SÓ NÃO SE ENGANA QUEM CEDE AO MEDO DE CAMINHAR NO DESCONHECIDO - SÓ SE PERDE AQUELE QUE NÃO ESTÁ SEGURO DO RUMO QUE ESCOLHEU.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo

Belicistas NATOs


A Cimeira da NATO revelou de novo, publicamente, as intensas contradições e disputas entre as velhas potências imperialistas. Não é um facto secundário, nem um mero problema de pessoas ou birras: o terremoto em curso tem bases objectivas profundas.
Reflecte a profundíssima crise do capitalismo. Reflecte o esgotamento dos mecanismos de reprodução do capital e o consequente acirrar das disputas pelos lucros ainda disponíveis. Reflecte a inexorável deslocação do centro de gravidade económico do espaço euro-atlântico para leste. Reflecte o decenal declínio económico e financeiro dos EUA, também face à UE, e simultaneamente o seu poderio militar. A diatribe de Trump contra a Alemanha e o gasoduto que a ligará à Rússia evidenciou que, longe do palavreado sobre «valores» ou «defesa», estão em jogo o poder e as negociatas, com destaque para a energia e armamento. Sempre foi assim. A novidade é que os ralhetes que, em público, eram dados (por todos) aos «países recalcitrantes» atingem agora aliados, em directas televisivas ao pequeno almoço.
Ao contrário da Cimeira dos G7, desta vez houve declaração final. A ilusória recomposição baseou-se na escalada militarista. Os ataques da facção globalista do capital contra Trump são ferozes. O Trilateralista Wolf chama-lhe um «ignorante perigoso» (Financial Times, 10.7.18) que está «em guerra contra a ordem mundial liberal» (FT, 3.7.18). Mas no momento de decidir, todos acompanham Trump, aumentando as despesas militares (públicas) em 266 mil milhões de dólares, que gerarão colossais lucros (privados).
Incluindo a UE dos «valores europeus». Incluindo Tsipras e Costa. Face aos ralhetes, todos aprovam uma Declaração Final que é um monumento à mentira. A NATO comemorou os seus 50 anos com a guerra à Jugoslávia, violando o Direito Internacional e a ONU (hoje presidida pelo então primeiro-ministro português, que deu o seu aval a essa guerra). Destruiu países inteiros, como a Líbia. Sustenta a acção dos fascistas na Ucrânia e Israel. A Colômbia narco-terrorista tornou-se seu membro associado. No que vai de ano, o patrão da NATO violou acordos internacionais sobre o Irão e Jerusalém. Dispara em todas as direcções.
As empresas que comprem petróleo ao Irão deixarão de ter acesso ao mercado dos EUA (New York Times, 26.6.18). Mas a Declaração da NATO tem o desplante de começar proclamando que são «as acções agressivas da Rússia, incluindo a ameaça e o uso da força para alcançar objectivos políticos» que «desafiam a Aliança e minam a segurança Euro-Atlântica e a ordem internacional baseada em regras». O delírio torna-se absurdo quando proclama que «a nossa unidade e solidariedade são hoje mais fortes do que nunca». O cambaleio do presidente da Comissão Europeia antes (!) do jantar de gala não destoou, afinal, na farsa grotesca desta Cimeira.
Mas o assunto é sério. Não se trata apenas de que as despesas belicistas serão roubadas aos povos. A NATO sempre foi um instrumento de dominação do imperialismo dos EUA, e o militarismo alimenta a reacção (externa e interna) e as dinâmicas de guerra. As querelas entre mafias capitalistas em disputa por territórios e riquezas já produziram guerras mundiais. Quem pensa que combate a mafia pagando-lhe tributos está enganado. É urgente exigir: fim à NATO!

(Jorge Cadima, Avante! de 19/7/2018)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Os mordomos da Nato



Pelo seu relevante conteúdo, transcreve-se um artigo de Jorge Cadima, redator de política internacional do jornal "Avante!", de leitura indispensável. 

Mordomos NATO
Na véspera da visita a Portugal do Secretário-Geral da NATO, os Ministros da Defesa e Negócios Estrangeiros publicaram um artigo no Público (25.1.18): uma lamentável posição de submissão e seguidismo, contrária à Constituição de Abril. Conseguem, num mesmo parágrafo, recordar que Portugal é membro fundador da NATO (sem lembrar que foi no tempo do fascismo) e afirmar que «a NATO é, pela história e pelo presente, uma parcela marcante da nossa forma de conceber a Defesa Nacional, integrando o seu código genético». Os genes do passado andam por aí.
O artigo junta a sigla NATO à palavra «segurança». Refere com orgulho que «Portugal é dos maiores contribuintes» para a missão NATO no Afeganistão «com quase 200 militares envolvidos». Mas o que é o Afeganistão ocupado, após décadas de subversão e 17 anos de guerra EUA/NATO? No sábado anterior ao artigo, um ataque talibã matou 22 pessoas e no fim-de-semana seguinte um veículo-bomba matou 100. O New York Times (27.1.18) citando a ONU, diz que ao longo de 2017 morreram em média dez civis por dia, sem recordar que muitos morreram em ataques aéreos dos EUA/NATO. A agência da ONU para os Refugiados (UNHCR) fala em cerca de 2,5 milhões de refugiados afegãos, só no Paquistão e Irão. Segundo outra agência da ONU, a UNODC, a produção de ópio, quase totalmente erradicada no ano anterior à invasão, disparou após 2001, tendo em 2017 a área de cultivo de papoilas aumentado 63% e a produção de ópio 87%. Papoilas afegãs produzem 90% da heroína mundial e o Afeganistão é o país com a maior percentagem de heroinómanos (BBC, 11.4.13). Nos EUA os utilizadores de heroína aumentaram de 189 mil em 2001 para 4,5 milhões hoje (Chossudovsky, globalresearch.ca, 27.1.18). O jornalista A. Vltchek mostra campos de papoilas junto à base dos EUA em Bagram (21stcenturywire.com, 5.8.17). São antigas e bem documentadas as ligações entre os serviços secretos dos EUA e o tráfico de drogas. Quando o artigo diz que «somos [...] produtores de paz e segurança [...] em tantas outras partes do globo», citando concretamente o Afeganistão, é disto que fala.
Todas as guerras NATO geraram tragédias semelhantes, com um rastro de destruição dos Balcãs à Líbia e Médio Oriente. Os ministros anunciam que no «futuro próximo» Portugal irá «reforçar as capacidades, nomeadamente através da aquisição de novas aeronaves de transporte médio e do reforço da nossa capacidade naval» no âmbito da NATO. Entretanto, adia-se investimentos no SNS, transportes públicos ou na prevenção e combate a incêndios. Defendem «que a NATO se mostre cada vez mais preparada para a sua vocação a 360 graus», ou seja, o auto-proclamado ‘direito’ a intervir em toda a parte e sob qualquer pretexto. Mas a NATO é uma ferramenta criminosa de guerra, destruição, mentira e agressão imperialista. Que se acha acima da lei. Querem comprometer Portugal em futuras guerras contra o Irão, a RPD Coreia ou mesmo a Rússia e a China, decididas pelos EUA/Trump? Com que consequências? Para quê?
Não é apenas em matéria de UE que este governo não rompe com políticas contrárias aos interesses do povo e do País. Tal como Tony Blair, há quem no Governo PS queira ser dos mais fiéis mordomos da NATO, agora sob a tutela Trump. É uma tradição antiga nas nossas classes dirigentes, trocar a soberania por um prato de lentilhas. Mesmo que seja, como em 1580, para se submeter a potências em declínio. Em declínio, mas criminosas e perigosas.

(Sublinhado da responsabilidade do blog)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Caminharmos apoiados pelos imprescindíveis


Vivemos tempos marcados por uma latente confusão ideológica, induzida através de uma mentira/ ilusão propagandeada, de forma paradoxal, tanto pela direita como pela "esquerda", visando convencer os desatentos que temos em Portugal um "governo das esquerdas". Claro que a mais elementar coerência exigível no conjunto pensar-dizer-fazer logo nos revela o contraditório entre os que o pensam - desafortunadamente, tantos dos explorados - , os que o dizem - uma chusma de opinadores e comentaristas de serviço nos meios de manipulação de massas - e os que paulatinamente o fazem - um poder de Estado dominado pelos agentes políticos da política de direita, designadamente este governo "socialista" -, assegurando a continuidade da dominação do capital monopolista sobre o povo e o país.   

