SÓ NÃO SE ENGANA QUEM CEDE AO MEDO DE CAMINHAR NO DESCONHECIDO - SÓ SE PERDE AQUELE QUE NÃO ESTÁ SEGURO DO RUMO QUE ESCOLHEU.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Poema de Marx



Em 1841, numa revista literaria berlinense, apareceu o seguinte poema:
 
Não posso viver em tranquilidade,

Se toda a alma está em fogo,

Não posso viver sem combate,

Sem tempestade, em entressonhos

….......................................

Então, enveredemos pela senda

áspera e longínqua,

Para não vivermos uma vida aborrecida

e vazia.

Para não levarmos a nossa vida deplorável

sob o jugo da preguiça odiosa.

Pois o homem é poderoso

na sua audácia e nas suas aspirações.

(Poema de Karl Marx, aos 23 anos)

domingo, 29 de março de 2015

Em 29 de Março de 1917 nasce Alfredo Diniz (Alex)


Figura fascinante na galeria gloriosa dos heróis quadros do PCP, Alfredo Dinis, que na clandestinidade usou o pseudónimo de Alex, nasceu em Lisboa em 29 de Março de 1917 e tinha 28 anos quando a PIDE o assassinou.
Pela sua entrega militante, pela sua inteira fidelidade à causa da (sua) classe operária, pela sua lucidez e brilhantes capacidades de organizador, pela sua coragem e combatividade de autêntico revolucionário, Alex continuará uma referência luminosa para todos os comunistas.


Broxura - Alfredo Dinis - Alex screenshot

(Capa da Brochura das Edições Avante!, 2010)  


 «Escondidos atrás da furgoneta os homens esperavam silenciosamente, como numa caçada. Em breve o viram aparecer. Aproveitava a descida para dar velocidade à bicicleta, naquele seu jeito destemido e moço de saborear a rapidez da corrida, o vento nos cabelos, a alegria de viver.
Um dos homens saltou detrás da furgoneta e com um encontrão fê-lo cair na beira da estrada. Quando se levantou, dum salto, estava cercado. Um tiro deitou-o por terra.
De longe, um camponês presenciara a emboscada em que José Gonçalves acompanhado de Fernando Gouveia e mais um bando de agentes da P.I.D.E., assassinaram cobardemente o comunista Alfredo Dinis.
Por que é que nesse dia 4 de Julho de 1945, na solitária estrada de Bucelas, a P.I.D.E matou esse homem?» (1)
Ao fazer esta interrogação, descrevendo no seu livro «A Resistência em Portugal» esse crime do fascismo, o escultor comunista José Dias Coelho, então na clandestinidade e também ele mais tarde assassinado pela PIDE, apresenta traços da biografia política de Alfredo Dinis.
Alfredo Dinis, que na clandestinidade usou o pseudónimo de Alex, nasceu em Lisboa em 29 de Março de 1917 e tinha 28 anos quando a PIDE o assassinou. Operário metalúrgico da Parry & Son, trabalhava de dia e à noite estudava numa escola industrial.
Aos 19 anos entrou para as Juventudes Comunistas, tendo igualmente pertencido ao Socorro Vermelho Internacional. Preso em Agosto de 1938 pela polícia fascista foi condenado a 18 meses de prisão. Quando saiu da prisão retomou a sua actividade revolucionária. Na qualidade de secretário da célula do PCP na Parry & Son passou a fazer parte do Comité Local de Almada. Em 1943 entrou para o Comité Local de Almada. Também em 1943 entrou para o Comité Regional de Lisboa e pouco depois foi eleito para o Comité Central no III Congresso (I ilegal) do Partido, realizado nesse mesmo ano, passando a fazer parte do então existente Bureau Político.
Alfredo Dinis desenvolveu uma intensa actividade, participou na organização das lutas de 1942 na região de Lisboa e mais tarde na organização e direcção das grandes vagas de greves de 1943 e 1944 na região de Lisboa, Margem Sul e Ribatejo, assim como nas grandiosas manifestações da vitória sobre o nazi-fascismo de Maio de 1945.
Álvaro Cunhal, na sua conhecida obra «Rumo à Vitória», ao sublinhar o papel da organização, particularmente da organização partidária dentro das empresas e da organização das lutas reivindicativas económicas e políticas, chama a atenção para as características que deve ter um quadro comunista a trabalhar no seio dos trabalhadores e para a importância da sua ligação à classe operária e apresenta o exemplo de Alfredo Dinis:
- «As greves não se decretam, mas decidem-se e declaram-se» – escreve Álvaro Cunhal. «Para o fazer com êxito é necessário conhecer de perto a disposição das massas, conhecer a evolução da luta e escolher o momento justo. A percepção revolucionária e a audácia dos militantes representam um importante papel. Vinte anos atrás, o êxito de algumas importantes greves dirigidas pelo Partido deveu-se em grande parte à acção de um militante destacado: Alfredo Dinis, operário da Parry & Son, assassinado pela PIDE em 1945. Alfredo Dinis conhecia profundamente os problemas da classe operária, conhecia a classe, acompanhava dia a dia as lutas dos sectores que lhes estavam confiados, era um óptimo organizador das lutas reivindicativas e mais de uma vez foi ele a dizer audaciosamente à direcção do Partido: «O momento para a greve é agora!». E acertava. As organizações operárias do Partido devem trabalhar como trabalhava Alfredo Dinis – sublinha Álvaro Cunhal, acrescentando: «Tal como ele, ao organizarem as pequenas lutas reivindicativas, devem olhar sempre audaciosamente em frente, procurando incansavelmente alargar as lutas, unificá-las, fundi-las, conduzi-las a etapas superiores encontrando em cada fase as formas eficientes de organização.» (2)
Passaram mais de 40 anos sobre estas palavras de Álvaro Cunhal. Presentemente desenvolvemos a nossa luta em condições muito diferentes das de então, mas elas continuam a ser tão válidas hoje como o foram ontem. Como válida continua a ser ainda hoje a herança revolucionária que nos legou Alex com o seu exemplo de militante comunista estreitamente ligado à vida e à luta da classe operária e cujo 60.º aniversário do seu assassinato O Militante assinala neste número.

