SÓ NÃO SE ENGANA QUEM CEDE AO MEDO DE CAMINHAR NO DESCONHECIDO - SÓ SE PERDE AQUELE QUE NÃO ESTÁ SEGURO DO RUMO QUE ESCOLHEU.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Álvaro Cunhal (10 Novembro 1913 - 13 Junho 2005)


(...) A estrutura socioeconómica do capitalismo monopolista é a determinante da exploração dos trabalhadores e da maioria esmagadora da população, da degradação da situação social, da ausência de uma política cultural democrática, da limitação às liberdades e direitos dos cidadãos e das medidas de violenta repressão. No tempo do fascismo como actualmente.

Negar, ocultar, ignorar ou omitir esta realidade objectiva da economia capitalista é criar fortes ilusões e deixar terreno mais livre à consolidação e mesmo institucionalização em termos constitucionais do poder económico e político efectivo do capital financeiro, dos grandes grupos económicos, das transnacionais.

A actual restauração do capitalismo monopolista e do poder dos monopólios (uma vez mais associados em posição de subalternidade ao capital estrangeiro) e dos latifundiários não encerra porém a história. O futuro de Portugal democrático e independente exigirá que tal estrutura não se solidifique, sofra limitações, seja combatida e seja finalmente superada e substituída.(...)

(Trechos do prefácio de Álvaro Cunhal para o I volume da edição dos materiais do IV Congresso do PCP,  da parte intitulada "A estrutura socioeconómica determinante da política do poder",  publicados em "O Militante", Nº 283 - Jul/Ago 2006.)


terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma lição intemporal. Lénine e as formas de luta.


"Comecemos pelo começo. Quais são as exigências fundamentais que qualquer marxista deve apresentar ao exame da questão das formas de luta? Em primeiro lugar, o marxismo distingue-se de todas as formas primitivas de socialismo pelo facto de ele não amarrar o movimento a qualquer forma determinada e única de luta. Ele reconhece as mais diferentes formas de luta, e além disso não as «inventa», mas apenas generaliza, organiza, dá consciência àquelas formas de luta das classes revolucionárias que surgem por si no curso do movimento. Absolutamente hostil a todas as fórmulas abstractas, a todas as receitas doutrinárias, o marxismo exige uma atitude atenta em relação à luta de massas em curso, a qual, com o desenvolvimento do movimento, com o crescimento da consciência das massas, com a agudização das crises económicas e políticas, gera métodos sempre novos e cada vez mais diversos de defesa e de ataque. Por isso o marxismo não renuncia absolutamente a nenhumas formas de luta. O marxismo não se limita em nenhum caso às formas de luta possíveis e existentes apenas num dado momento, reconhecendo a inevitabilidade de novas formas de luta, desconhecidas dos participantes do período dado, com a modificação da conjuntura social dada. O marxismo neste aspecto aprende, se assim nos podemos exprimir, com a prática das massas, está longe da pretensão de ensinar às massas formas de luta inventadas por «sistematizadores» de gabinete.(...)
 
Trata-se do 1º parágrafo de um texto de Lenine, escrito em 1906, sobre a adopção ou não das formas de luta armada pelo Partido dos comunistas russos, onze anos antes da grande Revolução de Outubro de 1917, cujo conteúdo integral está aqui: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1906/09/30.htm
 
Discutindo a aplicação da guerra de guerrilhas à luta dos comunistas, este texto é uma magnífica e intemporal lição para todos nós, seus herdeiros ideológicos, cujo dever indeclinável é avaliar todas as formas de luta nas condições concretas dadas e, simultaneamente, não "perdendo o pé" da realidade e não rejeitando qualquer forma de combate por sujeição a "receitas doutrinárias" e razões alheias à obrigação básica dos revolucionários - fazer a revolução. 
 
Seguindo estes preciosos ensinamentos de Lenine, para quem combate as concepções oportunistas de direita, defendidas por falsos marxistas-leninistas que propagandeiam a via reformista parlamentar burguesa para o Socialismo, para todos quantos temos por objectivo a liquidação do sistema capitalista e a sua substituição por um sistema novo, socialista e comunista, duas preposições são certamente  básicas: a) a revolução não é só um momento insurrecional e de viragem radical e transformadora, mas sim um processo político revolucionário contínuo, em ligação dialéctica com a marcha dos povos; b) neste processo revolucionário - com períodos de ascenso/descenso e intensidade diferenciados no tempo mas sem divisórias artificiais, conceptualizadas pelos referidos "sistematizadores de gabinete" dos tempos actuais - as formas da luta política das massas trabalhadoras e populares vão sendo adequadas às condições existentes (objectivas e subjectivas), sem exclusão "à priori" de nenhuma delas.
 

sábado, 5 de março de 2016

Tatiana Khabarova e a importância da Filosofia na luta de classes


No combate político das classes, parte importante da luta ideológica que os comunistas travam fundamenta-se nos alicerces filosóficos do marxismo-leninismo.
Daí o interesse da publicação deste novo texto de Tatiana Khabarova (Secretária-coordenadora da Plataforma Bolchevique no PCUS, doutorada em Ciências Filosóficas)  intitulado "O marxismo e o bolchevismo na URSS pós-Stáline: torpor e ruptura",  proferido em 4 de Dezembro de 2009.

Texto integral aqui http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt/o-marxismo-e-o-bolchevismo-na-urss-45473


(...) III - Falemos agora daquilo a que, no nosso trabalho de esclarecimento, infelizmente, não prestamos a devida atenção: trata-se de questões propriamente filosóficas. Isto apesar de ser doutorada não em ciências económicas, mas filosóficas, e apesar no campo da filosofia terem sido colocados tantos paus na engrenagem, ao longo da guerra informativa-psicológica, que pela sua nocividade não ficaram muito atrás das «reformas» de Liberman ou do «Programa» de construção do comunismo até 1980.
Perguntareis: mas que malandrice se pode fazer na filosofia? Há muitas malandrices que se podem fazer. Não foi por acaso que V.I. Lénine escreveu o livro Materialismo e Empiriocriticismo nas vésperas da revolução russa.
Comecemos com uma pergunta: o que é que aconteceu na filosofia em meados dos séculos XIX, com o surgimento e afirmação do marxismo?

Aconteceu uma das mais importantes transformações em mais de dois séculos da sua história: tornou-se um sistema de conhecimento político-prático de «Estado». Cumpriu-se a predicação de Platão, grande pensador da antiguidade, que na sua obra, A República, escreveu:

«Enquanto os filósofos não forem reis nas cidades, ou aqueles que hoje denominamos reis e soberanos não forem verdadeira e seriamente filósofos, enquanto o poder político e a filosofia não convergirem num mesmo indivíduo, enquanto os muitos caracteres que actualmente perseguem um ou outro destes objectivos de modo exclusivo não forem impedidos de agir assim, não terão fim (…) os males das cidades».