Intervindo no ciclo de debates realizados sobre a reorganização de 1940/1941 do PCP, o excerto abaixo transcrito é parte da intervenção de José Casanova sobre esse tema, com base na publicação do livro "O IV Congresso, 50 anos depois", de Álvaro Cunhal.
Tratando a questão central da identidade do PCP e em geral dos partidos comunistas - "o alvo primeiro de todas as ofensivas à escala mundial visando a liquidação desses partidos" -, percorrendo as várias fases de agudização do confronto entre comunistas e reformistas ao longo da vida do PCP, tratando as várias tentativas realizadas para a sua descaracterização, José Casanova a finalizar dá a palavra ao próprio autor, lendo um trecho pleno de actualidade, não obstante já terem decorrido duas tumultuosas décadas.
Aí ficam as palavras de ambos, decerto apoios importantes "no tempo que passa" para quantos querem resistir à nova vaga que visa submergir a firmeza político-ideológica dos comunistas. 



"Uma das linhas fundamentais das tentativas, ao longo da história do movimento comunista, para a liquidação dos partidos comunistas é de tentar afastar os partidos comunistas da sua identidade comunista. O IV Congresso, debateu essa questão, não apenas reportando-se ao próprio Partido, mas também a fenómenos semelhantes ocorridos na altura em vários outros partidos comunistas. Abordando a questão, Álvaro Cunhal, sublinha que essas situações, apesar de terem sido decorrência do fim da Segunda Guerra Mundial, não só não são conjunturais, como comportam natureza e significado bem mais profundo. E refere duas experiências e lições verificadas na história do movimento comunista: a primeira que, «entre as concepções e actividade comunista e as concepções e actividade reformistas, pode haver acordos, alianças e acção comum, não fusão ideológica», a segunda que, «quando, em tal ou tal partido, se manifestam tendências reformistas que contrariam aspectos fundamentais da identidade partidária, a situação não é de consagração de tal divergência como característica do Partido, mas de efectivo confronto podendo conduzir à ruptura». Quer isto dizer que não é característica da identidade de um partido comunista «a coexistência dessas duas correntes num processo em que os “consensos” se convertessem em regra».
Como tem sido sublinhado e a experiência mostra, a identidade comunista dos partidos comunistas  é o alvo primeiro de todas as ofensivas à escala mundial visando a liquidação desses partidos. Da mesma forma, as ofensivas internas e os seus objectivos de descaracterização do Partido, sempre vêem nessa identidade o obstáculo principal aos seus desígnios, a marca distintiva que é necessário generalizar para que deixe de o ser. Por vezes simulam, até, ter como alvo apenas um ou outro desses traços identitários, fingindo não saberem que abandonando este ou aquele todos os outros se desmoronariam inexoravelmente.
As ofensivas visando a descaracterização do PCP a partir de 1987 são exemplos claros do que acima é dito. E, como sempre acontece nestas situações ao longo da história, muitos dos que, então, escondiam o seu ataque à identidade do Partido por detrás de um fraseado de «queremos que o Partido seja mais comunista», «queremos que o Partido seja mais forte» - são hoje membros do PS ou do BE, membros do governo Sócrates, deputados ou autarcas do PS ou do BE, etc. etc.
Voltando ao IV Congresso, importa ainda referir que, por essa altura, o Partido vivia um momento alto da sua história, quer na capacidade de intervenção, quer na influência junto da classe operária, dos trabalhadores e dos antifascistas em geral. Informa Álvaro Cunhal que o número de militantes do Partido, na altura, era de mais de 5000, aos quais se juntavam 4000 simpatizantes. Uma força poderosa e em condições de levar por diante as orientações e decisões do Congresso. Como de facto aconteceu.
E apesar dos golpes da repressão e da prisão de numerosos quadros e militantes – que viriam a traduzir-se em grandes oscilações ao longo dos tempos no número de efectivos  – o Partido manteve a sua influência de forma a ser, como foi, «a força determinante na criação de condições políticas que conduziram ao 25 de Abril, ao levantamento popular que se seguiu ao levantamento militar – e que confirmou a justeza da consigna do IV Congresso - e às grandes conquistas democráticas da Revolução».
Termino com uma longa mas notável citação de Álvaro Cunhal, da qual ressalta a sua inabalável confiança - confiança no Partido, nas massas trabalhadoras, no futuro; confiança sólida, porque fundamentada na análise da realidade.
Ouçamo-lo:

«A história ensina e a previsível complexidade da evolução da situação internacional e nacional adverte. O capitalismo tem força económica e formas poderosas de pressão e influência ideológica. A URSS desapareceu. No movimento comunista manifestam-se dúvidas e hesitações. Alguns partidos comunistas abandonam a sua identidade comunista. Uns transformam-se em partidos social-democratas. Outros desapareceram.
O capitalismo sobrestima e absolutiza entretanto o alcance histórico destes acontecimentos ao concluir que a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados (um “ideal generoso”, condescendem alguns) era um projecto irrealizável, era uma utopia. E cantam a “vitória histórica” do capitalismo que têm por definitiva.
A realidade porém é outra. O capitalismo atravessa uma crise profunda e confirma, não só ser incapaz de resolver os problemas da humanidade, como a sua política conduz a agravá-los.
A ideologia do capitalismo revela um misto de ilusão acerca dos seus méritos e de consciência dos seus pecados. Nunca ideólogos e propagandistas definiram de maneira tão falsa e idealizada as características, as realidades e as perspectivas de desenvolvimento da sociedade, como fazem os novos teóricos e propagandistas do capitalismo.
O capitalismo ter-se-ia superado a si próprio. Teria deixado de ser capitalismo, para ser agora “economia de mercado”. Já não haveria capitalistas mas “empresários”. Seria um “capitalismo civilizado”, sem classes antagónicas, um capitalismo sem proletários, sem luta de classes, nem natureza de classe de governos e de políticas, seria uma sociedade nova definitiva e final constituída por cidadãos conscientes, cordatos e mutuamente solidários, aceitando, assinando e cumprindo “pactos de regime”, “pactos sociais”, “pactos” e mais “pactos” pelos quais os cidadãos trabalhadores (agora dizemos nós) aceitariam renunciar a direitos fundamentais e vitais. Ou seja, ser explorados pelos cidadãos capitalistas e os cidadãos capitalistas continuarem a explorar os trabalhadores e a justificar-se perante a opinião pública através dos seus fantasiosos teorizadores.
A fantasia é tanta, a sociedade assim falsamente descrita é tão idealizada e irrealista no seu presente e na perspectiva do seu futuro, que se pode dizer que o capitalismo, desacreditado e abalado por uma crise profunda, inventa a sua própria utopia. Não como projecto de mudança, naturalmente, mas como mudança de linguagem pretendendo ocultar a realidade.
E a realidade é que o capitalismo mantém a sua natureza exploradora, opressora e agressiva. Contra ele, a luta dos trabalhadores e dos povos, continua e recrudesce. Os trabalhadores não podem dispensar um partido completamente independente dos interesses e da influência ideológica da burguesia e corajoso, dedicado e convicto.
O ideal comunista, esse não é uma utopia. Continua a ser válido e com futuro. Onde desapareçam partidos comunistas, os trabalhadores e os povos criá-los-ão de novo, com esse ou outro nome, com inevitáveis diferenças, mas com essas características essenciais.
Trata-se de uma necessidade e inevitabilidade da evolução social. Não é ao capitalismo mas ao comunismo que o futuro pertence.» 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Álvaro Cunhal (10 Novembro 1913 - 13 Junho 2005)


(...) A estrutura socioeconómica do capitalismo monopolista é a determinante da exploração dos trabalhadores e da maioria esmagadora da população, da degradação da situação social, da ausência de uma política cultural democrática, da limitação às liberdades e direitos dos cidadãos e das medidas de violenta repressão. No tempo do fascismo como actualmente.

Negar, ocultar, ignorar ou omitir esta realidade objectiva da economia capitalista é criar fortes ilusões e deixar terreno mais livre à consolidação e mesmo institucionalização em termos constitucionais do poder económico e político efectivo do capital financeiro, dos grandes grupos económicos, das transnacionais.