(1) A Resistência em Portugal, José Dias Coelho, Inova, págs. 59, 60.
(2) Rumo à Vitória, Álvaro Cunhal, Edições «Avante!», 2.ª edição, págs. 248, 249.

 
 
Maria da Piedade Morgadinho, in «O Militante» - N.º 277Julho/ Agosto 2005
 
 

 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Um Herói Revolucionário


Um homem feliz na luta
Nascido a 25 de Março de 1915, em Vila Franca de Xira, António Dias Lourenço foi um destacado militante e dirigente comunista durante quase 80 anos, nos quais deu provas de uma inquebrantável dedicação aos trabalhadores, ao povo e à luta do seu Partido. A opção, que ainda jovem tomou, de se tornar funcionário do Partido Comunista Português pagou-a com brutais torturas e 17 longos anos de prisão. Tal não o impediu, na última entrevista concedida ao Avante!, de se confessar um homem feliz, sobretudo por ver tanta gente nova a prosseguir o combate a que dedicou a sua vida.

Operário, jornalista, dirigente político, prisioneiro, escritor, deputado. António Dias Lourenço foi tudo isto e muito mais ao longo da sua intensa vida (e longa de 95 anos), que desde muito cedo se confunde com a luta dos trabalhadores e do povo contra o fascismo e a exploração, pela liberdade, a democracia e o socialismo. Uma luta a que dedicaria o melhor das suas capacidades e a sua imensa energia.
Praticamente até ao último dia da sua vida (faleceu em Agosto de 2010) foi presença quase diária na sede nacional do Partido e na redacção do Avante!, onde conservava uma mesa de trabalho com um aparelho que lhe permitia ler, apesar das graves limitações de visão que o acompanharam nos últimos anos. Eram raras as iniciativas do Partido ou as acções de luta unitárias, em Lisboa, nas quais não comparecia, pese embora as visíveis dificuldades em andar que se agravavam com o passar do tempo. Esta energia, esta força imensa com que teimava em contrariar as adversidades da vida e as vicissitudes da idade eram precisamente das características mais salientes da fascinante personalidade de António Dias Lourenço.
Como muitos vilafranquenses da sua geração – os «homens que nunca foram meninos» de que falava Soeiro Pereira Gomes –, Dias Lourenço começou a trabalhar com apenas 13 anos, pouco mais era do que uma criança: durante quase uma década e meia foi torneiro-frezador nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico e na Soda Póvoa. O ambiente das fábricas e das colectividades, onde desenvolveu uma intensa actividade cultural, levam-no à luta dos trabalhadores e ao Partido Comunista Português, do qual se torna militante em 1931. Três anos depois, participa activamente na jornada de 18 de Janeiro de 1934 contra a fascização dos sindicatos.
Na sua primeira década de militância comunista, e ao mesmo tempo que colaborava em jornais como O Diabo, o Sol Nascente, o Mensageiro do Ribatejo e o República, assumiu um papel destacado no desenvolvimento da organização partidária. Integrou o Comité Local de Vila Franca de Xira e o Comité Regional do Ribatejo, do qual chegou a ser responsável. O nome de António Dias Lourenço fica também ligado aos célebres «passeios no Tejo» que, no início da década de 40, envolveram destacadas figuras das artes e das letras e impulsionaram o movimento neo-realista.
Revolucionário profissional
Envolvendo-se intensamente no processo de reorganização do Partido, iniciado no final de 1940 por destacados militantes comunistas e no qual Álvaro Cunhal desempenharia um papel de primordial importância, António Dias Lourenço passou à clandestinidade como funcionário do PCP em 1942. A ligação às tipografias clandestinas e ao aparelho central de distribuição da imprensa foi uma das suas primeiras responsabilidades. Retomada a publicação regular do Avante! em Agosto de 1941, havia que consolidar e melhorar o aparelho técnico do Partido e todo o trabalho conspirativo que isso envolvia.
Numa entrevista ao Avante!, concedida em 2001, Dias Lourenço adiantou os traços gerais desta tarefa tão exigente quanto vital: «Tínhamos de criar um aparelho de difusão do Avante!, cada vez mais seguro. Enquanto a orgânica do Partido assentava em organismos colectivos (clandestinos, com elementos que às vezes nem sabiam o nome uns dos outros), a orgânica para a distribuição da imprensa clandestina tinha de ser rigorosamente individual. Tu levas o embrulho para a organização tal, entregas a responsáveis directos que distribuíam a outras pessoas para levar para outros sítios.»