Desde tempos imemoriais que a humanidade se coloca o problema da «união entre o poder e o conhecimento». Era indiscutível, em termos genéricos, que o poder devia ter a bênção da razão e apoiar-se na sua autoridade. Mas qual seria a natureza desse conhecimento, do qual imanasse a sanção da racionalidade e espiritualidade das instituições políticas e das acções políticas?
Durante milhares de anos a religião desempenhou a função de apoio intelectual e espiritual do poder. Mas no final do século XVIII – o século do iluminismo – o papel do pensamento religioso enquanto princípio racional da prática sociopolítica não só estava esgotado como seriamente comprometido, e as suas pretensões de continuar a orientar os processos sociopolíticos foram definitivamente rejeitadas.
Ao surgir na boca de cena da história mundial, a burguesia chamou a si as «ciências positivas» – as ciências naturais – com aliado prático-ideológico. Assim, segundo Sant-Simon, era necessário «terminar a revolução com o estabelecimento de um novo sistema político, baseado na indústria, como novo elemento temporal, e nas ciências experimentais, como novo elemento espiritual», confiar o poder temporal aos industriais e o poder espiritual aos cientistas.
Aliás, as «ciências positivas», logo às primeiras tentativas, revelaram-se não estar à altura da missão de «novo poder espiritual». Faltam-lhe claramente aquilo que permitiu à religião conservar durante tanto tempo o seu carácter insubstituível e indispensável: o debruçamento sobre o mundo interior do indivíduo e os seus princípios morais, sobre a questão do sentido da existência humana, tanto individual como colectiva.
Ludwig Feuerbach, o precursor mais próximo do marxismo captou e exprimiu com grande precisão a tendência da sua época: a concepção religiosa da organização harmoniosa e justa da sociedade como «reino de deus» devia «descer do céu à terra», transformar esse reino, como afirmou Feuerbach, «de objecto de crença inútil e passiva em objecto de actividade humana», em objecto da luta revolucionária determinada por um futuro melhor.

E finalmente ecoou a definição de Marx de revolução proletária como a grandiosa histórico-universal «emancipação do homem»: «A filosofia é a cabeça desta emancipação e o proletariado o seu coração». E assim foi continuado o caminho da filosofia para a sua reunião com o poder de Estado.
Os fundadores do comunismo científico basearam-se no sistema de Hegel que, naquele tempo, constituía inquestionavelmente o cume do conhecimento filosófico, apesar de ter sido necessário «virá-lo dos pés à cabeça» de forma materialista. No que respeita ao método dialéctico de Hegel, as suas possibilidades heurísticas eram literalmente de cortar a respiração.
Nem V.I. Lénine nem I.V. Stáline se desviaram minimamente destas clarividentes indicações marxistas; nem um nem outro eram iletrados em filosofia, como tentam hoje apresentá-los; nada disso, ambos ombreiam com Platão e Hegel. Como rejubilaria Platão ao ler a primeira frase do texto de Stáline Sobre o Materialismo Dialéctico e o Materialismo Histórico: «O materialismo dialéctico é a concepção do mundo do partido marxista-leninista».
Ora o partido é a força dirigente do Estado. Eis pois unidos num todo o poder estatal e a filosofia. Em dada altura apresentaram as formulações de Stáline como óbvias e entediantes até ao bocejo, como uma espécie de tabuada. Mas na realidade trata-se de uma elaboração conceptual de enorme dimensão e importância.
Ouçamos mais um pouco Stáline.

«O materialismo histórico é a aplicação das teses do materialismo dialéctico ao estudo da vida da sociedade e dos seus fenómenos, ao estudo da sociedade».
«Não é difícil compreender a enorme importância da generalização dos princípios do método dialéctico ao estudo da vida social, ao estudo da história da sociedade, a enorme importância da sua aplicação à história da sociedade e à acção prática do partido do proletariado». 
«Se o mundo está em incessante movimento e desenvolvimento, se a lei deste desenvolvimento é a agonia do que é velho e o crescimento do que é novo, então é claro que não há regimes sociais “inabaláveis”, “princípios eternos” da propriedade privada e da exploração ou “ideias eternas” de submissão dos camponeses aos latifundiários e dos operários aos capitalistas.
«Isto significa que o regime capitalista pode ser substituído pelo regime socialista, tal como o regime capitalista substituiu no seu tempo o regime feudal.
«Isto significa que devemos orientarmo-nos não para aquelas camadas da sociedade que esgotaram o seu potencial de desenvolvimento, muito embora representem no momento actual a força dominante, mas para as camadas sociais que se desenvolvem e têm futuro, apesar de não representarem no momento actual a força dominante.»
«Se a passagem das mudanças quantitativas lentas às mudanças qualitativas rápidas e bruscas constitui uma lei do desenvolvimento, então é claro que as transformações revolucionárias realizadas pelas classes oprimidas constituem um fenómeno absolutamente natural e inevitável.
«Isto significa que a passagem do capitalismo ao socialismo, e a emancipação da classe operária do jugo capitalista, pode realizar-se (…) não por via de reformas, mas unicamente por via da transformação qualitativa do regime capitalista, por via da revolução.(…)
«Se o desenvolvimento se efectua por via da revelação das contradições internas, por via da confrontação de forças opostas que estão na base destas contradições com vista à sua superação, então é claro que a luta de classes do proletariado constitui um fenómeno perfeitamente natural e inevitável.
«Isto significa que não se deve dissimular as contradições do regime capitalista, mas sim revelá-las e expô-las, não se deve abafar a luta de classes, mas sim levá-la até ao fim.
(…) É preciso seguir uma política proletária de classe intransigente, e não uma política reformista de harmonia de interesses entre o proletariado e a burguesia, e não uma política conciliadora de “integração” do capitalismo no socialismo».

A geração mais velha recorda-se e a juventude de esquerda deve saber que este magnífico trabalho de I. V. Stáline foi sujeito à mais bárbara difamação após a sua morte.
«Rotineiro», «escolástico», «dogmático», «primitivo» e outras invencionices dos sobreviventes ideológicos que, graças a Khruchov, chegaram a postos de direcção e acederam às páginas da imprensa de grande tiragem, já sem necessidade, em grande medida, de se fingirem revolucionários e «marxistas-leninistas».
Mas se era assim tão «primitivo», então para quê massacrá-lo dessa forma? Deixassem-no em paz e dedicassem-se à «ciência autêntica». Mas qual? Aferraram-se como cães raivosos. Naturalmente não porque estavam perante algo rotineiro e primitivo, mas precisamente porque se tratava da própria lógica da acção revolucionária de classe do proletariado, cujo domínio tornaria invencível o estado proletário.