A actual restauração do capitalismo monopolista e do poder dos monopólios (uma vez mais associados em posição de subalternidade ao capital estrangeiro) e dos latifundiários não encerra porém a história. O futuro de Portugal democrático e independente exigirá que tal estrutura não se solidifique, sofra limitações, seja combatida e seja finalmente superada e substituída.(...)

(Trechos do prefácio de Álvaro Cunhal para o I volume da edição dos materiais do IV Congresso do PCP,  da parte intitulada "A estrutura socioeconómica determinante da política do poder",  publicados em "O Militante", Nº 283 - Jul/Ago 2006.)


sábado, 21 de janeiro de 2017

Para os marxistas-leninistas, 93 anos depois, continua uma efeméride dolorosa.








No dia 21 de Janeiro, há 93 anos, morreu Lenine. Tinham decorrido escassos seis anos após a Revolução de Outubro de 1917, a sua mais brilhante realização como o principal dirigente do Partido Comunista, o Partido de Novo Tipo criado com o seu enorme e inapagável contributo ideológico, político e organizativo.

Transcreve-se o primeiro trecho das Recordações de Máximo Gorki, publicadas pela primeira vez em 1924, sob o significativo título "O Homem".

"Vladimir Lénine está morto.
Mesmo entre as hostes dos seus inimigos, alguns o reconhecem lealmente: na pessoa de Lénine, o mundo perdeu o homem “que entre todos os grandes homens seus contemporâneos, era a mais viva encarnação do génio”. 
o jornal burguês alemão Prager Tageblatt, publicou sobre Lénine um artigo impregnado de uma admiração respeitosa diante dessa figura colossal, que terminava assim: 
“Na própria morte Lénine parecia grande, inacessível e terrível». 
Vê-se pelo tom do artigo que ele não é inspirado por esse prazer fisiológico expresso cinicamente neste aforismo: “o cadáver de um inimigo cheira sempre bem”, nem pela alegria que as pessoas sentem quando um grande homem turbulento os deixa – não, o orgulho do homem pelo homem ressoa altivamente nesse artigo. 
A imprensa dos emigrados russos não encontrou em si nem a força nem o tato para falar da morte de Lénine com o respeito que demonstraram os jornais burgueses nos seus julgamentos acerca de um dos maiores representantes da vontade de vida e da intrepidez da razão. 
É difícil traçar-lhe o retrato. Lénine, exteriormente, era todo palavras como o peixe é, exteriormente, todo de escamas. Era simples e reto como tudo aquilo que dizia. 
O seu heroísmo era quase totalmente desprovido de brilho aparente; era feito dessa abnegação modesta, ascética, frequente no honesto intelectual-revolucionário na Rússia, que tem uma fé inquebrantável na possibilidade da justiça social sobre a terra; o heroísmo do homem que renunciou a todas as alegrias do mundo para trabalhar duramente a favor da humanidade (...)".

A versão integral destas Recordações, publicadas em duas partes e cuja leitura vivamente se recomenda, está publicada aqui:
http://www.aaweb.org/pelosocialismo/index.php?option=com_booklibrary&task=view&id=1099&catid=48&Itemid=17

terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma lição intemporal. Lénine e as formas de luta.


"Comecemos pelo começo. Quais são as exigências fundamentais que qualquer marxista deve apresentar ao exame da questão das formas de luta? Em primeiro lugar, o marxismo distingue-se de todas as formas primitivas de socialismo pelo facto de ele não amarrar o movimento a qualquer forma determinada e única de luta. Ele reconhece as mais diferentes formas de luta, e além disso não as «inventa», mas apenas generaliza, organiza, dá consciência àquelas formas de luta das classes revolucionárias que surgem por si no curso do movimento. Absolutamente hostil a todas as fórmulas abstractas, a todas as receitas doutrinárias, o marxismo exige uma atitude atenta em relação à luta de massas em curso, a qual, com o desenvolvimento do movimento, com o crescimento da consciência das massas, com a agudização das crises económicas e políticas, gera métodos sempre novos e cada vez mais diversos de defesa e de ataque. Por isso o marxismo não renuncia absolutamente a nenhumas formas de luta. O marxismo não se limita em nenhum caso às formas de luta possíveis e existentes apenas num dado momento, reconhecendo a inevitabilidade de novas formas de luta, desconhecidas dos participantes do período dado, com a modificação da conjuntura social dada. O marxismo neste aspecto aprende, se assim nos podemos exprimir, com a prática das massas, está longe da pretensão de ensinar às massas formas de luta inventadas por «sistematizadores» de gabinete.(...)
 
Trata-se do 1º parágrafo de um texto de Lenine, escrito em 1906, sobre a adopção ou não das formas de luta armada pelo Partido dos comunistas russos, onze anos antes da grande Revolução de Outubro de 1917, cujo conteúdo integral está aqui: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1906/09/30.htm
 
Discutindo a aplicação da guerra de guerrilhas à luta dos comunistas, este texto é uma magnífica e intemporal lição para todos nós, seus herdeiros ideológicos, cujo dever indeclinável é avaliar todas as formas de luta nas condições concretas dadas e, simultaneamente, não "perdendo o pé" da realidade e não rejeitando qualquer forma de combate por sujeição a "receitas doutrinárias" e razões alheias à obrigação básica dos revolucionários - fazer a revolução. 
 
Seguindo estes preciosos ensinamentos de Lenine, para quem combate as concepções oportunistas de direita, defendidas por falsos marxistas-leninistas que propagandeiam a via reformista parlamentar burguesa para o Socialismo, para todos quantos temos por objectivo a liquidação do sistema capitalista e a sua substituição por um sistema novo, socialista e comunista, duas preposições são certamente  básicas: a) a revolução não é só um momento insurrecional e de viragem radical e transformadora, mas sim um processo político revolucionário contínuo, em ligação dialéctica com a marcha dos povos; b) neste processo revolucionário - com períodos de ascenso/descenso e intensidade diferenciados no tempo mas sem divisórias artificiais, conceptualizadas pelos referidos "sistematizadores de gabinete" dos tempos actuais - as formas da luta política das massas trabalhadoras e populares vão sendo adequadas às condições existentes (objectivas e subjectivas), sem exclusão "à priori" de nenhuma delas.
 

sábado, 5 de março de 2016

Tatiana Khabarova e a importância da Filosofia na luta de classes


No combate político das classes, parte importante da luta ideológica que os comunistas travam fundamenta-se nos alicerces filosóficos do marxismo-leninismo.
Daí o interesse da publicação deste novo texto de Tatiana Khabarova (Secretária-coordenadora da Plataforma Bolchevique no PCUS, doutorada em Ciências Filosóficas)  intitulado "O marxismo e o bolchevismo na URSS pós-Stáline: torpor e ruptura",  proferido em 4 de Dezembro de 2009.

Texto integral aqui http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt/o-marxismo-e-o-bolchevismo-na-urss-45473


(...) III - Falemos agora daquilo a que, no nosso trabalho de esclarecimento, infelizmente, não prestamos a devida atenção: trata-se de questões propriamente filosóficas. Isto apesar de ser doutorada não em ciências económicas, mas filosóficas, e apesar no campo da filosofia terem sido colocados tantos paus na engrenagem, ao longo da guerra informativa-psicológica, que pela sua nocividade não ficaram muito atrás das «reformas» de Liberman ou do «Programa» de construção do comunismo até 1980.
Perguntareis: mas que malandrice se pode fazer na filosofia? Há muitas malandrices que se podem fazer. Não foi por acaso que V.I. Lénine escreveu o livro Materialismo e Empiriocriticismo nas vésperas da revolução russa.
Comecemos com uma pergunta: o que é que aconteceu na filosofia em meados dos séculos XIX, com o surgimento e afirmação do marxismo?

Aconteceu uma das mais importantes transformações em mais de dois séculos da sua história: tornou-se um sistema de conhecimento político-prático de «Estado». Cumpriu-se a predicação de Platão, grande pensador da antiguidade, que na sua obra, A República, escreveu:

«Enquanto os filósofos não forem reis nas cidades, ou aqueles que hoje denominamos reis e soberanos não forem verdadeira e seriamente filósofos, enquanto o poder político e a filosofia não convergirem num mesmo indivíduo, enquanto os muitos caracteres que actualmente perseguem um ou outro destes objectivos de modo exclusivo não forem impedidos de agir assim, não terão fim (…) os males das cidades».