Nestes primeiros anos de vida clandestina, assumiu tarefas no Ribatejo, em Lisboa, na Margem Sul, no Alentejo, no Algarve e em zonas da Beira Interior, onde se travavam lutas em diversos sectores profissionais e das populações contra o racionamento e a carência de géneros. Em tempos em que a bicicleta era o meio de transporte «oficial» dos funcionários do Partido, esta era uma actividade intensa e desgastante: «A gente conhecia Portugal com a geografia das botas», confessou ao Avante! na mesma entrevista.
Depois de, em 1943, no III Congresso do Partido, ter sido eleito para o Comité Central, onde permaneceu durante 53 anos, António Dias Lourenço integra o Comité Dirigente das greves de 8 e 9 de Maio, que se reunia na casa clandestina em que vivia, em Barcarena. Estas lutas, como as travadas nos anos anteriores e as manifestações da vitória, em Maio de 1945, potenciaram o alargamento da unidade antifascista pela qual o PCP há muito se batia: surge o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), que agrega todos os partidos e tendências da oposição. Dias Lourenço foi representante do PCP no Conselho Nacional deste movimento.
Na sequência do assassinato pela PVDE/PIDE de Alfredo Dinis (Alex), em 1945, António Dias Lourenço – João, na clandestinidade – passou a assumir a responsabilidade pela região de Lisboa, que mantém até 1948. No ano anterior, teve uma participação activa na grandes greves dos operários da construção naval. A tarefa seguinte foi o Alentejo, onde acompanhou e dirigiu as lutas dos operários agrícolas contra o desemprego e a miséria e pela construção da sua unidade nas praças de jorna. Era aqui que intevinha quando foi preso pela primeira vez, em 1949, ano em que dirigiu o jornal O Camponês.
Voltar à luta, sempre
Retomada a liberdade em 1954, após uma audaciosa fuga da fortaleza de Peniche (ver caixa), António Dias Lourenço retomou imediatamente a sua actividade revolucionária clandestina. Dois anos depois, num momento particularmente difícil para o Partido privado - do seu mais destacado dirigente Álvaro Cunhal (preso desde 1949), e fustigado por sucessivos golpes policiais - foi chamado à Comissão Política. No ano seguinte, na sequência do V Congresso do Partido, passou a integrar também o Secretariado, onde ficou até ser novamente preso, em 1962.
Neste período, em que assumiu entre 1957 e a sua segunda prisão a responsabilidade pelo Avante!, a sua actividade revolucionária está ligada ao ascenso da luta de massas que se faz sentir nos anos 1957/58 e, novamente (após um período de refluxo provocado pela repressão e pelo desvio de direita no Partido), em 1961/62. A sua participação na organização, a partir do exterior, da Fuga de Peniche de Janeiro de 1960 (que devolveu à luta Álvaro Cunhal e outros nove destacados quadros do Partido) e no apoio à saída clandestina do País de Agostinho Neto, para que pudesse dirigir a luta anticolonialista do povo de Angola, foram algumas das importantes tarefas que envolveram António Dias Lourenço.
A sua segunda prisão, realizada pouco depois do grande 1.º de Maio de 1962 e da conquista da jornada de oito horas nos campos, durou até ao 25 de Abril de 1974, quando os portões das masmorras se abriram do lado de fora.
 Revolução e contra-revolução
A energia e tenacidade que caracterizaram a acção revolucionária de António Dias Lourenço durante o longo e duro combate contra o fascismo marcaram igualmente a sua vida militante durante e após a Revolução de Abril.
Libertado do Hospital-Prisão de Caxias, na manhã de 26 de Abril de 1974, passou de imediato a integrar o trabalho de direcção do Partido, como membro do Comité Central. Quatro dias depois, estava no aeroporto de Lisboa a receber o Secretário-geral do Partido, Álvaro Cunhal, ao mesmo tempo que participava activamente na Comissão Unitária que preparou o grandioso 1.º de Maio que encheu as ruas do País e confirmou a real influência do PCP e do movimento sindical e popular.
O primeiro Avante! legal, que saiu a 17 de Maio de 1974 e atingiu uma tiragem de meio milhão de exemplares, teve a sua direcção. Durante os 17 anos em que foi director do órgão central do Partido, Dias Lourenço foi um destacado obreiro do Avante! legal (para o qual escreveu centenas de artigos e editoriais), instrumento essencial para a luta dos comunistas pelo aprofundamento da Revolução e em defesa das suas mais avançadas conquistas. Nesta qualidade, manteve numerosos contactos com outros jornais comunistas, aos quais concedeu entrevistas e depoimentos sobre a Revolução portuguesa, a sua natureza e objectivos. Logo em Outubro de 1974, representou o Avante! na Conferência da Imprensa Comunista, promovida em Praga pela Revista Internacional.
