e Terrorista) de Estado ao seu máximo cume histórico -, deixa os poderes políticos burgueses de mãos atadas e completamente incapazes de qualquer decisão vagamente "independente" e contrária aos objectivos dos centros de poder transnacionais do capital financeirizado - JP Morgan, Bank of America, HSBC, Royal Bank of Scotland, BPN Paribas, Santander, Citigroup, Barclays, UniCredit Group, Mitsubishi UFJ Financial, para só citar alguns dos maiores -  que, estes sim, são verdadeiramente quem comanda os seus governos de turno e os seus parlamentos/câmaras de eco às ordens.

Uma "solução final" está de novo em marcha

O recente fenómeno verificado nos países periféricos da "U." E., ao qual já chamaram descaradamente golpes de Estado, com a substituição imposta pela troika de governos eleitos e de base partidária, na Grécia e na Itália, por "novos" governos tecnocráticos dirigidos por banqueiros - no caso italiano, visivelmente homens de mão de um outro grande banco, o Goldman Sachs -, espelha bem a alteração política qualitativa em marcha. Sob a batuta da Alemanha e com a conivência subserviente (e suicida!) da França, a UE está transformada numa almofada e escudo germânicos - e, a prazo, em "carne para canhão" - usada por aquela para se opor à agressividade do eixo EUA/Inglaterra, no confronto inter-imperialista. Como consequência, fica evidente a perda acelerada da sustentação "democrática" dos poderes políticos da grande burguesia, configurando-se essas soluções nacionais como autênticas antecâmaras de regimes neofascistas, já a emergirem desta ingovernabilidade galopante que caracteriza hoje o sistema capitalista, com os seus partidos de classe completamente desacreditados.
De facto, perante a autêntica hecatombe social provocada em inúmeros países - que dentro de alguns meses nos parecerá uma brincadeira, face à dimensão da miséria e da devastação desumana dos povos e países inteiros trucidados - que outra solução terá o grande capital que não seja recorrer às suas soluções terroristas e genocidas já aplicadas no século passado? Flagelados pela repressão, pela fome, pela destruição de apoios sociais, pela miséria crescente, massas populares erguem-se hoje para a luta por todo o mundo, mobilizam-se e saem às ruas - na Grécia, em Portugal, Itália, Reino Unido, França, Alemanha, em vários dos EUA, na Argentina, Chile, Colômbia, México, Na Tunísia, no Egipto, Yémen, Barein, Israel, na Índia, na Coreia do Sul, Japão, Austrália, Nova Zelândia, etc -, arrostando com cargas policiais, prisões e assassinatos, enquanto as potências imperialistas invadem, destroiem e chacinam, com as suas embaixadas e serviços secretos ingerindo-se com sobranceria nas políticas internas dessas nações, ao mesmo tempo que intensificam e reforçam a ocupação imperialista em mais de seis dezenas de países submetidos,  com a instalação e alargamento aí de centenas de bases militares, preparando o terreno para conflitos estratégicos de dimensão planetária.
Sem margem para interrogações académicas, é o fascismo imperial que se planeia, prepara e já se organiza abertamente.
Analisando a crise actual em desenvolvimento, uma crise do próprio modo de produção capitalista, hoje pela conjugação explosiva de uma crise de sobre-produção com uma crise de procura, originada pela pauperização das massas e pela bancarrota dos Estados, assistimos assim a mudanças de carácter qualitativo do capitalismo que, com tonalidades diferenciadas, apontam o perigo real para os povos do surgimento de um novo período negro, com repressão das liberdades, a agudização dos conflitos inter-imperialistas e a instalação da barbárie social e civilizacional, com a emergência no horizonte e a curto/médio prazo de regimes políticos neofascistas "tout court", com a multiplicação das guerras de agressão e domínio sobre os povos.

Como sempre, "que fazer?"