Desde tempos imemoriais que a humanidade se coloca o problema da «união entre o poder e o conhecimento». Era indiscutível, em termos genéricos, que o poder devia ter a bênção da razão e apoiar-se na sua autoridade. Mas qual seria a natureza desse conhecimento, do qual imanasse a sanção da racionalidade e espiritualidade das instituições políticas e das acções políticas?
Durante milhares de anos a religião desempenhou a função de apoio intelectual e espiritual do poder. Mas no final do século XVIII – o século do iluminismo – o papel do pensamento religioso enquanto princípio racional da prática sociopolítica não só estava esgotado como seriamente comprometido, e as suas pretensões de continuar a orientar os processos sociopolíticos foram definitivamente rejeitadas.
Ao surgir na boca de cena da história mundial, a burguesia chamou a si as «ciências positivas» – as ciências naturais – com aliado prático-ideológico. Assim, segundo Sant-Simon, era necessário «terminar a revolução com o estabelecimento de um novo sistema político, baseado na indústria, como novo elemento temporal, e nas ciências experimentais, como novo elemento espiritual», confiar o poder temporal aos industriais e o poder espiritual aos cientistas.
Aliás, as «ciências positivas», logo às primeiras tentativas, revelaram-se não estar à altura da missão de «novo poder espiritual». Faltam-lhe claramente aquilo que permitiu à religião conservar durante tanto tempo o seu carácter insubstituível e indispensável: o debruçamento sobre o mundo interior do indivíduo e os seus princípios morais, sobre a questão do sentido da existência humana, tanto individual como colectiva.
Ludwig Feuerbach, o precursor mais próximo do marxismo captou e exprimiu com grande precisão a tendência da sua época: a concepção religiosa da organização harmoniosa e justa da sociedade como «reino de deus» devia «descer do céu à terra», transformar esse reino, como afirmou Feuerbach, «de objecto de crença inútil e passiva em objecto de actividade humana», em objecto da luta revolucionária determinada por um futuro melhor.

E finalmente ecoou a definição de Marx de revolução proletária como a grandiosa histórico-universal «emancipação do homem»: «A filosofia é a cabeça desta emancipação e o proletariado o seu coração». E assim foi continuado o caminho da filosofia para a sua reunião com o poder de Estado.
Os fundadores do comunismo científico basearam-se no sistema de Hegel que, naquele tempo, constituía inquestionavelmente o cume do conhecimento filosófico, apesar de ter sido necessário «virá-lo dos pés à cabeça» de forma materialista. No que respeita ao método dialéctico de Hegel, as suas possibilidades heurísticas eram literalmente de cortar a respiração.
Nem V.I. Lénine nem I.V. Stáline se desviaram minimamente destas clarividentes indicações marxistas; nem um nem outro eram iletrados em filosofia, como tentam hoje apresentá-los; nada disso, ambos ombreiam com Platão e Hegel. Como rejubilaria Platão ao ler a primeira frase do texto de Stáline Sobre o Materialismo Dialéctico e o Materialismo Histórico: «O materialismo dialéctico é a concepção do mundo do partido marxista-leninista».
Ora o partido é a força dirigente do Estado. Eis pois unidos num todo o poder estatal e a filosofia. Em dada altura apresentaram as formulações de Stáline como óbvias e entediantes até ao bocejo, como uma espécie de tabuada. Mas na realidade trata-se de uma elaboração conceptual de enorme dimensão e importância.
Ouçamos mais um pouco Stáline.

«O materialismo histórico é a aplicação das teses do materialismo dialéctico ao estudo da vida da sociedade e dos seus fenómenos, ao estudo da sociedade».
«Não é difícil compreender a enorme importância da generalização dos princípios do método dialéctico ao estudo da vida social, ao estudo da história da sociedade, a enorme importância da sua aplicação à história da sociedade e à acção prática do partido do proletariado». 
«Se o mundo está em incessante movimento e desenvolvimento, se a lei deste desenvolvimento é a agonia do que é velho e o crescimento do que é novo, então é claro que não há regimes sociais “inabaláveis”, “princípios eternos” da propriedade privada e da exploração ou “ideias eternas” de submissão dos camponeses aos latifundiários e dos operários aos capitalistas.
«Isto significa que o regime capitalista pode ser substituído pelo regime socialista, tal como o regime capitalista substituiu no seu tempo o regime feudal.
«Isto significa que devemos orientarmo-nos não para aquelas camadas da sociedade que esgotaram o seu potencial de desenvolvimento, muito embora representem no momento actual a força dominante, mas para as camadas sociais que se desenvolvem e têm futuro, apesar de não representarem no momento actual a força dominante.»
«Se a passagem das mudanças quantitativas lentas às mudanças qualitativas rápidas e bruscas constitui uma lei do desenvolvimento, então é claro que as transformações revolucionárias realizadas pelas classes oprimidas constituem um fenómeno absolutamente natural e inevitável.
«Isto significa que a passagem do capitalismo ao socialismo, e a emancipação da classe operária do jugo capitalista, pode realizar-se (…) não por via de reformas, mas unicamente por via da transformação qualitativa do regime capitalista, por via da revolução.(…)
«Se o desenvolvimento se efectua por via da revelação das contradições internas, por via da confrontação de forças opostas que estão na base destas contradições com vista à sua superação, então é claro que a luta de classes do proletariado constitui um fenómeno perfeitamente natural e inevitável.
«Isto significa que não se deve dissimular as contradições do regime capitalista, mas sim revelá-las e expô-las, não se deve abafar a luta de classes, mas sim levá-la até ao fim.
(…) É preciso seguir uma política proletária de classe intransigente, e não uma política reformista de harmonia de interesses entre o proletariado e a burguesia, e não uma política conciliadora de “integração” do capitalismo no socialismo».

A geração mais velha recorda-se e a juventude de esquerda deve saber que este magnífico trabalho de I. V. Stáline foi sujeito à mais bárbara difamação após a sua morte.
«Rotineiro», «escolástico», «dogmático», «primitivo» e outras invencionices dos sobreviventes ideológicos que, graças a Khruchov, chegaram a postos de direcção e acederam às páginas da imprensa de grande tiragem, já sem necessidade, em grande medida, de se fingirem revolucionários e «marxistas-leninistas».
Mas se era assim tão «primitivo», então para quê massacrá-lo dessa forma? Deixassem-no em paz e dedicassem-se à «ciência autêntica». Mas qual? Aferraram-se como cães raivosos. Naturalmente não porque estavam perante algo rotineiro e primitivo, mas precisamente porque se tratava da própria lógica da acção revolucionária de classe do proletariado, cujo domínio tornaria invencível o estado proletário.

A partir de meados dos anos 60 (se não antes) a nossa filosofia académica aplicou-se afincadamente em fazer tombar a ciência filosófica soviética das alturas estratégicas, em que se podia consolidar historicamente graças aos trabalhos dos marxistas convictos V.I Lénine e I.V. Stáline.
Agitaram toda sujidade e lixo que os ideólogos burgueses dos mais diversos matizes haviam lançado sobre o marxismo, desde que compreenderam que a revolução das massas laboriosas tinha adquirido uma filosofia de altíssimo quilate como sua cabeça.
Em grande medida, é precisamente à direcção académica (todos esses Fedosséiev, Rumiántsev, Mitíne, Konstantínov, Kedrov, Egorov e outros da sua igualha) que o partido e o povo devem o facto de, no auge da guerra informativa-intelectual, a nossa sociedade ter perdido completamente a perspectiva estratégica, historicamente objectiva, e, em vez do comunismo planeado, nos termos encontrado na situação ignominiosa de um país destroçado, desmantelado em que se consumou e consolidou a sua ocupação.
Olhemos num relance para estas quase três décadas deste frenesim anti-stalinista que nos conduziu a semelhante fim. Falamos de anti-stalinismo, mas tal significa também anti-leninismo e anti-marxismo.
Stáline afirmou que a filosofia materialista dialéctica é a concepção do mundo do nosso partido. Ripostaram que tal era impossível e nunca poderia acontecer. Exactamente porque, diziam, a filosofia em geral não é de modo algum uma concepção do mundo. Como assim?
Pois foi assim. E começaram a agitar nas páginas das prestigiadas publicações académicas, das tribunas das conferências nacionais e internacionais, pedaços de velharias positivistas com mofo de cem anos, para demonstrar que a filosofia não é uma ciência sobre o mundo no seu todo, mas apenas sobre o conhecimento; é a teoria do conhecimento, a gnoseologia.
Um desses «académicos» chamado Kedrov esforçou-se de todas as maneiras para inundar a imprensa académica e partidária com este disparate. O próprio Lénine teria dito que não era preciso três palavras: dialéctica, lógica e gnoseologia. Tudo isso era a mesma coisa. E a dialéctica seria o mesmo que materialismo dialéctico: portanto, o materialismo dialéctico seria a gnoseologia, a teoria do conhecimento.