A sua intervenção no 11 de Março de 1975, junto ao Ralis sob fogo, é bem demonstrativa do carácter e da coragem de António Dias Lourenço.
Após o VIII Congresso do PCP, realizado em 1976, passou a integrar a Comissão Política do Comité Central, na qual permaneceu até 1988. Em sucessivos actos eleitorais realizados entre 1976 e 1985 (Assembleia Constituinte e Assembleia da República) seria eleito deputado pelos círculos de Coimbra e Santarém, marcando, com muitos outros camaradas, uma intervenção institucional profundamente ligada aos problemas e às lutas dos trabalhadores e das populações, que passaria a caracterizar a acção dos deputados do PCP. Até hoje.
Até ao fim dos seus dias, manteve uma participação regular na actividade do Partido e uma presença próxima junto dos militantes comunistas, particularmente dos mais jovens. Em 2005, por ocasião dos seus 90 anos, deu uma entrevista ao Avante! na qual se considerava feliz, sobretudo por ver «toda essa gente nova que vem ao Partido, para pegar na bandeira e andar para a frente».
 As prisões, as torturas, a morte do filho
A prisão e a tortura eram uma possibilidade real na vida dos funcionários clandestinos do Partido, todos o sabiam. O confronto com a polícia, desigual, era uma «prova de fogo» dos revolucionários. António Dias Lourenço, como muitos outros, passou-a com distinção: espancamentos prolongados, tortura do sono, pressão psicológica com os filhos, tudo lhe fizeram. Mas nada o fez ceder! Não falou. Nunca traiu. Em tribunal, acusou o fascismo e defendeu o projecto do Partido, a sua luta e os seus objectivos.
A morte do seu filho António, ainda criança, foi a maior das mágoas da sua vida. O facto de estar preso e de não lhe permitirem comparecer no funeral foi uma forma particularmente vil de procurar quebrar a sua firmeza. Uma vez mais, falharam. A prisão da sua filha Ivone foi igualmente causa de sofrimento. Mas também de orgulho, pela mulher e pela comunista que se tornara.
A forma como encarou as violências, as arbitrariedades e a dor, física e psicológica, resumiu-a na entrevista que deu ao Avante! em 2005: «Eu já sabia que eles gostavam de ver a cara dos presos sob a tortura. E resolvi construir para a minha cara um ligeiro sorriso constante. (…) A mim não me hão-de ver a cara torturada.»
Fuga audaciosa
Ao longo dos 17 anos em que esteve preso (em dois períodos), António Dias Lourenço pensou sempre em evadir-se, para continuar em liberdade a urgente luta contra o fascismo. Em Dezembro de 1954, quando se encontrava encarcerado há já cinco anos, protagonizou uma das mais audaciosas fugas da história da resistência antifascista portuguesa, ao lançar-se para o mar de Peniche após escapar do «Segredo».
Para esta fuga, Dias Lourenço mobilizou toda a sua coragem e criatividade: conseguiu introduzir no «Segredo» uma faca de sapateiro, contornando a constante vigilância; rasgou, pouco a pouco, o postigo na porta da cela; cortou cobertores às tiras para fazer uma corda; e atirou-se ao mar. Os imprevistos que surgiram, que podiam ter sido fatais, foram superados: a corda era curta demais, pelo que teve de se lançar ao mar de uma altura muito maior do que a que tinha imaginado; a maré, ao contrário do que julgava, estava a vazar, arrastando-o no sentido oposto à praia. Quando chegou a terra, hora e meia depois, estava exausto e próximo da hipotermia. Os trabalhadores de uma carrinha de peixe a quem pediu auxílio, arriscando dizer quem era, garantiram o êxito da fuga.
Na segunda prisão, de 12 anos, António Dias Lourenço arquitectou diversos planos de fuga. Aliás, disse uma vez, com humor, o 25 de Abril «lixou-me a fuga»: para escapar do Hospital-Prisão de Caxias pretendia disfarçar-se de mulher e sair pela porta da frente no final do horário das visitas. Já tinha em seu poder, aliás, duas perucas (uma loira e uma morena), que o actor Rogério Paulo conseguira fazer entrar na cadeia.
Era assim António Dias Lourenço…
 Publicado in "Avante!", edição nº 2156, de 26/3/2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