A partir de meados dos anos 60 (se não antes) a nossa filosofia académica aplicou-se afincadamente em fazer tombar a ciência filosófica soviética das alturas estratégicas, em que se podia consolidar historicamente graças aos trabalhos dos marxistas convictos V.I Lénine e I.V. Stáline.
Agitaram toda sujidade e lixo que os ideólogos burgueses dos mais diversos matizes haviam lançado sobre o marxismo, desde que compreenderam que a revolução das massas laboriosas tinha adquirido uma filosofia de altíssimo quilate como sua cabeça.
Em grande medida, é precisamente à direcção académica (todos esses Fedosséiev, Rumiántsev, Mitíne, Konstantínov, Kedrov, Egorov e outros da sua igualha) que o partido e o povo devem o facto de, no auge da guerra informativa-intelectual, a nossa sociedade ter perdido completamente a perspectiva estratégica, historicamente objectiva, e, em vez do comunismo planeado, nos termos encontrado na situação ignominiosa de um país destroçado, desmantelado em que se consumou e consolidou a sua ocupação.
Olhemos num relance para estas quase três décadas deste frenesim anti-stalinista que nos conduziu a semelhante fim. Falamos de anti-stalinismo, mas tal significa também anti-leninismo e anti-marxismo.
Stáline afirmou que a filosofia materialista dialéctica é a concepção do mundo do nosso partido. Ripostaram que tal era impossível e nunca poderia acontecer. Exactamente porque, diziam, a filosofia em geral não é de modo algum uma concepção do mundo. Como assim?
Pois foi assim. E começaram a agitar nas páginas das prestigiadas publicações académicas, das tribunas das conferências nacionais e internacionais, pedaços de velharias positivistas com mofo de cem anos, para demonstrar que a filosofia não é uma ciência sobre o mundo no seu todo, mas apenas sobre o conhecimento; é a teoria do conhecimento, a gnoseologia.
Um desses «académicos» chamado Kedrov esforçou-se de todas as maneiras para inundar a imprensa académica e partidária com este disparate. O próprio Lénine teria dito que não era preciso três palavras: dialéctica, lógica e gnoseologia. Tudo isso era a mesma coisa. E a dialéctica seria o mesmo que materialismo dialéctico: portanto, o materialismo dialéctico seria a gnoseologia, a teoria do conhecimento.

Bom, em primeiro lugar, o materialismo dialéctico não é de todo a mesmo coisa que a simples dialéctica. Como referiu Stáline, mais uma vez, a filosofia materialistadialéctica inclui, para além do método dialéctico, também a interpretação materialista dos fenómenos da natureza, a teoria materialista.
Em segundo lugar, quando falou da «inutilidade de três palavras», Lénine referia-se a uma coisa totalmente diferente. Quis dizer que na velha lógica formal, que analisa o conhecimento estático, «parado», imobilizado, era necessária ainda uma disciplina específica que analisasse o conhecimento em movimento, ou seja, em correlação com o objecto exterior, uma vez que sem se correlacionar com o objecto, o conhecimento não pode avançar. Esta disciplina especial é a gnoseologia.
Mas quando tomamos a nova lógica dialéctica, não precisamos de quaisquer complementos, uma vez que, por definição, ela analisa logo o conhecimento em desenvolvimento, numa correlação permanente com o objecto. Então o mundo objectivo por si próprio expõe-se à análise numa correlação permanente com o conhecimento humano e com outros tipos de representação. Segundo V.I. Lénine, a dialéctica enquanto lógica torna-se na «doutrina não das formas exteriores do pensar, mas das leis do desenvolvimento “de todas as coisas materiais, naturais e espirituais”, isto é, do desenvolvimento de todo o conteúdo concreto do mundo e do seu conhecimento.»
Vejam pois a intrujice: V.I. Lénine mete-lhes sob o nariz que a dialéctica é uma lógica com conteúdo, é a ciência sobre as leis do desenvolvimento de todas as coisas materiais, naturais e espirituais; eles em resposta repisam arrogantemente que a dialéctica é a teoria do conhecimento. E chegaram ao descaramento de nomear este palavreado de Kedrov como candidato ao Prémio Lénine.
                                         
Mas não ficaram por aqui. Tentaram demonstrar que o materialismo-dialéctico não pode ser a concepção do mundo do partido, desde logo porque, por princípio, não pode ser uma concepção do mundo. Sim, não se admire quem ouvir isto pela primeira vez. Com toda a seriedade, foram arrastando esta fantasia na revista Voprossi Filosófii. Não pode haver nenhuma concepção do mundo porque o mundo não existe como um todo.
Ora Stáline tinha escrito que «a dialéctica concebe a natureza não como uma acumulação acidental de objectos e fenómenos, desligados e isolados uns dos outros e não dependentes entre si, mas como um todo interligado e uno».8 Se Stáline tivesse escrito que o Volga desagua no Mar Cáspio, eles teriam demonstrado que o Volga desagua no Oceano Pacífico.

Poderão pensar, mas que diferença nos faz que o mundo exista ou não como um todo? Isso está muito longe da prática real da vida. Não, não está. Tudo isto está o mais perto possível da prática real da vida.
Se o mundo não existe como um todo, então não existe «um processo mundial uno», ao qual Lénine constantemente se referiu, não existe também «a universal conformidade a leis da Natureza em perpétuo movimento e desenvolvimento» (aliás esta formulação é também de Lénine), que penetra «de baixo a cima» toda a existência quer natural, quer social. Ora toda a doutrina marxista fundamenta-se exactamente nessa ideia de conformidade com as leis naturais, na ideia de que o comunismo não só é objectivamente alcançável, mas também objectivamente inevitável, pois decorre logicamente da «dialéctica objectiva como princípio de todo o ente» (é outra formulação de Lénine). E se logicamente, cientificamente, [o comunismo] não decorre de nada, então não pode decorrer, o que significa que alguém se enganou, e que o facto de terem tentado construí-lo na Rússia durante 70 anos não passou de uma loucura, de um ziguezague acidental na história, cujas raízes devem ser extirpadas, a sua memória apagada da memória das pessoas e ponto final.

De modo que, queridos amigos, a filosofia é uma ciência ardorosamente partidária, e não devemos enganar-nos com a sua aparentemente abstracção da azáfama mundana, tal como não se enganaram Lénine e Stáline. Ontem, algures no Instituto de Filosofia, zonzonavam contra a ideia de mundo como um todo, ninguém prestou atenção; hoje esse zonzom pode ter tais consequências que nos arrependeremos cem vezes por não termos dado ouvidos na altura própria.
Outra incursão anti-stalinista (vão todas no mesmo sentido) é a negação de toda a possibilidade de realizar uma sólida base cognitiva teórico-filosófica sobre a ideia da construção do socialismo e do comunismo, de modo a que, como afirmou Stáline, o socialismo deixe de ser um sonho sobre um futuro melhor da humanidade e se transforme numa ciência. 
Isto é um latido contra o materialismo histórico, definido por Stáline como a generalização das teses do materialismo dialéctico ao estudo dos fenómenos da vida social, e por Lénine, como a finalização de todo o edifício da filosofia materialista dialéctica marxista.
                                          
Lembrem-se com que êxtase (não há outra palavra) Stáline enumera as perspectivas que se abrem ao conhecimento social e à acção prática do partido do proletariado graças à aplicação dos princípios da dialéctica materialista.