Bom, em primeiro lugar, o materialismo dialéctico não é de todo a mesmo coisa que a simples dialéctica. Como referiu Stáline, mais uma vez, a filosofia materialistadialéctica inclui, para além do método dialéctico, também a interpretação materialista dos fenómenos da natureza, a teoria materialista.
Em segundo lugar, quando falou da «inutilidade de três palavras», Lénine referia-se a uma coisa totalmente diferente. Quis dizer que na velha lógica formal, que analisa o conhecimento estático, «parado», imobilizado, era necessária ainda uma disciplina específica que analisasse o conhecimento em movimento, ou seja, em correlação com o objecto exterior, uma vez que sem se correlacionar com o objecto, o conhecimento não pode avançar. Esta disciplina especial é a gnoseologia.
Mas quando tomamos a nova lógica dialéctica, não precisamos de quaisquer complementos, uma vez que, por definição, ela analisa logo o conhecimento em desenvolvimento, numa correlação permanente com o objecto. Então o mundo objectivo por si próprio expõe-se à análise numa correlação permanente com o conhecimento humano e com outros tipos de representação. Segundo V.I. Lénine, a dialéctica enquanto lógica torna-se na «doutrina não das formas exteriores do pensar, mas das leis do desenvolvimento “de todas as coisas materiais, naturais e espirituais”, isto é, do desenvolvimento de todo o conteúdo concreto do mundo e do seu conhecimento.»
Vejam pois a intrujice: V.I. Lénine mete-lhes sob o nariz que a dialéctica é uma lógica com conteúdo, é a ciência sobre as leis do desenvolvimento de todas as coisas materiais, naturais e espirituais; eles em resposta repisam arrogantemente que a dialéctica é a teoria do conhecimento. E chegaram ao descaramento de nomear este palavreado de Kedrov como candidato ao Prémio Lénine.
                                         
Mas não ficaram por aqui. Tentaram demonstrar que o materialismo-dialéctico não pode ser a concepção do mundo do partido, desde logo porque, por princípio, não pode ser uma concepção do mundo. Sim, não se admire quem ouvir isto pela primeira vez. Com toda a seriedade, foram arrastando esta fantasia na revista Voprossi Filosófii. Não pode haver nenhuma concepção do mundo porque o mundo não existe como um todo.
Ora Stáline tinha escrito que «a dialéctica concebe a natureza não como uma acumulação acidental de objectos e fenómenos, desligados e isolados uns dos outros e não dependentes entre si, mas como um todo interligado e uno».8 Se Stáline tivesse escrito que o Volga desagua no Mar Cáspio, eles teriam demonstrado que o Volga desagua no Oceano Pacífico.

Poderão pensar, mas que diferença nos faz que o mundo exista ou não como um todo? Isso está muito longe da prática real da vida. Não, não está. Tudo isto está o mais perto possível da prática real da vida.
Se o mundo não existe como um todo, então não existe «um processo mundial uno», ao qual Lénine constantemente se referiu, não existe também «a universal conformidade a leis da Natureza em perpétuo movimento e desenvolvimento» (aliás esta formulação é também de Lénine), que penetra «de baixo a cima» toda a existência quer natural, quer social. Ora toda a doutrina marxista fundamenta-se exactamente nessa ideia de conformidade com as leis naturais, na ideia de que o comunismo não só é objectivamente alcançável, mas também objectivamente inevitável, pois decorre logicamente da «dialéctica objectiva como princípio de todo o ente» (é outra formulação de Lénine). E se logicamente, cientificamente, [o comunismo] não decorre de nada, então não pode decorrer, o que significa que alguém se enganou, e que o facto de terem tentado construí-lo na Rússia durante 70 anos não passou de uma loucura, de um ziguezague acidental na história, cujas raízes devem ser extirpadas, a sua memória apagada da memória das pessoas e ponto final.

De modo que, queridos amigos, a filosofia é uma ciência ardorosamente partidária, e não devemos enganar-nos com a sua aparentemente abstracção da azáfama mundana, tal como não se enganaram Lénine e Stáline. Ontem, algures no Instituto de Filosofia, zonzonavam contra a ideia de mundo como um todo, ninguém prestou atenção; hoje esse zonzom pode ter tais consequências que nos arrependeremos cem vezes por não termos dado ouvidos na altura própria.
Outra incursão anti-stalinista (vão todas no mesmo sentido) é a negação de toda a possibilidade de realizar uma sólida base cognitiva teórico-filosófica sobre a ideia da construção do socialismo e do comunismo, de modo a que, como afirmou Stáline, o socialismo deixe de ser um sonho sobre um futuro melhor da humanidade e se transforme numa ciência. 
Isto é um latido contra o materialismo histórico, definido por Stáline como a generalização das teses do materialismo dialéctico ao estudo dos fenómenos da vida social, e por Lénine, como a finalização de todo o edifício da filosofia materialista dialéctica marxista.
                                          
Lembrem-se com que êxtase (não há outra palavra) Stáline enumera as perspectivas que se abrem ao conhecimento social e à acção prática do partido do proletariado graças à aplicação dos princípios da dialéctica materialista.

Cai o dogma da «intangibilidade» dos regimes sociais exploradores, e tudo passa a ficar assente num sólido fundamento científico: a inevitabilidade de transformações revolucionárias realizadas pelas massas oprimidas, a substituição do capitalismo pelo socialismo, a legitimidade da luta de classe do proletariado e da revolução proletária, a rejeição da política conciliatória da «transformação» do capitalismo em socialismo, a linha da revelação e resolução corajosa das contradições dialécticas internas do desenvolvimento social. E não só nos países capitalistas, mas também no socialismo, como Stáline acrescenta com firmeza na obra Problemas Económicos do Socialismo na URSS.
E que pode contrapor o inimigo de classe, declarado ou oculto, a esta representação, em que as pessoas do trabalho adquirem uma arma eficaz temível, desenvolvida nos vários aspectos, para a sua luta emancipadora e transformação edificante do mundo?
Nada, à excepção de esforços furiosos para nos retirar essa arma conceptual das nossas mãos; o que foi e continua a ser hoje o objectivo e missão principal da guerra psico-informativa.
Por exemplo, a propósito do materialismo histórico, precisam de gritar incessantemente, até à histeria, que Stáline e Lénine são tamanhos monstros que de forma alguma se pode admitir a generalização da dialéctica materialista ao estudo da vida da sociedade. Que o materialismo histórico é meramente uma das ciências sobre a sociedade e não de todo a conclusão até ao topo da doutrina filosófica marxista.
A própria dialéctica como «doutrina sobre o desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e isenta de unilateralidade» foi substituída pela «teoria do equilíbrio» de Bogdánov-Bukhárine, agora «modernamente» designada de abordagem sistémica.
Para tal, divagaram longa e persistentemente em torno da noção de desenvolvimento, para lhe retirar o estatuto de «processo mundial uno», de «movimento em geral», de forma universal de movimento da matéria. Alegam que, além do desenvolvimento, muito mais acontece no mundo; sob um ponto de vista, o desenvolvimento parece ser um processo universal, mas, sob outro ponto de vista, é apenas um momento de estados estáveis, em equilíbrio. Assim, não será melhor tomar como fundamento estes estados de equilíbrio, homeostáticos?