Um monstro criado pelos «amigos e aliados» dos EUA - a mando destes.


 
O pântano

O General Wesley Clark tornou-se famoso como comandante supremo da NATO na sua guerra contra a Jugoslávia. Reavivou a fama em 2007, quando em entrevista ao programa Democracy Now da Rádio Pública Nacional dos EUA (2.3.07) revelou que, poucos dias após os atentados de 11 de Setembro, já estava tomada a decisão de que «iríamos limpar sete países em cinco anos, começando pelo Iraque, depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e para terminar o Irão». Agora, Clark informa-nos sobre as origens do famigerado bando de assassinos que dá pela sigla ISIS. Disse Clark à CNN (18.2.15): «o ISIS foi criado através do financiamento dos nossos amigos e aliados, porque como as pessoas da região lhe dirão, 'se queremos alguém que combata até à morte contra o Hezbolá, não se afixam avisos de recrutamento a dizer para se juntarem a nós, a fim de construir um mundo melhor'. Procuram-se os fanáticos e arregimentam-se os fundamentalistas religiosos – é assim que se combate o Hezbolá. É uma espécie de Frankenstein». Quando ouvirmos falar dos crimes e atrocidades do ISIS, lembremo-nos que nas palavras do general norte-americano estamos perante um monstro criado pelos «amigos e aliados» dos EUA.
Clark não esclarece quem são os «amigos e aliados» em questão. O vice-presidente dos EUA Joe Biden, ao discursar perante estudantes da Universidade de Harvard (em 4.10.14) já falara publicamente nos governos turco, saudita e dos Emirados Árabes Unidos. Mas convém lembrar o maior «amigo e aliado» dos EUA na região, Israel, cujo ódio ao Hezbolá é fácil de imaginar. O Estado sionista (que se considerava invencível) já foi por duas vezes derrotado pela organização da resistência libanesa: em 2000, quando foi obrigado a pôr fim à sua ocupação do Sul do Líbano que datava de 1978; e de novo em 2006, quando Israel lançou nova criminosa guerra de ocupação contra o seu vizinho do Norte. Já o New York Times titulou que «Interesses convergentes podem levar à cooperação entre Israel e os estados do Golfo» (31.3.14), acrescentando que a colaboração poderia passar pela «cooperação de israelitas e sauditas no treino dos combatentes da oposição síria». O jornal israelita Haaretz informa (7.12.14) que «relatórios dos observadores da ONU no[s Montes] Golã, entregues aos 15 membros do Conselho de Segurança, pormenorizam os contactos regulares de oficiais da IDF [Forças Armadas israelitas] e figuras da oposição síria armada, junto à fronteira». E o canal televisivo de notícias israelita, i24news, acrescenta (7.12.14) que em resposta a denúncias de que as forças armadas de Israel prestam socorro médico a todos os grupos armados da oposição síria «incluindo a Frente al-Nusra e Daesh [como o ISIS é conhecido no Médio Oriente]», o gabinete de imprensa militar israelita confirmou: «nos últimos dois anos, as IDF têm prestado auxílio humanitário e salvado vidas a sírios feridos, independentemente da sua identidade». Para quem chacinou centenas de crianças em Gaza, é comovente este 'humanismo'.
Mas Clark e Biden são falsos ingénuos. O problema não são apenas os «amigos e aliados». Já em 20.9.14, o New York Times titulava: «No Iraque há profundas suspeitas de que a CIA e o Estado Islâmico estão unidos». E segundo a agência noticiosa iraniana FNA (23.2.15), «o exército iraquiano derrubou dois aviões britânicos que transportavam armas para o ISIS», informação confirmada pela Comissão de Segurança Nacional e Defesa do Parlamento iraquiano. O presidente da comissão disse que «o governo de Bagdade recebe relatórios diários de pessoas e forças de segurança na província de al-Anbar, sobre numerosos voos de aviões da coligação chefiada pelos EUA que lançam armas e mantimentos nas zonas sob controlo dos terroristas do ISIL». O pântano criado pelas ambições hegemónicas do imperialismo está para além de qualquer imaginação doentia. Falta saber quem nele se irá afundar.
 