Cai o dogma da «intangibilidade» dos regimes sociais exploradores, e tudo passa a ficar assente num sólido fundamento científico: a inevitabilidade de transformações revolucionárias realizadas pelas massas oprimidas, a substituição do capitalismo pelo socialismo, a legitimidade da luta de classe do proletariado e da revolução proletária, a rejeição da política conciliatória da «transformação» do capitalismo em socialismo, a linha da revelação e resolução corajosa das contradições dialécticas internas do desenvolvimento social. E não só nos países capitalistas, mas também no socialismo, como Stáline acrescenta com firmeza na obra Problemas Económicos do Socialismo na URSS.
E que pode contrapor o inimigo de classe, declarado ou oculto, a esta representação, em que as pessoas do trabalho adquirem uma arma eficaz temível, desenvolvida nos vários aspectos, para a sua luta emancipadora e transformação edificante do mundo?
Nada, à excepção de esforços furiosos para nos retirar essa arma conceptual das nossas mãos; o que foi e continua a ser hoje o objectivo e missão principal da guerra psico-informativa.
Por exemplo, a propósito do materialismo histórico, precisam de gritar incessantemente, até à histeria, que Stáline e Lénine são tamanhos monstros que de forma alguma se pode admitir a generalização da dialéctica materialista ao estudo da vida da sociedade. Que o materialismo histórico é meramente uma das ciências sobre a sociedade e não de todo a conclusão até ao topo da doutrina filosófica marxista.
A própria dialéctica como «doutrina sobre o desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e isenta de unilateralidade» foi substituída pela «teoria do equilíbrio» de Bogdánov-Bukhárine, agora «modernamente» designada de abordagem sistémica.
Para tal, divagaram longa e persistentemente em torno da noção de desenvolvimento, para lhe retirar o estatuto de «processo mundial uno», de «movimento em geral», de forma universal de movimento da matéria. Alegam que, além do desenvolvimento, muito mais acontece no mundo; sob um ponto de vista, o desenvolvimento parece ser um processo universal, mas, sob outro ponto de vista, é apenas um momento de estados estáveis, em equilíbrio. Assim, não será melhor tomar como fundamento estes estados de equilíbrio, homeostáticos?

No que respeita à contradição dialéctica como «fórmula» estrutural do desenvolvimento, tal como as leis de Newton no seu conjunto constituem a «fórmula» do movimento mecânico, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, nem se podia pensar sequer em aplicar seriamente este esquema, digamos, à economia política, como fez Stáline.
O ritual era o seguinte: num artigo «orientador» do Pravda ou num editorial de uma revista teciam-se falsos louvores, considerações vazias sobre a contradição, depois enchia-se meia revista com textos em que se demonstrava que as contradições agem apenas na esfera do conhecimento, na realidade objectiva não existem, ou se apresentava como contradição uma coisa qualquer que nada tinha a ver com a dialéctica ou com o simples bom senso.
Repito, arrancaram das mãos do partido e do povo a única arma que poderia trazer a vitória na guerra informativa-psicológica. E quando sentiram que tinham alcançado o seu objectivo, que tinham enchido as mentes de uma parte do povo com o seu lixo «filosófico», não se coibiram de troçar dele, do povo. A César o que é de César, ao serralheiro o que é do serralheiro. Assim motejava um grupo de «cientistas», liderado pelo doutor em ciências históricas Chkaratan, no jornal Izvéstia, de 25 de Outubro de 1989.

Lembrem-se de que o «Breve Curso de História do PCU(b)» era um manual político de massas. Só um «tirano» como Stáline foi capaz de explicar aos serralheiros e demais povo simples como se processava o desenvolvimento mediante a revelação das contradições internas ou quais eram as leis naturais da libertação da opressão capitalista. E para que precisam os serralheiros disso?
Eis o que escreve o conhecido economista Chmeliov no Literaturnaia Gazeta, de 26 de Julho de 1989: «As pessoas vivem mais facilmente com a chamada moral pequeno-burguesa do que com ideias “grandiosas e inspiradoras”». «Na sua essência toda a probidade humana é uma moral pequeno-burguesa. Ela não se guia pela aspiração de transformar a humanidade. E qual é o problema? Será que só é bom o que conduz às barricadas?». «Não bebas, não batas na mulher, não te assoes à toalha quando te convidarem para jantar» – pois, nem mais nem menos, estes são alguns exemplos de «valores humanos eternos», segundo Chmeliov.
Nós inquietamo-nos: mas por que razão o povo se degradou tanto, donde lhes vem essa falta de espiritualidade, esse cinismo, essa malvadez, essa vulgaridade pequeno-burguesa manifesta? Com efeito foram contagiados há 30 anos com a colaboração activa de diferentes «literatos», se assim posso dizer, de jornais e doutores de todas as ciências possíveis. Mas o povo não se deixará facilmente encher de sarna. Será muito mais fácil livrar o país das ovelhas sarnosas do que retirar ao povo «as ideias grandiosas e inspiradoras».

(...)É claro que será preciso regressar a tudo isto com a máxima a urgência e persistência. Quanto tempo se poderá continuar a enganar as pessoas, como se não houvesse solução para estas questões complexas, quando na realidade essa solução existe, está completamente preparada? Camaradas, a tarefa prioritária que temos pela frente é traçar com honestidade, rigor e objectividade o quadro da resistência popular comunista ao longo de toda a guerra psicoinformativa. Sem isso, nada conseguiremos… De modo que apelo a todos aqueles que compreendem o sentido e objectivo do que foi dito aqui a renunciarem ao papel de observadores externos. Apelo a colaborarem activamente connosco, de forma benevolente e corajosa, para realizarmos a tarefa que acabamos de apontar. Sem resolvermos esta questão, simplesmente não poderemos sair do beco em que nos encurralaram desde o final dos anos 80, e fizeram-no de forma bastante engenhosa.  
 
 
 
 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Ano Novo - Nova Crise/Crise Velha