No que respeita à contradição dialéctica como «fórmula» estrutural do desenvolvimento, tal como as leis de Newton no seu conjunto constituem a «fórmula» do movimento mecânico, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, nem se podia pensar sequer em aplicar seriamente este esquema, digamos, à economia política, como fez Stáline.
O ritual era o seguinte: num artigo «orientador» do Pravda ou num editorial de uma revista teciam-se falsos louvores, considerações vazias sobre a contradição, depois enchia-se meia revista com textos em que se demonstrava que as contradições agem apenas na esfera do conhecimento, na realidade objectiva não existem, ou se apresentava como contradição uma coisa qualquer que nada tinha a ver com a dialéctica ou com o simples bom senso.
Repito, arrancaram das mãos do partido e do povo a única arma que poderia trazer a vitória na guerra informativa-psicológica. E quando sentiram que tinham alcançado o seu objectivo, que tinham enchido as mentes de uma parte do povo com o seu lixo «filosófico», não se coibiram de troçar dele, do povo. A César o que é de César, ao serralheiro o que é do serralheiro. Assim motejava um grupo de «cientistas», liderado pelo doutor em ciências históricas Chkaratan, no jornal Izvéstia, de 25 de Outubro de 1989.

Lembrem-se de que o «Breve Curso de História do PCU(b)» era um manual político de massas. Só um «tirano» como Stáline foi capaz de explicar aos serralheiros e demais povo simples como se processava o desenvolvimento mediante a revelação das contradições internas ou quais eram as leis naturais da libertação da opressão capitalista. E para que precisam os serralheiros disso?
Eis o que escreve o conhecido economista Chmeliov no Literaturnaia Gazeta, de 26 de Julho de 1989: «As pessoas vivem mais facilmente com a chamada moral pequeno-burguesa do que com ideias “grandiosas e inspiradoras”». «Na sua essência toda a probidade humana é uma moral pequeno-burguesa. Ela não se guia pela aspiração de transformar a humanidade. E qual é o problema? Será que só é bom o que conduz às barricadas?». «Não bebas, não batas na mulher, não te assoes à toalha quando te convidarem para jantar» – pois, nem mais nem menos, estes são alguns exemplos de «valores humanos eternos», segundo Chmeliov.
Nós inquietamo-nos: mas por que razão o povo se degradou tanto, donde lhes vem essa falta de espiritualidade, esse cinismo, essa malvadez, essa vulgaridade pequeno-burguesa manifesta? Com efeito foram contagiados há 30 anos com a colaboração activa de diferentes «literatos», se assim posso dizer, de jornais e doutores de todas as ciências possíveis. Mas o povo não se deixará facilmente encher de sarna. Será muito mais fácil livrar o país das ovelhas sarnosas do que retirar ao povo «as ideias grandiosas e inspiradoras».

(...)É claro que será preciso regressar a tudo isto com a máxima a urgência e persistência. Quanto tempo se poderá continuar a enganar as pessoas, como se não houvesse solução para estas questões complexas, quando na realidade essa solução existe, está completamente preparada? Camaradas, a tarefa prioritária que temos pela frente é traçar com honestidade, rigor e objectividade o quadro da resistência popular comunista ao longo de toda a guerra psicoinformativa. Sem isso, nada conseguiremos… De modo que apelo a todos aqueles que compreendem o sentido e objectivo do que foi dito aqui a renunciarem ao papel de observadores externos. Apelo a colaborarem activamente connosco, de forma benevolente e corajosa, para realizarmos a tarefa que acabamos de apontar. Sem resolvermos esta questão, simplesmente não poderemos sair do beco em que nos encurralaram desde o final dos anos 80, e fizeram-no de forma bastante engenhosa.  
 
 
 
 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Ano Novo - Nova Crise/Crise Velha


Ano novo, crise nova
O ano começou com uma nova crise bolsista mundial. Apesar das flutuações, é claro que estamos perante uma nova convulsão do sistema financeiro internacional. Há um facto incontornável: as políticas de miséria para os povos, mas de subsídios para o grande capital financeiro (como os chamados programas de Quantitative Easing – QE que o banco central dos EUA procura agora reduzir), promovidas após 2008, não resolveram os problemas de fundo do sistema capitalista mundial: agravaram as dívidas e as bolhas especulativas, sem redinamizar a economia produtiva. Mas o capitalismo mundial já não funciona sem essas injecções de dinheiro fácil na veia. William White, ex-economista-chefe do BIS (o «banco dos banqueiros») e actual figura de destaque na OCDE é claro: «A situação hoje é pior do que era em 2007. Já foram usadas praticamente todas as nossas munições macro-económicas. […] As dívidas continuaram a avolumar-se durante os últimos oito anos e alcançaram níveis tais em todo o mundo que se tornaram uma fonte séria de problemas. Tornar-se-á óbvio na próxima recessão que muitas destas dívidas não serão [pagas] e isto será pouco confortável para muita gente que pensa que tem bens com valor» (Telegraph online, 19.1.16). O jornalista que obteve estas declarações na véspera da abertura do recente Fórum Económico Mundial de Davos acrescenta que o «QE e as políticas de dinheiro fácil da Reserva Federal dos EUA e seus congéneres» são uma espécie de «tóxico-dependência», em que se gasta hoje aquilo que não se possui, mas que «acaba por perder efeito» e o dia chega em que «não há dinheiro para gastar amanhã».
«Dinheiro fácil» só existiu para os grandes banqueiros e capitalistas. Na semana passada (18.1.16), a organização de caridade inglesa Oxfam publicou um relatório com o título «Uma economia para os 1%». Cita o gigante financeiro Credit Suisse para afirmar que os 1% mais ricos detêm hoje mais riqueza do que os restantes 99% da população mundial. A Oxfam acrescenta outros números impressionantes: em 2015, 62 indivíduos possuem a mesma riqueza que 3,6 mil milhões de pessoas (metade da população do planeta). Desde 2010, a riqueza destes 62 multi-milionários aumentou 44%, enquanto que para a metade mais pobre da Humanidade se verificou uma quebra de 41%. A crise não foi, seguramente, para todos. Não só não houve “sacrifícios repartidos”, como a crise do capitalismo foi usada para promover uma autêntica pilhagem de classe que engordou muito o grande capital à custa dos povos. Os orçamentos do Estado são usados para salvar os banqueiros (o Banif é o mais recente exemplo no nosso País), mas os banqueiros nem sequer pagam impostos para financiar os orçamentos do Estado. O Jornal de Negócios online publicou (12.12.16) uma notícia sobre o nosso País com o título «As 1000 famílias que mandam nisto tudo (e não pagam impostos)». Não é um problema só nosso. A Reuters noticiou (22.12.15) que «Sete dos maiores bancos de investimento que operam em Londres pagaram poucos ou nenhuns impostos na Grã-Bretanha no ano passado». Os sete referidos gigantes financeiros tiveram em 2014 lucros de 5,3 mil milhões de dólares naquele país, mas pagaram de imposto apenas 31 milhões, ou seja, menos de 0,006% dos seus lucros. Cinco dos sete nem pagaram um penny. Quem esteja à espera que o problema se resolva com «mais regulação» ou «mais Europa» bem pode esperar sentado: entre os sete mega-caloteiros encontra-se a Goldman Sachs, de onde saiu o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi.
A nova explosão de crise em 2016 vai agravar todas as já agudíssimas contradições no seio do capitalismo mundial. Conscientes de que uma nova ronda de «austeridade» para os trabalhadores e povos e «maná do céu» para os multimilionários não é compatível com a democracia, as liberdades e a paz, sectores importantes da classe dominante preparam a via da repressão, do autoritarismo e da guerra. Para os trabalhadores e povos não há outra opção, senão preparar-se para o embate.

(Artigo de Jorge Cadima, no "Avante!" Nº 2200, de 28/1/2016) 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Um testemunho histórico e corajoso - Lições para o presente e para o futuro (6)


Publica-se mais um texto desta autora que, como os anteriores, constitui um bom suporte para uma justa compreensão das razões mais decisivas que originaram a derrocada do PCUS e da União Soviética. Simultaneamente, são ensinamentos preciosos sobre o papel central que a democracia interna desempenha na "saúde" de um Partido Comunista e na sua capacidade (ou ausência dela) de replicar essa democraticidade de funcionamento no edifício político da sociedade socialista que visa construir.
Sem essa "saúde" interna - ensurdecendo e cegando perante os seus próprios militantes - e sem esse fundamental e imprescindível programa político socialista ("A democracia proletária é um milhão de vezes mais democrática que qualquer democracia burguesa"), um tal Partido Comunista é a negação do verdadeiro partido do proletariado, um partido condenado à derrota e arrastando na derrota os trabalhadores que diz querer representar e dirigir politicamente.  