Jorge Cadima
 
In "Avante!", edição de 5/3/2015

 
       
             
     
 

domingo, 1 de março de 2015

Não te rendas - Nunca!


Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos
Soltar o lastro,
Retomar o vôo.
Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.
Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,
Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.
Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo
 
(Mario Benedetti)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Uma questão central - esquerda burguesa ou esquerda proletária? (II)


A importância da teoria
 
Alguns pensam que o leninismo é o primado da prática sobre a teoria, no sentido em que o principal nele é a transformação dos princípios marxistas em actos, a «realização» destes princípios, e, no que toca à teoria, que o leninismo seria alegadamente descuidado a este respeito. É sabido que Plekhánov zombou mais de uma vez do «descuido» de Lénine da teoria e em especial da filosofia. É sabido igualmente que muitos leninistas-práticos de hoje não acarinham muito a teoria, em virtude, sobretudo, do enorme trabalho prático que a situação os obriga a desenvolver.    Devo declarar que
esta mais do que estranha opinião sobre Lénine e o leninismo é totalmente falsa e não corresponde de modo nenhum à realidade, e que a tendência dos práticos de negligenciarem a teoria é contrária a todo o espírito do leninismo e encerra grandes perigos para a causa.

A teoria é a experiência do movimento operário de todos os países, tomada no seu aspecto geral. Naturalmente, a teoria torna-se vaga se não estiver ligada à prática revolucionária, precisamente como também a prática se torna cega se não alumiar o seu caminho com a teoria revolucionária. Mas a teoria pode converter-se numa formidável força do movimento operário se for construída em ligação indissolúvel com a prática revolucionária, pois ela, e só ela, pode imprimir ao movimento a segurança, a firmeza de orientação e a compreensão da concatenação interna dos acontecimentos circundantes, pois ela, e só ela, pode ajudar a prática a compreender não só como e para onde se deslocam as classes no presente, mas também como e para onde deverão deslocar-se no futuro próximo. Ninguém como Lénine disse e repetiu tantas vezes a conhecida tese de que:

«Sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário»
 
Lénine, melhor que ninguém, compreendeu a grande importância da teoria, em particular para um partido como o nosso, devido ao papel de combatente de vanguarda do proletariado internacional que recaiu sobre ele e também devido à complexa situação interna e internacional em que se encontra. Prevendo já em 1902 este papel particular do nosso partido, Lénine considerou necessário recordar logo nessa altura que:
 
«Só um partido guiado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda»
 
Será preciso demonstrar hoje, quando a predição de Lénine sobre o papel do nosso partido se tornou uma realidade, que esta tese de Lénine adquire uma força e importância especiais.
A expressão mais viva da alta importância que atribuía à teoria poderá ser vista no facto de Lénine ter empreendido, como mais ninguém, a grandiosa tarefa da generalização filosófica materialista daquilo que a ciência produziu de mais importante desde Engels até Lénine, e da crítica profunda das correntes anti-materialistas entre os marxistas.
Engels disse que «com cada descoberta, o materialismo tem de mudar a sua
forma». É sabido que essa tarefa foi cumprida na sua época por ninguém mais que Lénine, no notável livro Materialismo e Empiriocriticismo. É também sabido que Plekhánov, que se comprazia a zombar da «despreocupação» de Lénine pela filosofia, não se decidiu sequer a começar seriamente a realização de tal tarefa.
 

A crítica da «teoria» da espontaneidade, versus o papel da vanguarda no movimento.
 
A «teoria» da espontaneidade é a teoria do oportunismo; a teoria da reverência à espontaneidade do movimento operário, a teoria que nega de facto o papel dirigente da vanguarda da classe operária, do partido da classe operária.
A teoria da reverência à espontaneidade age decididamente contra o carácter revolucionário do movimento operário, opõe-se a que o movimento se oriente pela linha da luta contra as bases do capitalismo; ela defende que o movimento siga exclusivamente a linha das reivindicações «exequíveis», «aceitáveis» para o capitalismo, defende inteiramente a «linha da menor resistência». A teoria da espontaneidade é a ideologia do trade-unionismo.
A teoria da reverência à espontaneidade manifesta-se decididamente contra a que se imprima ao movimento espontâneo um carácter consciente, sistemático, é contra a que o partido siga na dianteira da classe operária, a que o partido eleve as massas a um nível consciente, a que o partido leve o movimento atrás de si; defende que os elementos conscientes não impeçam o movimento de seguir o seu caminho, defende que o partido se limite a ouvir o movimento espontâneo e se arraste na sua cauda. A teoria da espontaneidade é a teoria da subestimação do papel do elemento consciente
no movimento, é a ideologia do «seguidismo», base lógica de todo o oportunismo.