Ano novo, crise nova
O ano começou com uma nova crise bolsista mundial. Apesar das flutuações, é claro que estamos perante uma nova convulsão do sistema financeiro internacional. Há um facto incontornável: as políticas de miséria para os povos, mas de subsídios para o grande capital financeiro (como os chamados programas de Quantitative Easing – QE que o banco central dos EUA procura agora reduzir), promovidas após 2008, não resolveram os problemas de fundo do sistema capitalista mundial: agravaram as dívidas e as bolhas especulativas, sem redinamizar a economia produtiva. Mas o capitalismo mundial já não funciona sem essas injecções de dinheiro fácil na veia. William White, ex-economista-chefe do BIS (o «banco dos banqueiros») e actual figura de destaque na OCDE é claro: «A situação hoje é pior do que era em 2007. Já foram usadas praticamente todas as nossas munições macro-económicas. […] As dívidas continuaram a avolumar-se durante os últimos oito anos e alcançaram níveis tais em todo o mundo que se tornaram uma fonte séria de problemas. Tornar-se-á óbvio na próxima recessão que muitas destas dívidas não serão [pagas] e isto será pouco confortável para muita gente que pensa que tem bens com valor» (Telegraph online, 19.1.16). O jornalista que obteve estas declarações na véspera da abertura do recente Fórum Económico Mundial de Davos acrescenta que o «QE e as políticas de dinheiro fácil da Reserva Federal dos EUA e seus congéneres» são uma espécie de «tóxico-dependência», em que se gasta hoje aquilo que não se possui, mas que «acaba por perder efeito» e o dia chega em que «não há dinheiro para gastar amanhã».
«Dinheiro fácil» só existiu para os grandes banqueiros e capitalistas. Na semana passada (18.1.16), a organização de caridade inglesa Oxfam publicou um relatório com o título «Uma economia para os 1%». Cita o gigante financeiro Credit Suisse para afirmar que os 1% mais ricos detêm hoje mais riqueza do que os restantes 99% da população mundial. A Oxfam acrescenta outros números impressionantes: em 2015, 62 indivíduos possuem a mesma riqueza que 3,6 mil milhões de pessoas (metade da população do planeta). Desde 2010, a riqueza destes 62 multi-milionários aumentou 44%, enquanto que para a metade mais pobre da Humanidade se verificou uma quebra de 41%. A crise não foi, seguramente, para todos. Não só não houve “sacrifícios repartidos”, como a crise do capitalismo foi usada para promover uma autêntica pilhagem de classe que engordou muito o grande capital à custa dos povos. Os orçamentos do Estado são usados para salvar os banqueiros (o Banif é o mais recente exemplo no nosso País), mas os banqueiros nem sequer pagam impostos para financiar os orçamentos do Estado. O Jornal de Negócios online publicou (12.12.16) uma notícia sobre o nosso País com o título «As 1000 famílias que mandam nisto tudo (e não pagam impostos)». Não é um problema só nosso. A Reuters noticiou (22.12.15) que «Sete dos maiores bancos de investimento que operam em Londres pagaram poucos ou nenhuns impostos na Grã-Bretanha no ano passado». Os sete referidos gigantes financeiros tiveram em 2014 lucros de 5,3 mil milhões de dólares naquele país, mas pagaram de imposto apenas 31 milhões, ou seja, menos de 0,006% dos seus lucros. Cinco dos sete nem pagaram um penny. Quem esteja à espera que o problema se resolva com «mais regulação» ou «mais Europa» bem pode esperar sentado: entre os sete mega-caloteiros encontra-se a Goldman Sachs, de onde saiu o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi.
A nova explosão de crise em 2016 vai agravar todas as já agudíssimas contradições no seio do capitalismo mundial. Conscientes de que uma nova ronda de «austeridade» para os trabalhadores e povos e «maná do céu» para os multimilionários não é compatível com a democracia, as liberdades e a paz, sectores importantes da classe dominante preparam a via da repressão, do autoritarismo e da guerra. Para os trabalhadores e povos não há outra opção, senão preparar-se para o embate.

(Artigo de Jorge Cadima, no "Avante!" Nº 2200, de 28/1/2016) 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Um testemunho histórico e corajoso - Lições para o presente e para o futuro (6)


Publica-se mais um texto desta autora que, como os anteriores, constitui um bom suporte para uma justa compreensão das razões mais decisivas que originaram a derrocada do PCUS e da União Soviética. Simultaneamente, são ensinamentos preciosos sobre o papel central que a democracia interna desempenha na "saúde" de um Partido Comunista e na sua capacidade (ou ausência dela) de replicar essa democraticidade de funcionamento no edifício político da sociedade socialista que visa construir.
Sem essa "saúde" interna - ensurdecendo e cegando perante os seus próprios militantes - e sem esse fundamental e imprescindível programa político socialista ("A democracia proletária é um milhão de vezes mais democrática que qualquer democracia burguesa"), um tal Partido Comunista é a negação do verdadeiro partido do proletariado, um partido condenado à derrota e arrastando na derrota os trabalhadores que diz querer representar e dirigir politicamente.  

Fica então abaixo um apontamento do pensamento de T. Khabarova:
 
"(...)Esse atraso no estabelecimento de esquemas democráticos específicos e verdadeiramente socialistas conduziu à perda do controlo sobre a cúpula dirigente por parte das massas do partido, e mais ainda pelas massas sem partido, ao total «bloqueio» de sinais de alarme das massas para a cúpula, o que criou condições para a degeneração, o aburguesamento das elites dirigentes em todos os níveis e à sua união com a «internacional» do imperialismo mundial, enquanto traidores e verdugos do seu próprio povo.(...)"
 
E quem assim falou - nos idos de 1994 - não gaguejou, honra lhe devemos prestar. Cuidemos nós do nosso presente e do que devemos programar e propor ao povo a que pertencemos para o futuro!


 
(http://www.hist-socialismo.com/docs/Khabarova_Causas_Derrota.pdf)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O imperialismo é isto