Fica então abaixo um apontamento do pensamento de T. Khabarova:
 
"(...)Esse atraso no estabelecimento de esquemas democráticos específicos e verdadeiramente socialistas conduziu à perda do controlo sobre a cúpula dirigente por parte das massas do partido, e mais ainda pelas massas sem partido, ao total «bloqueio» de sinais de alarme das massas para a cúpula, o que criou condições para a degeneração, o aburguesamento das elites dirigentes em todos os níveis e à sua união com a «internacional» do imperialismo mundial, enquanto traidores e verdugos do seu próprio povo.(...)"
 
E quem assim falou - nos idos de 1994 - não gaguejou, honra lhe devemos prestar. Cuidemos nós do nosso presente e do que devemos programar e propor ao povo a que pertencemos para o futuro!


 
(http://www.hist-socialismo.com/docs/Khabarova_Causas_Derrota.pdf)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O imperialismo é isto


Sykes-Picot no Século XXI
Em 1916, diplomatas ingleses e franceses cozinharam um plano secreto de partilha do então Império Otomano (turco). Enquanto enganavam os árabes com promessas de independência, planeavam entre si o controlo da região (com umas migalhas para o czarismo russo). Após a Revolução Russa de 1917, o jovem poder soviético descobriu o acordo Sykes-Picot nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e revelou-o ao mundo. Um século depois, repetem-se os planos de partilha imperialista.
Há quase uma década (Junho 2006), o norte-americano Armed Forces Journal publicava um mapa que redesenhava as fronteiras do Médio Oriente. Desde então, as guerras imperialistas deram lugar à fragmentação do Iraque e Síria e ao surgimento do «Califado Islâmico» ou ISIS. Agora começam a surgir as confissões públicas semi-oficiais dos objectivos. O ex-Embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, escreveu (NY Times, 24.11.15) que «a realidade é que o Iraque e a Síria, tal como os conhecemos, já não existem». E falando do que chama o «eixo russo-iraniano e dos seus intermediários», afirma sem pestanejar: «o seu objectivo de recuperar para os governos iraquiano e sírio as antigas fronteiras é um objectivo fundamentalmente contrário aos interesses americanos, israelitas e dos estados amigos árabes». Não querendo ficar atrás, o chefe dos Serviços Secretos franceses para o Estrangeiro (DGSE), Bernard Bajolet afirmou: «o Médio Oriente que nós conhecemos acabou e duvido que ele volte […] não sei bem em que moldes. Mas seja como for, será com um figurino diferente do que foi estabelecido após a Segunda Guerra Mundial», quando esses países deixaram de ser colónias francesas e inglesas. O portal belga que reproduz estas afirmações (www.rtl.be, 28.10.15) acrescenta que «o director da CIA [John Brennan] exprimiu um ponto de vista semelhante». Igual objectivo foi expresso pelo ex-Ministro de Negócios Estrangeiros inglês, William Hague, falando na Câmara do Lordes em apoio dos bombardeamentos ingleses na Síria: «Devemos estar abertos a novas soluções. Ao fim e ao cabo, se as comunidades e dirigentes não conseguem viver em paz na Síria e no Iraque, teremos de tentar que vivam em paz, mas em separado, através da partição desses países» (BBC, 2.12.15). Repare-se no desplante de fingir que estamos perante um problema de indígenas incapazes de se governarem, que nada tem a ver com duas décadas de guerras, invasões e agressões, nas quais o imperialismo inglês desempenhou papel destacado.
A «coligação» mais parece a Força Aérea do ISIS
Os objectivos de dominação explicam o que de outra forma parece contraditório, como as alianças à la carte ou os pretextos para intervir na região: o governo inglês que em 2013 queria bombardear o governo sírio está agora a bombardear a Síria invocando a ameaça do ISIS... que combate o governo sírio. O pretexto é esse. A realidade é outra, como fica patente no cada vez mais claro papel da Turquia (potência da NATO) no apoio e tráficos que sustentam o ISIS. O governo sírio fez este mês queixa formal à ONU de que quatro aviões da «coligação anti-ISIS» chefiada pelos EUA bombardearam uma base do seu exército, «matando três soldados e ferindo 13» (www.cbc.ca, 7.12.15), numa «província em grande parte nas mãos do ISIL» (BBC, 7.12.15). Na semana passada, coube a sorte ao exército iraquiano em pleno combate contra o ISIS, que sofreu dezenas de baixas num ataque aéreo de aviões dos EUA (Press TV, 18.12.15). A «coligação anti-ISIS» dos EUA mais parece a Força Aérea do ISIS. Não surpreende assim que, como titulava o insuspeito Washington Post (1.12.15), «Iraquianos pensam que os EUA estão feitos com o Estado Islâmico».
O caos e o terrorismo são uma arma para justificar as guerras e agressões e, no plano interno, os estados de emergência e os mecanismos de repressão fora de controlo. Na raiz estão sempre os interesses económicos e de classe do grande capital. O imperialismo é isto.
 
Jorge Cadima in "Avante!" N.º 2195
23.Dezembro.2015        

sábado, 7 de novembro de 2015

Viva a Revolução (bolchevique) de 7 de Novembro de 1917!


Tal como a gesta heróica da classe operária parisiense, em 1871, com a revolucionária criação da Comuna de Paris, menos de meio século depois, nesta data histórica do 7 de Novembro de 1917, tinha lugar a Revolução de Outubro na velha Rússia czarista. De um ponto de vista marxista-leninista, pelo seu carácter transformador da marcha da evolução humana, são os dois maiores acontecimentos na História Mundial dos séculos XIX e XX. Tendo ambos por protagonista maior a classe operária - primeiro a francesa e depois a russa -, à cabeça de grandes movimentos sociais dos explorados contra os seus exploradores, ficaram gravados a fogo nas páginas da luta de classes, luta constante e permanente que constituiu o verdadeiro motor na caminhada da Humanidade para a sua real e completa emancipação.
A Revolução de Outubro, iniciada como todas as revoluções por uma insurreição popular dirigida pela classe operária e o seu partido de classe, com uma direcção bolchevique orientada pelas teses leninistas, rapidamente ganhou o apoio entusiástico do operariado russo que, não obstante amplamente minoritário numa população maioritariamente camponesa, venceu as resistências das classes exploradoras e, com o apoio das classes e camadas exploradas e dominadas pela aristocracia e a grande burguesia russas, operou a maior transformação social e política nunca antes experimentada na vida dos povos, na vida do povo russo imediatamente e depois irradiando como exemplo luminoso para os povos de todos os continentes.


O gatilho que fez deflagrar a revolução bolchevique e garantiu o seu êxito e aprofundamento foi o criador e revolucionário sistema do exercício do poder político pelos sovietes, a nova organização do poder operário e popular com dimensão de massas. "Todo o poder aos Sovietes!", foi a palavra de ordem radical lançada pelo partido de Lenine, iniciando-se com ela a destruição do Estado burguês e o desmantelamento das suas instituições ditas "do direito" e "democráticas", com a sua substituição pelo exercício de um poder simultaneamente representativo e executivo, executante directo dos interesses de classe das classes e camadas até aí exploradas e submetidas aos poderes do Estado burguês. Uma democracia política de massas, amplamente representativa e participada no seu dia a dia por milhões de trabalhadores-cidadãos, segundo as palavras de Lenine mil vezes mais democrática que a mais democrata das democracias parlamentares burguesas.


Defrontando a resistência encarniçada das classes antes dominantes, ganhando o confronto militar que se seguiu, tanto numa cruenta guerra civil como derrotando os exércitos invasores das potências imperialistas da época; duas décadas depois, em imparável processo de construção da nova sociedade socialista, foi capaz de mobilizar o povo e os meios materiais para derrotar o principal e mais forte componente estratégico dos exércitos nazis hitlerianos; deste modo, a nova pátria socialista soviética sobreviveu, consolidou-se e passou a disputar ao imperialismo o papel deste de força hegemónica mundial, alcançando-o e ultrapassando-o nos variados domínios - militar, científico, tecnológico, económico, social, político -, constituindo-se como um exemplo e um estímulo para o combate de classes, inspirando novas revoluções e a criação de novos países socialistas.