Na prática, esta teoria, que entrou em cena ainda antes da primeira revolução russa, levou os seus partidários, os chamados «economistas», a negarem a necessidade de um partido operário independente na Rússia, a manifestarem-se contra a luta revolucionária da classe operária pelo derrubamento do tsarismo, a pregarem a política trade-unionista no movimento e, em geral, a colocarem o movimento operário sob a hegemonia da burguesia liberal.
A luta do velho Iskra e a brilhante crítica da teoria do «seguidismo», feita por Lenine na brochura Que Fazer?, não só derrotaram o chamado «economismo», como também lançaram as bases teóricas de um movimento realmente revolucionário da classe operária russa.
Sem essa luta, não se poderia sequer pensar na criação de um partido operário independente na Rússia, nem no seu papel dirigente na revolução.

Mas a teoria da reverência à espontaneidade não é um fenómeno exclusivamente russo. Ela está amplamente divulgada, é certo que sob uma forma algo diferente, em todos os partidos da II Internacional, sem excepção. Refiro-me à chamada teoria das «forças produtivas», vulgarizada pelos líderes da II Internacional, que justifica tudo e reconcilia todos, que constata os factos e os explica, depois de toda a gente já estar farta deles, e, constatando, fica apaziguada. Marx dizia que a teoria materialista não
pode limitar-se a interpretar o mundo, mas que, além disso, deve transformá-lo. Mas Kautsky e C.ª não se importam com isto, preferem ficar na primeira parte da fórmula de Marx.
Vejamos um dos numerosos exemplos da aplicação desta «teoria». Diz-se que, antes da guerra imperialista, os partidos da II Internacional ameaçavam declarar «guerra à guerra››, caso os imperialistas a desencadeassem. Diz-se que, ante o início iminente da guerra, esses partidos meteram na gaveta a palavra de ordem «guerra à guerra» e lançaram o lema contrário da «guerra pela pátria imperialista». Diz-se que em consequência desta substituição de palavras de ordem houve milhões de vítimas entre os operários. Mas seria erróneo pensar que existem aqui culpados, que alguém traiu ou vendeu a classe operária. Nada disso! Aconteceu o que tinha de acontecer. Em
primeiro lugar, porque a Internacional é «um instrumento de paz» e não de guerra. Em segundo lugar, porque, com o «nível das forças produtivas» que existia naquela altura, não se podia fazer outra coisa. A «culpa» é das «forças produtivas». Isto é o que «nos» explica, com exactidão, a «teoria das forças produtivas» do senhor Kautsky.
E quem não acreditar nesta «teoria» não é marxista. O papel do partido? A sua importância no movimento? Mas o que pode fazer um partido em face de um factor tão decisivo como o «nível das forças produtivas»?...
Poderíamos citar um monte destes exemplos de falsificação do marxismo.
Certamente que não será necessário demonstrar que este «marxismo» falsificado, destinado a encobrir a nudez do oportunismo, não passa de uma modificação à maneira europeia daquela mesma teoria do «seguidismo», combatida por Lénine já antes da primeira revolução russa. Certamente que não será necessário demonstrar que a demolição desta falsificação teórica é condição prévia para a criação de partidos verdadeiramente revolucionários no Ocidente.
 

I.V. Stáline, Princípios do Leninismo, Conferências lidas na Universidade
de Sverdlov, 1924.  
Publicado no blog «Pelo Socialismo»
 

 




 

 
 









 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 

 
 
 



 
 



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O nosso Sonho - Pedra Filosofal




Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara graga, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Portugal na "U".E. - Dados singelos a não esquecer.

Portugal é um dos países da Europa desenvolvida onde se trabalha mais horas por ano, mas nem por isso a retribuição é maior.

Comparados com os alemães, os portugueses trabalham mais 324 horas todos os anos, mas levam para casa menos 7484 euros. De acordo com os números da OCDE, a jornada diária dos alemães é cerca de uma hora mais leve todos os dias comparada com a dos portugueses, mas como os salários e as regalias são superiores, os trabalhadores alemães saem largamente a ganhar.
A OCDE, que compara as horas trabalhadas em 2013 nos vários países que compõem a organização, mostra que os trabalhadores portugueses passam cerca de 1712 horas por ano a trabalhar, cerca de 33 horas por semana. Este período é superior ao registado em 17 países que compõem a OCDE, como a Holanda, país com uma jornada menor (1380), Alemanha (1388), Noruega (1408), França (1489), Espanha (1665) ou até Islândia (1704).

(Diário de Notícias, edição de 15/10/2014)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Texto de Drummond de Andrade para Cartola

Texto publicado três dias antes da morte do Cartola, falecido em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos de idade.

Cartola, no moinho do mundo

Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.


Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de
Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.


Em Tempos Idos, o Divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.


Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor; reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes da nossa população.  Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

Mas então fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Silvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha que cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer essas coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Dona Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O Mundo é um moinho…” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Intelectuais Apolíticos


 
 
Um dia,
 
os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem
simples
do nosso povo.
 