A grande mentira da "saída da crise" é, simultâneamente, um monumental e perigoso embuste. Não existirá saída desta crise nos marcos do capitalismo e, em cada dia que passa, agrava-se a ofensiva de espoliação dos trabalhadores e dos países e vai crescendo a ameaça da instauração de novos regimes afirmadamente anti-democráticos, caminhando para a reconstituição de poderes claramente fascistas. E daqui decorrem as tarefas mais imediatas e mais urgentes para as forças revolucionárias no mundo inteiro, sem exclusão daquelas que intervêm em países ainda vivendo etapas de aparente "isolamento" da crise estrutural e que vão ansiando - erradamente - poderem passar incólumes pelo furacão que se está a formar, sem serem atingidos pelas suas forças destruidoras.
Os trabalhadores, os cidadãos, os povos, todos e cada um de nós, devemos desmentir e rejeitar frontalmente, com firmeza e veemência, essa mentira "global" da falsa saída da crise que diariamente nos pretendem impingir. Devemos expôr e revelar, nú e crú, o momento actual do sistema capitalista e as nefandas perspectivas que está engendrando, tal como os enormes perigos que encerra. Nenhuma hesitação, nenhuma contemporização, nenhumas posições e atitudes que possam contribuir para este processo mistificatório de "adormecimento" das consciências. Não podemos dar tréguas ao nosso inimigo, quando ele prepara o salto para nos liquidar.
O tempo, urge. Não podemos cair na armadilha de sermos os "grilos falantes" da nossa época, limitando-nos à análise e denúncia de cada etapa e cada passo no caminho do abismo, pois o plano inclinado em que resvalamos, a não ser invertido desde agora, a breve prazo já não nos permitirá espaço de manobra e então será demasiado tarde. Tal como também não é a atitude certa gritarmos "vem aí o lobo!", tantas vezes que deixaremos de ser escutados. Se não há solução para esta crise nos estritos limites do capitalismo que nos impõem, então temos que romper com essas amarras, estilhaçando as vendas mediáticas dessa mentira e afirmarmos as soluções novas e verdadeiras que só a construção de sociedades socialistas nos garantem. Ruptura é isso mesmo, precisamente! Um corte total, ideológico e político, com os viciados e esgotados modelos das "democracias" do capital e o apontar de um rumo novo, assente na democracia do povo e para o povo. Como dizia Lénine, quando no seu tempo fustigava os reformistas e os conciliadores de classes, devemos recusar realizar a "revolta de joelhos" e sim preparar e concretizar a revolução de pé, tendo por objectivo claro e mobilizador o socialismo.
As lutas dos trabalhadores, dos democratas e dos povos já não são somente o caminho para resistir à ofensiva ditatorial e terrorista do capital; tais lutas tornam-se hoje, por força do actual estádio do imperialismo, a via fundamental para travar esta marcha para o abismo e conquistar uma nova organização operária e popular dos Estados, ao serviço dos trabalhadores e de outras camadas sociais laboriosas suas aliadas. Nos nossos dias, concretamente em Portugal, as clivagens sociais e de classe do capitalismo extremaram-se a um ponto nunca anteriormente atingido. Objectivamente, de um lado estão os banqueiros e os monopólios, os grandes proprietários fundiários, com as suas cortes de lacaios e serventuários à ilharga; do outro lado - o nosso lado - estão a classe operária, todos os assalariados e explorados, a generalidade da intelectualidade, a maioria dos profissionais liberais, os magistrados, os estudantes, os reformados, os militares.
No próximo dia 24/11, o Movimento Operário e Sindical vai realizar uma nova Greve Geral que constitui nestes dias a tarefa central de todos os militantes revolucionários, chamados a organizar, mobilizar e garantir o seu pleno êxito. Trata-se de uma grande jornada política de massas, de contestação ao governo e à ingerência da troika imperialista, um passo muito importante na marcha do combate de classes que travamos. Mas a sua realização, sendo como esperamos  - e tudo nos indica que assim será - a maior G.G. realizada em muitos anos, tem de ter urgente sequência em iniciativas e acções unificadoras de todo o Movimento Popular, com a rápida criação de plataformas ou frentes de unidade revolucionárias, agregando todas as estruturas representativas das classes e camadas sociais objectivamente interessadas no derrube do governo dos banqueiros e na sua substituição por um novo poder dos trabalhadores, partilhado em aliança com as restantes estruturas populares organizadas.
É necessário e urgente multiplicar as iniciativas de aproximação e aliança entre todas as classes e camadas anti-monopolistas, em torno de um programa político transformador comum. A marcha do tempo e dos acontecimentos, um estado de verdadeira emergência nacional, instam-nos a responder à sua chamada, sem hesitações e sem delongas paralisantes. Não percamos nem um minuto, pois o que se decide é o nosso futuro comum durante as próximas décadas.
Agora, claramente, ou somos nós, a imensa maioria - os trabalhadores, os democratas, o povo - ou serão "eles", uma ínfima e criminal minoria - os banqueiros, a grande burguesia, os imperialistas e os seus cães de fila, os neofascistas. "Acordai!"

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Álvaro Cunhal: O testemunho revolucionário de um jovem comunista aos 26 anos