A marcha da História, após o desaparecimento das gerações dirigentes de Outubro e a sua substituição, a partir do Krushchev, por dirigentes reformistas e revisionistas, encaminharam a pátria de Lenine para a conciliação de classes, para políticas económicas de restauração do capitalismo mascarado de "socialismo de mercado", para a liquidação do poder popular soviético e sua substituição por uma clique de possidentes oportunistas que se foram progressivamente desmascarando da sua auto-proclamada condição de "comunistas" e isolando crescentemente esse poder "soviético" das massas operárias e trabalhadoras. O golpe dos anticomunistas Gorbatchov e Ieltsine foi a machadada final no socialismo, desarmando as forças comunistas sãs e entregando a rendição do Partido Comunista da União Soviética ao imperialismo, abrindo caminho à contra-revolução e à restauração do sistema capitalista nos diversos países europeus até aí ditos ainda socialistas.
A acção conjugada e ardilosamente construída entre os traidores internos e os inimigos externos, ditou a catástrofe histórica da destruição do campo socialista, deixando o terreno da arena internacional entregue ao restauracionismo neoliberal e neofascista, contra o qual um punhado de países procura ainda resistir, a par com os partidos comunistas que continuam o seu combate em fidelidade aos ensinamentos ideológicos e políticos dos criadores clássicos do Marxismo-Leninismo.
 
Quase a completar-se um século após a grande Revolução de Outubro, formulemos firmes votos que esse Centenário seja cuidadosamente preparado pelos comunistas e venha a ser comemorado com a seriedade revolucionária, o respeito, a dignidade e a relevância que deverá ter. Em tempos tempestuosos e exigentes, marcados pelas deserções e pelos posicionamentos oportunistas de tantos pseudo-comunistas, o combate vitorioso e o exemplo imorredouro de Outubro aí continua vivo e vivificante, iluminando os nossos caminhos para a revolução, rumo ao Socialismo.
Se é uma verdade sem contestação que não basta desejar a revolução para que ela ocorra, é igualmente uma verdade indesmentível que para a realizar é indispensável haver quem acredite no caminho para ela e quem verdadeiramente a queira e tudo faça para concretizá-la. Grande teórico da Revolução, a maior obra do legado de Lenine foi a sua realização prática.

Viva a Grande Revolução de Outubro! Viva o marxismo-leninismo!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um testemunho histórico e corajoso - Lições para o presente e para o futuro (5)



Retoma-se a transcrição de mais um texto de Tatiana Khabarova, desdizendo-se assim o que se anunciou aquando da publicação do texto anterior (4) da mesma autora,  como sendo de "encerramento".

Referenciar e transcrever esta "Carta a Suslov", nestes nossos tempos e decorridos quase quarenta anos de História sobre a sua escrita, surge como um imperativo de solidariedade e de camaradagem para com a sua autora.
De facto, na linha de outras corajosas intervenções desta comunista, uma lutadora pelo defesa dos ideais comunistas e do seu país, à época ainda socialista e hoje já destruído, este texto de T. Khabarova desvenda, simultaneamente, as práticas anti-leninistas da direcção do PCUS quanto à denegação da democracia - a interna no funcionamento do Partido e a socialista para todo o povo soviético - e as políticas revisionistas e oportunistas de direita, assentes em erradas visões económico-cientificistas, desprezando totalmente a ideologia dos proletários, com práticas económicas e sociais "universalizantes", cujo desfecho só poderia vir a ser - como se consumou com os gorbatchovianos - o enterro do Socialismo.

Em dois parágrafos talvez se possa sintetizar o pensamento da autora, o segundo deles uma citação de Lenine:

"(...)– muito pior é o entravamento do nosso desenvolvimento democrático, a hiper-trofia sem precedentes na história do Estado soviético da «perversão elitista», a ponto de se assistir a uma monopolização paralisante das mais importantes funções administrativas por uma casta degenerada interna, não removível através das vias legalmente estabelecidas, e que não presta contas nem é controlável pelas massas laboriosas.(...)"

"(…) Devemos compreender – escreveu I.V. Lénine em «Significado do materialismo militante» – que sem uma sólida fundamentação filosófica não há ciência da natureza, nem materialismo que possa suportar a luta contra a investida das ideias burguesas e o restabelecimento da concep-ção burguesa do mundo. Para sustentar essa luta e levá-la com pleno êxito até ao fim, o cientista deve ser um materialista moderno, um partidário consciente da-quele materialismo que é representado por Marx, isto é, deve ser um materialista dialéctico. Para atingir esse fim, os colaboradores da revista Pod Známiniem Marksizma devem organizar o estudo sistemático da dialéctica de Hegel do ponto de vista marxista, isto é, da dialéctica que Marx aplicou praticamente tanto no seu O Capital como nos seus trabalhos históricos e políticos, e aplicou com tal êxito que actualmente (…) cada dia do despertar para a vida de novos povos e novas classes confirma cada vez mais o marxismo.(...)"

O texto integral desta carta está publicado aqui:

http://www.hist-socialismo.com/docs/Khabarova_Carta_Suslov.pdf

Destruído pela mão daqueles que se diziam comunistas e seus camaradas, a derrocada do socialismo na Europa está premonitoriamente anunciada nas críticas certeiras e frontais contidas nesta carta que Tatiana Khabarova dirigiu ao membro da Comissão Política e do Secretariado do CC do seu Partido, M.A. Suslov.
Lê-la e reflectir sobre o seu conteúdo e significado histórico, eis um útil e oportuno exercício para todos os que se reclamam depositários e praticantes da teoria e da prática de Marx e Lenine.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Povo Português no Labirinto


No Dédalo
Dédalo, na mitologia da Grécia Antiga, era um arquitecto e inventor prodigioso, que construiu o labirinto de Creta sob encomenda do rei Minos para esconder o Minotauro, monstro de corpo humano e cabeça de touro que, por determinação de Poseidon, rei dos mares (e por razões que não vêm ao caso), todos os anos devorava sete rapazes e sete raparigas oferecidos pela cidade de Atenas, em sacrifício ritual (foi Teseu, um jovem ateniense, que penetrou no labirinto, matou o monstro e acabou com a maldição, mas isso é já outra história).
O Labirinto (ou Dédalo) era aparentemente inextricável e quem nele penetrasse já de lá não saía (Teseu utilizou um novelo de lã para recuar e sair, após matar o Minotauro).
É o que está a suceder ao povo português – ser de novo encaminhado para o Labirinto, tangido como um rebanho pelas atenciosas campanhas eleitorais do PS e do PAF (que é como quem diz do PSD e CDS). E de lá não costumam sair, os portugueses, nas sucessivas campanhas eleitorais, estentoreamente assediados com promessas, melifluamente reconhecidos com certificados de honradez, de dignidade, de patriotismo, de lucidez, de bom senso, de coragem e de profunda e atávica «inteligência sábia do povo», tudo tonitroantemente certificado pelas lideranças do PS e do PAF, deixando o povo ainda mais perdido no seu labirinto.
No final das eleições, de repente os portugueses vêem o enxame dos promitentes políticos do PS e do PAF desaparecidos em parte incerta, as promessas panfletárias reduzidas a prospectos manhosos e amarrotados, que já só podem servir para embrulhar peixe – se peixe houver para embrulhar – e a desolação do costume espraia-se pela paisagem, tendo por notas de vida e de ânimo as árvores e os rios, os caminhos e as quebradas, as ruas e os becos, os bosques e as praias, as ventanias da serra, a brisa dos pinhais e a aragem marítima, que fielmente acompanham o quotidiano dos portugueses.
Entretanto, a miséria e a exploração costumeira regressam, reactivadas, por acção da nova maioria – por outros encantos (estes de demagogia pura) eleita o novo «Governo da nação».
Tem sido assim desde há 39 anos, PS e PAF alternando-se na missão persistente de degradar sempre mais os valores da vida democrática portuguesa criados com a Revolução de Abril, numa espécie de Tico e Teco do nosso descontentamento, ora um ora outro para nos infernizar a vida, mais e mais.
Neste Dédalo, onde PS e PAF regularmente enfiam os portugueses, o Minotauro é colocado de fora, mito assustador que empurra o povo para o abrigo do labirinto, onde o trio dos lidadores espera manejá-los, sempre a bel-prazer.
Mas cuidado com os mitos. Acordam sempre. E um dia o povo português verá que o Minotauro não existe, desfazendo o Dédalo onde o lidaram durante décadas.
(Henrique Custódio, in "Avante!, N.º 2181
17 Setembro.2015)