Serão questionados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente
como uma fogueira frágil,
pequena e só.
 
Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
sestas
após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar ao dinheiro.
 
Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentirão de si,
quando alguém, no seu íntimo,
se dispunha a morrer
cobardemente.
 
Ninguém lhes perguntará
sobre as suas justificações
absurdas,
crescidas na sombra
de uma rotunda mentira.
 
Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros de versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que iam todos os dias
levar-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que lhes costuravam a roupa,
os que conduziam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,
 
“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimavam,
gravemente, a ternura e a vida?”
 
Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.
 
Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.
 
Otto Rene Castillo
 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Federação Sindical Mundial e o ataque ao Charlie Hebdo


 


 
                        
Após o assassino ataque à revista Charlie Hebdo, em Paris, França, o Secretariado da FSM emitiu a seguinte declaração:
 
Expressamos nossas condolências às famílias das vítimas e votos de recuperação rápida e completa para os feridos. Este crime feroz e 0 assassinato de tantas pessoas devem ajudar-nos a todos a considerar algumas realidades atuais:
 
1. Que os fanatismos religiosos, a técnica das divisões, os fenómenos racistas e neofascistas criam o ódio e impedem a unidade dos trabalhadores.
2. Os trabalhadores na França e os trabalhadores em toda a Europa devem estar a interrogar-se sobre quem criou os chamados “jihadistas”. Quem os financiou? Quem os treinou? Quem se serviu plenamente deles na Síria, no Iraque, no Líbano e em outros lugares?
3. Os imperialistas, a União Europeia, os Estados Unidos, a OTAN, nos seus planos geoestratégicos para o controle da energia, para novas fronteiras e novos mercados, criaram divisões artificiais, semeando o ódio entre os povos e cultivando fanatismos religiosos.
Nossos irmãos, trabalhadores franceses, trabalhadores de todo o mundo:
A melhor maneira de expressar as nossas convicções sobre o crime contra o “Charlie Hebdo” não é a de permitir a nossa divisão por diferenças religiosas, raciais, de cor, de língua etc. Não é a de permitir que os culpados física e moralmente pelo crime sejam encobertos por trás de divisões religiosas.
Os trabalhadores são todos irmãos. Pertencemos à mesma classe.
Todos unidos para lutar contra o imperialismo e contra a barbárie capitalista.
 
Trabalhadores de todo o mundo, quer sejam muçulmanos, ou cristãos, ou budistas ou coptas, quer sejam ou não crentes, SÃO IRMÃOS DE CLASSE.
O Secretariado da F.S.M.
 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Uma questão central - esquerda burguesa ou esquerda proletária?

 Ruptura ou Adaptação?

O jornal "Avante!", órgão central do P.C.P., publica na sua última edição um artigo de Albano Nunes, membro do secretariado do CC, com este título muito oportuno. Transcreve-se o seu último parágrafo, como um estímulo à sua ulterior análise e, esta sobretudo necessária, às características - de classe - que diferenciam as várias forças e posicionamentos que se intitulam de esquerda, uma análise que ficará para outro post.

"(...)
A ruptura que se impõe não será certamente um acto súbito mas um processo complexo passando por batalhas intermédias e objectivos concretos e imediatos. Mas não deve haver qualquer confusão entre propostas que, como as do PCP, se situam numa dinâmica de ruptura com um bloco imperialista que se considera irreformável e com um sistema capitalista que exige a sua superação revolucionária, e posições que na sua essência apenas visam «moralizar» e «corrigir os excessos» do capitalismo e afirmam a sua profissão de fé «europeísta», como no caso, tão mediatizado, do Syriza na Grécia. Entre ruptura e adaptação vai a distância que separa uma consequente posição de esquerda, revolucionária, de uma qualquer variante reformista de keynesianismo.
Portugal não tem alternativa senão enfrentar a necessária ruptura com o imperialismo com coragem e determinação. Com o apoio e a mobilização dos trabalhadores e do povo nada é impossível. Com incertezas, riscos e sacrifícios, sem dúvida. Mas não há ruptura de cadeias de opressão nem salto em frente no processo libertador que não tenha as suas dores de parto."

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Portugal e Pablo Neruda




LA LÁMPARA MARINA
 
Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas del Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
as islas asombradas,
descubre el archipiélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
 
Cómo es esto?
 
Cómo puedes negarte
al cielo de la luz tú, que mostraste
caminos a los ciegos?
 
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
 
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telarañas
que cubren tu fragante arboladura,
y entonces
a nosostros os hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstra-nos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar escuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llegó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
 
aprenderás de nuevo a ser estrella.
 
Pablo Neruda, Las uvas y el viento, 1954
 
(Escrito em homenagem a Álvaro Cunhal e outros companheiros de cárcere em 1953)