Sykes-Picot no Século XXI
Em 1916, diplomatas ingleses e franceses cozinharam um plano secreto de partilha do então Império Otomano (turco). Enquanto enganavam os árabes com promessas de independência, planeavam entre si o controlo da região (com umas migalhas para o czarismo russo). Após a Revolução Russa de 1917, o jovem poder soviético descobriu o acordo Sykes-Picot nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e revelou-o ao mundo. Um século depois, repetem-se os planos de partilha imperialista.
Há quase uma década (Junho 2006), o norte-americano Armed Forces Journal publicava um mapa que redesenhava as fronteiras do Médio Oriente. Desde então, as guerras imperialistas deram lugar à fragmentação do Iraque e Síria e ao surgimento do «Califado Islâmico» ou ISIS. Agora começam a surgir as confissões públicas semi-oficiais dos objectivos. O ex-Embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, escreveu (NY Times, 24.11.15) que «a realidade é que o Iraque e a Síria, tal como os conhecemos, já não existem». E falando do que chama o «eixo russo-iraniano e dos seus intermediários», afirma sem pestanejar: «o seu objectivo de recuperar para os governos iraquiano e sírio as antigas fronteiras é um objectivo fundamentalmente contrário aos interesses americanos, israelitas e dos estados amigos árabes». Não querendo ficar atrás, o chefe dos Serviços Secretos franceses para o Estrangeiro (DGSE), Bernard Bajolet afirmou: «o Médio Oriente que nós conhecemos acabou e duvido que ele volte […] não sei bem em que moldes. Mas seja como for, será com um figurino diferente do que foi estabelecido após a Segunda Guerra Mundial», quando esses países deixaram de ser colónias francesas e inglesas. O portal belga que reproduz estas afirmações (www.rtl.be, 28.10.15) acrescenta que «o director da CIA [John Brennan] exprimiu um ponto de vista semelhante». Igual objectivo foi expresso pelo ex-Ministro de Negócios Estrangeiros inglês, William Hague, falando na Câmara do Lordes em apoio dos bombardeamentos ingleses na Síria: «Devemos estar abertos a novas soluções. Ao fim e ao cabo, se as comunidades e dirigentes não conseguem viver em paz na Síria e no Iraque, teremos de tentar que vivam em paz, mas em separado, através da partição desses países» (BBC, 2.12.15). Repare-se no desplante de fingir que estamos perante um problema de indígenas incapazes de se governarem, que nada tem a ver com duas décadas de guerras, invasões e agressões, nas quais o imperialismo inglês desempenhou papel destacado.
A «coligação» mais parece a Força Aérea do ISIS
Os objectivos de dominação explicam o que de outra forma parece contraditório, como as alianças à la carte ou os pretextos para intervir na região: o governo inglês que em 2013 queria bombardear o governo sírio está agora a bombardear a Síria invocando a ameaça do ISIS... que combate o governo sírio. O pretexto é esse. A realidade é outra, como fica patente no cada vez mais claro papel da Turquia (potência da NATO) no apoio e tráficos que sustentam o ISIS. O governo sírio fez este mês queixa formal à ONU de que quatro aviões da «coligação anti-ISIS» chefiada pelos EUA bombardearam uma base do seu exército, «matando três soldados e ferindo 13» (www.cbc.ca, 7.12.15), numa «província em grande parte nas mãos do ISIL» (BBC, 7.12.15). Na semana passada, coube a sorte ao exército iraquiano em pleno combate contra o ISIS, que sofreu dezenas de baixas num ataque aéreo de aviões dos EUA (Press TV, 18.12.15). A «coligação anti-ISIS» dos EUA mais parece a Força Aérea do ISIS. Não surpreende assim que, como titulava o insuspeito Washington Post (1.12.15), «Iraquianos pensam que os EUA estão feitos com o Estado Islâmico».
O caos e o terrorismo são uma arma para justificar as guerras e agressões e, no plano interno, os estados de emergência e os mecanismos de repressão fora de controlo. Na raiz estão sempre os interesses económicos e de classe do grande capital. O imperialismo é isto.
 
Jorge Cadima in "Avante!" N.º 2195
23.Dezembro.2015        

sábado, 7 de novembro de 2015

Viva a Revolução (bolchevique) de 7 de Novembro de 1917!


Tal como a gesta heróica da classe operária parisiense, em 1871, com a revolucionária criação da Comuna de Paris, menos de meio século depois, nesta data histórica do 7 de Novembro de 1917, tinha lugar a Revolução de Outubro na velha Rússia czarista. De um ponto de vista marxista-leninista, pelo seu carácter transformador da marcha da evolução humana, são os dois maiores acontecimentos na História Mundial dos séculos XIX e XX. Tendo ambos por protagonista maior a classe operária - primeiro a francesa e depois a russa -, à cabeça de grandes movimentos sociais dos explorados contra os seus exploradores, ficaram gravados a fogo nas páginas da luta de classes, luta constante e permanente que constituiu o verdadeiro motor na caminhada da Humanidade para a sua real e completa emancipação.
A Revolução de Outubro, iniciada como todas as revoluções por uma insurreição popular dirigida pela classe operária e o seu partido de classe, com uma direcção bolchevique orientada pelas teses leninistas, rapidamente ganhou o apoio entusiástico do operariado russo que, não obstante amplamente minoritário numa população maioritariamente camponesa, venceu as resistências das classes exploradoras e, com o apoio das classes e camadas exploradas e dominadas pela aristocracia e a grande burguesia russas, operou a maior transformação social e política nunca antes experimentada na vida dos povos, na vida do povo russo imediatamente e depois irradiando como exemplo luminoso para os povos de todos os continentes.


O gatilho que fez deflagrar a revolução bolchevique e garantiu o seu êxito e aprofundamento foi o criador e revolucionário sistema do exercício do poder político pelos sovietes, a nova organização do poder operário e popular com dimensão de massas. "Todo o poder aos Sovietes!", foi a palavra de ordem radical lançada pelo partido de Lenine, iniciando-se com ela a destruição do Estado burguês e o desmantelamento das suas instituições ditas "do direito" e "democráticas", com a sua substituição pelo exercício de um poder simultaneamente representativo e executivo, executante directo dos interesses de classe das classes e camadas até aí exploradas e submetidas aos poderes do Estado burguês. Uma democracia política de massas, amplamente representativa e participada no seu dia a dia por milhões de trabalhadores-cidadãos, segundo as palavras de Lenine mil vezes mais democrática que a mais democrata das democracias parlamentares burguesas.


Defrontando a resistência encarniçada das classes antes dominantes, ganhando o confronto militar que se seguiu, tanto numa cruenta guerra civil como derrotando os exércitos invasores das potências imperialistas da época; duas décadas depois, em imparável processo de construção da nova sociedade socialista, foi capaz de mobilizar o povo e os meios materiais para derrotar o principal e mais forte componente estratégico dos exércitos nazis hitlerianos; deste modo, a nova pátria socialista soviética sobreviveu, consolidou-se e passou a disputar ao imperialismo o papel deste de força hegemónica mundial, alcançando-o e ultrapassando-o nos variados domínios - militar, científico, tecnológico, económico, social, político -, constituindo-se como um exemplo e um estímulo para o combate de classes, inspirando novas revoluções e a criação de novos países socialistas.


A marcha da História, após o desaparecimento das gerações dirigentes de Outubro e a sua substituição, a partir do Krushchev, por dirigentes reformistas e revisionistas, encaminharam a pátria de Lenine para a conciliação de classes, para políticas económicas de restauração do capitalismo mascarado de "socialismo de mercado", para a liquidação do poder popular soviético e sua substituição por uma clique de possidentes oportunistas que se foram progressivamente desmascarando da sua auto-proclamada condição de "comunistas" e isolando crescentemente esse poder "soviético" das massas operárias e trabalhadoras. O golpe dos anticomunistas Gorbatchov e Ieltsine foi a machadada final no socialismo, desarmando as forças comunistas sãs e entregando a rendição do Partido Comunista da União Soviética ao imperialismo, abrindo caminho à contra-revolução e à restauração do sistema capitalista nos diversos países europeus até aí ditos ainda socialistas.
A acção conjugada e ardilosamente construída entre os traidores internos e os inimigos externos, ditou a catástrofe histórica da destruição do campo socialista, deixando o terreno da arena internacional entregue ao restauracionismo neoliberal e neofascista, contra o qual um punhado de países procura ainda resistir, a par com os partidos comunistas que continuam o seu combate em fidelidade aos ensinamentos ideológicos e políticos dos criadores clássicos do Marxismo-Leninismo.
 