Um Problema de Consciência 

O exterior parece terrivelmente inimigo. como se nas ruas só passassem funerais. Como se nos roubassem a família, os amigos e quedássemos sós e desamparados.A tragédia intensa do presente emprenha a visão do futuro de sombrias expectativas. Afigura-se a muitos que no futuro haverá sempre rostos empalidecidos e cheiro a pólvora e a sangue quente. Ontem parecia que o dia de hoje havia de ser risonho e acolhedor. E agora, agora, que grande serenidade para poder crer no dia de amanhã!
Quando a vida é incerta e baila ante os homens a perspectiva da morte, inunda-os uma ansiedade traduzível assim: «irei tão cedo deixar de ser?»
(...)
A admissão da estabilidade de um mundo a que se não podem mostrar os corações, força a lançar rápido e iluminado olhar ao tempo em que se esperou, em que os ora desalentados ainda tinham fé no que hoje não é presente e então parecia vir a ser futuro. Uma derrota profunda e dorida leva muitos a pensar que haverá sempre e só derrotas. Ver morrer os outros vencidos; talvez também morrer vencido. No vasto mundo muitas vezes se apagam vidas, ao procurarem derrubar velhos e endurecidos troncos. E há sempre quem represente o papel de irmão desalentado: «Para quê viver? Coisas que sempre foram e hão-de ser... O homem vive encadeado a leis irresistíveis. Inúteis os sacrifícios dos que procuram modificar os seus ditames». Como se os homens não pudessem construir a sua própria história. Como se as leis da evolução das sociedades não reservassem lugar à vontade humana.
(...)
Por isso, aqueles que acreditaram e não crêem fogem, afastam-se, renunciam. Por isso também há homens que projectam a sua existência para além da morte. Uma alma que voe para rumo extra-terreno. Ou um ser que se desintegra para subsistir integrado em novos seres. Qualquer coisa que justifique o caminho percorrido entre o nascimento e a morte. Sonha-se para fora da terra com uma vida que nesta se não tem. Ou sonha-se com o que fica...
A morte é elemento essencial da vida. Mas isso não basta para que se aceite sem mágoa. É que a pergunta: «deixarei de ser hoje? amanhã?» — intensifica e aproxima o grande problema de consciência: «O que andei por cá fazendo? Que fica sobre a terra da minha passagem sobre a terra?»
Não satisfaz uma vida além-túmulo, mesmo que a imaginação empreste à alma asas imateriais. É esta terra donde brotou o pão que manteve o corpo e a água que matou a sede, esta terra donde tudo (mesmo pouco) nos veio e para onde iremos — e é esta humanidade a que pertencemos, este grande colectivo a que nos liga o sangue, o amor, o ódio e a interdependência — é esta terra e esta humanidade que nos exigem uma explicação.
(...)
Quando a perspectiva da morte ou dum futuro trágico baila ante todos, até os jovens, como os velhos, olham o passado. E, depois, quantas vezes o desinteresse e a renúncia não vêm juntar a uma derrota ou a um momentâneo recuo colectivo, uma irremissível derrota individual.
Porém, quando assim se não voga ao sabor da corrente, mas antes se escolhe caminho e se marcha, novamente o futuro sorri, à nossa vida ou à nossa morte. Sorri porque nele se adivinham marcadas as acções que vão ser praticadas. Porque a nossa vitalidade é afinal a direcção do que vem. Porque se ganha confiança na perpetuidade dos nossos actos. Subsiste a alma? O apodrecimento e desintegração é a última étape? Que interessa isso, se ganhámos uma nova eternidade!
Enquanto a humanidade for humanidade, as acções que hoje praticamos estarão sempre presentes, resistindo ao tempo e ao esquecimento a que nos votarão os nossos netos. Já os nossos corpos terão perdido a forma humana, já as suas partículas viverão separadas e dispersas e ainda nas sociedades futuras os efeitos dos efeitos das nossas acções evocarão a nossa passada existência. Com esta concepção, sentimo-nos (hoje) obreiros anónimos do futuro. Ao problema da morte, do não ser, responde satisfatoriamente a certeza consoladora deste prolongamento da nossa existência. Se se pudesse falar em eternidade, esta seria a única eternidade da nossa vida, como seres pensantes e voluntariosos.
Por isso, quanto mais sorridente é a visão do mundo que fica, quanto mais funda é a consciência de que tudo se fez para deixar aos filhos valiosa herança, menos dura e menos brutal aparece a visão da morte.
Não se trata de olhar para trás e perguntar com angústia: «que fiz? que fiz?» Trata-se de olhar em frente e perguntar com confiança e serenidade: «que poderei ainda fazer?» Não é só um exame de consciência que urge fazer: é também um apelo à consciência!
(...)
Num mundo em que não há risos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como situação particular: nem quando dependente de factos estranhos à própria vontade; nem como ideia abstracta. A felicidade só pode existir como um atributo de toda uma vida. Só a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz. Há então que não subordinar as acções ao alcance dum prazer. Mas antes amoldar a ideia de felicidade à vida que se vive.

(...)
Se a felicidade é dada pela satisfação da linha de conduta, pela satisfação de que se procede bem, nada, nada, nem os gritos da própria carne esfacelada, nem lágrimas de emoção, nem a revolta instante e desesperada, pode destruí-la. Porque, acima dos próprio gritos, das próprias lágrimas, do próprio desespero, fica sempre a certeza duma vida voluntariosa e independente ou – se se preferir a expressão – recta, leal, digna.
Então suporta-se a dor e ama-se a vida. Podem as leis da natureza esfrangalhar o corpo. Podem os órgãos começar cansando. E as pernas vergando de fadiga. Amortecendo-se a percepção. O corpo começar em vida o seu desagregamento. Poderá bailar ante os olhos a perspectiva da morte e o fim surgir num amanhã irremissível.
E haverá sempre vontade de continuar, procedendo sempre e sempre duma forma escolhida, marchando sempre para um destino humano e uma missão terrena voluntariosamente traçada. Haverá sempre anseio de continuidade e aperfeiçoamento.
Atravessar-se-ão tragédias com lágrimas nos olhos, um sorriso nos lábios e uma fé nos peitos.

Álvaro Cunhal, 1939, in "O Diabo"