Quase a completar-se um século após a grande Revolução de Outubro, formulemos firmes votos que esse Centenário seja cuidadosamente preparado pelos comunistas e venha a ser comemorado com a seriedade revolucionária, o respeito, a dignidade e a relevância que deverá ter. Em tempos tempestuosos e exigentes, marcados pelas deserções e pelos posicionamentos oportunistas de tantos pseudo-comunistas, o combate vitorioso e o exemplo imorredouro de Outubro aí continua vivo e vivificante, iluminando os nossos caminhos para a revolução, rumo ao Socialismo.
Se é uma verdade sem contestação que não basta desejar a revolução para que ela ocorra, é igualmente uma verdade indesmentível que para a realizar é indispensável haver quem acredite no caminho para ela e quem verdadeiramente a queira e tudo faça para concretizá-la. Grande teórico da Revolução, a maior obra do legado de Lenine foi a sua realização prática.

Viva a Grande Revolução de Outubro! Viva o marxismo-leninismo!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um testemunho histórico e corajoso - Lições para o presente e para o futuro (5)



Retoma-se a transcrição de mais um texto de Tatiana Khabarova, desdizendo-se assim o que se anunciou aquando da publicação do texto anterior (4) da mesma autora,  como sendo de "encerramento".

Referenciar e transcrever esta "Carta a Suslov", nestes nossos tempos e decorridos quase quarenta anos de História sobre a sua escrita, surge como um imperativo de solidariedade e de camaradagem para com a sua autora.
De facto, na linha de outras corajosas intervenções desta comunista, uma lutadora pelo defesa dos ideais comunistas e do seu país, à época ainda socialista e hoje já destruído, este texto de T. Khabarova desvenda, simultaneamente, as práticas anti-leninistas da direcção do PCUS quanto à denegação da democracia - a interna no funcionamento do Partido e a socialista para todo o povo soviético - e as políticas revisionistas e oportunistas de direita, assentes em erradas visões económico-cientificistas, desprezando totalmente a ideologia dos proletários, com práticas económicas e sociais "universalizantes", cujo desfecho só poderia vir a ser - como se consumou com os gorbatchovianos - o enterro do Socialismo.

Em dois parágrafos talvez se possa sintetizar o pensamento da autora, o segundo deles uma citação de Lenine:

"(...)– muito pior é o entravamento do nosso desenvolvimento democrático, a hiper-trofia sem precedentes na história do Estado soviético da «perversão elitista», a ponto de se assistir a uma monopolização paralisante das mais importantes funções administrativas por uma casta degenerada interna, não removível através das vias legalmente estabelecidas, e que não presta contas nem é controlável pelas massas laboriosas.(...)"

"(…) Devemos compreender – escreveu I.V. Lénine em «Significado do materialismo militante» – que sem uma sólida fundamentação filosófica não há ciência da natureza, nem materialismo que possa suportar a luta contra a investida das ideias burguesas e o restabelecimento da concep-ção burguesa do mundo. Para sustentar essa luta e levá-la com pleno êxito até ao fim, o cientista deve ser um materialista moderno, um partidário consciente da-quele materialismo que é representado por Marx, isto é, deve ser um materialista dialéctico. Para atingir esse fim, os colaboradores da revista Pod Známiniem Marksizma devem organizar o estudo sistemático da dialéctica de Hegel do ponto de vista marxista, isto é, da dialéctica que Marx aplicou praticamente tanto no seu O Capital como nos seus trabalhos históricos e políticos, e aplicou com tal êxito que actualmente (…) cada dia do despertar para a vida de novos povos e novas classes confirma cada vez mais o marxismo.(...)"

O texto integral desta carta está publicado aqui:

http://www.hist-socialismo.com/docs/Khabarova_Carta_Suslov.pdf

Destruído pela mão daqueles que se diziam comunistas e seus camaradas, a derrocada do socialismo na Europa está premonitoriamente anunciada nas críticas certeiras e frontais contidas nesta carta que Tatiana Khabarova dirigiu ao membro da Comissão Política e do Secretariado do CC do seu Partido, M.A. Suslov.
Lê-la e reflectir sobre o seu conteúdo e significado histórico, eis um útil e oportuno exercício para todos os que se reclamam depositários e praticantes da teoria e da prática de Marx e Lenine.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Povo Português no Labirinto


No Dédalo
Dédalo, na mitologia da Grécia Antiga, era um arquitecto e inventor prodigioso, que construiu o labirinto de Creta sob encomenda do rei Minos para esconder o Minotauro, monstro de corpo humano e cabeça de touro que, por determinação de Poseidon, rei dos mares (e por razões que não vêm ao caso), todos os anos devorava sete rapazes e sete raparigas oferecidos pela cidade de Atenas, em sacrifício ritual (foi Teseu, um jovem ateniense, que penetrou no labirinto, matou o monstro e acabou com a maldição, mas isso é já outra história).
O Labirinto (ou Dédalo) era aparentemente inextricável e quem nele penetrasse já de lá não saía (Teseu utilizou um novelo de lã para recuar e sair, após matar o Minotauro).
É o que está a suceder ao povo português – ser de novo encaminhado para o Labirinto, tangido como um rebanho pelas atenciosas campanhas eleitorais do PS e do PAF (que é como quem diz do PSD e CDS). E de lá não costumam sair, os portugueses, nas sucessivas campanhas eleitorais, estentoreamente assediados com promessas, melifluamente reconhecidos com certificados de honradez, de dignidade, de patriotismo, de lucidez, de bom senso, de coragem e de profunda e atávica «inteligência sábia do povo», tudo tonitroantemente certificado pelas lideranças do PS e do PAF, deixando o povo ainda mais perdido no seu labirinto.
No final das eleições, de repente os portugueses vêem o enxame dos promitentes políticos do PS e do PAF desaparecidos em parte incerta, as promessas panfletárias reduzidas a prospectos manhosos e amarrotados, que já só podem servir para embrulhar peixe – se peixe houver para embrulhar – e a desolação do costume espraia-se pela paisagem, tendo por notas de vida e de ânimo as árvores e os rios, os caminhos e as quebradas, as ruas e os becos, os bosques e as praias, as ventanias da serra, a brisa dos pinhais e a aragem marítima, que fielmente acompanham o quotidiano dos portugueses.
Entretanto, a miséria e a exploração costumeira regressam, reactivadas, por acção da nova maioria – por outros encantos (estes de demagogia pura) eleita o novo «Governo da nação».
Tem sido assim desde há 39 anos, PS e PAF alternando-se na missão persistente de degradar sempre mais os valores da vida democrática portuguesa criados com a Revolução de Abril, numa espécie de Tico e Teco do nosso descontentamento, ora um ora outro para nos infernizar a vida, mais e mais.
Neste Dédalo, onde PS e PAF regularmente enfiam os portugueses, o Minotauro é colocado de fora, mito assustador que empurra o povo para o abrigo do labirinto, onde o trio dos lidadores espera manejá-los, sempre a bel-prazer.
Mas cuidado com os mitos. Acordam sempre. E um dia o povo português verá que o Minotauro não existe, desfazendo o Dédalo onde o lidaram durante décadas.
(Henrique Custódio, in "Avante!, N.º 2181
17 Setembro.2015)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Refugiados - A suprema hipocrisia do Imperialismo


A crise dos refugiados, de que tanto se tem falado, não começou agora. A novidade que acordou a comunicação social está apenas no facto de essa crise ter chegado à Europa. Para os países devastados pelas guerras imperialistas, e para os seus países limítrofes, a crise existe há já muitos anos. Se há hoje mais refugiados do que em qualquer outro momento desde a II Guerra Mundial (como afirma a ONU), tal deve-se ao facto de que todos os anos cresce a lista dos países destruídos pelas políticas de guerra e rapina dos EUA, da NATO e das potências da União Europeia.


Segundo o Anuário Estatístico de 2010 da agência da ONU para os refugiados (não palestinos) UNHCR, havia no final desse ano cerca de 34 milhões de refugiados e deslocados (fora ou dentro dos países de origem). Dos cerca de 10,5 milhões de refugiados externos, 80% eram acolhidos por países em vias de desenvolvimento e a comunicação social dominante pouco se preocupava com a tragédia. Os dois principais países de origem dos refugiados eram o Afeganistão, vítima da invasão dos EUA em 2001, com três milhões de refugiados no exterior, e o Iraque, vítima em 2003 da guerra de Bush, Blair e Durão Barroso (cujo apoio à guerra lhe terá valido o seu posterior tacho à frente da União Europeia), com 1,7 milhões. Naquela altura, a Síria era o terceiro maior país de acolhimento, depois do Paquistão e do Irão, dando abrigo a mais de um milhão de refugiados. A Líbia, o país que segundo os relatórios do Programa da ONU para o Desenvolvimento (UNDP) tinha em 2010 o maior Índice de Desenvolvimento Humano de África, acolhia então milhares de trabalhadores africanos na sua economia. Síria e Líbia foram entretanto destruídas pelas guerras NATO/EUA/UE. A Líbia tornou-se na maior porta de acesso de refugiados africanos para a Europa, atravessando o Mediterrâneo onde frequentemente encontram a morte. E a Síria, reduzida a escombros pelos bandos ao serviço dos auto-proclamados «amigos da Síria» tornou-se, segundo o Anuário Estatístico de 2013 da UNHCR, o segundo maior país de origem de refugiados, com valores muito próximos do Afeganistão, ambos com 2,5 milhões. Nesse ano, continuavam a ser os países em vias de desenvolvimento a acolher a grande maioria dos refugiados: 86% do total, segundo a UNHCR. E a comunicação social “ocidental” continuava calada.


Hoje fala-se muito do drama dos refugiados sírios que chegam à Europa. Mas quem decidiu intervir militarmente na Síria? Não se pode esquecer títulos como: «Um exército insurgente que alega ter 15 000 homens está a ser coordenado a partir da Turquia [país da NATO] para enfrentar o presidente Assad» (Telegraph, 3.11.11); «A CIA acusada de auxiliar no envio de armas para a oposição síria» (New York Times, 21.6.12); «Navio espião alemão auxilia os rebeldes sírios» (Deutsche Welle, 20.8.12); ou «Estados do Golfo pagam os salários do Exército Sírio Livre» (ABCnews, 1.4.12). E há que estar atentos ao que se pode esconder por detrás do súbito interesse da comunicação social pelo tema dos refugiados. O primeiro-ministro inglês Cameron quer «uma intervenção militar para resolver a crise síria» e um ex-Arcebispo de Cantuária (chefe espiritual da Igreja de Estado em Inglaterra) defende «ataques aéreos e outro tipo de assistência militar para criar enclaves seguros e pontos de abrigo na Síria» (Telegraph, 5.9.15). Ou seja, querem mais guerra para lidar com os estragos provocados pelas suas guerras (ou pelo menos para os manter afastados das terras de Sua Majestade). E um dos maiores patrocinadores dos bandos fundamentalistas que destroem a Síria, o Rei Salman da Arábia Saudita, encontrou-se na semana passada com o Nobel da Paz Obama, para ouvir que «o Pentágono está a ultimar um acordo armamentista no valor de mil milhões de dólares com a Arábia Saudita, para lhe fornecer armas para o seu esforço de guerra contra [???] o Estado Islâmico e o Iémen» (New York Times, 4.9.15). Os pirómanos não descansam.

(Jorge Cadima, in "Avante!" Nº 2180, de 10/9/2015) 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Federico García Lorca, vive!


Céu vivo

Não poderei queixar-me
se não encontrei o que buscava.
Perto das pedras sem sumo e dos insectos ocos
não verei o duelo do sol com as criaturas em carne viva.

Mas irei à primeira paisagem
de choques, líquidos, rumores,
que ressuma criança recém-nascida
e onde toda a superfície é evitada,
para entender o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar misturado com o amor e as areias.
Ali não chega a geada dos olhos apagados
nem o mugido da árvore assassinada pela lagarta.
Ali todas as formas guardam enlaçadas
uma única expressão frenética de avanço.
Não podes avançar pelos enxames de corolas
porque o ar dissolve teus dentes de açúcar.
Nem podes acariciar a fugaz folha do feto
sem sentir o assombro definitivo do marfim.
Ali sob as raízes e na medula do ar
compreende-se a verdade das coisas equivocadas.
O nadador de níquel que espreita a onda mais fina
e o rebanho de vacas nocturnas com rubras patinhas de mulher.
Não poderei queixar-me
se não encontrei o que buscava
mas irei à primeira paisagem de humidades e latejos
para entender que o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar misturado com o amor e as areias.
Voo fresco de sempre sobre leitos vazios.
Sobre grupos de brisas e barcos encalhados.
Tropeço vacilante pela dura eternidade fixa
e amor ao fim sem alva. Amor. Amor visível!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Para entender a Europa e esta "União" Europeia


PRISÃO DE POVOS

Os acontecimentos dos últimos dias mostram à saciedade que a UE/Euro é incompatível com a democracia, a soberania e o bem-estar dos povos. É uma ditadura ao serviço do grande capital financeiro e uma autêntica prisão de povos. Como o PCP tem afirmado, esta UE não é reformável. Apenas sobre os seus escombros poderá haver futuro para os povos.
Os empréstimos ao abrigo dos programas das troikas são obra de agentes do grande capital financeiro (como o presidente do BCE, Draghi, homem da Goldman Sachs) para benefício do grande capital financeiro. A banca privada era credora de boa parte da dívida grega em 2010 e prosperava com os respectivos juros, mas decidiu pôr-se a salvo quando a crise estoirou. Tal como cá, o dinheiro das troikas nem entrou na Grécia: foi parar directamente aos credores – o capital financeiro parasitário – transferindo as dívidas para o BCE, o FMI e os bancos centrais nacionais. A «ajuda» foi para a banca. Para os povos ficaram as dívidas públicas, que explodiram nos anos das troikas. São impagáveis, mas servem de pretexto para levar os povos à miséria, aumentar a exploração e impôr relações de tipo colonial aos países endividados.
As tão badaladas «obrigações dos devedores» são à la carte. O principal jornal do grande capital inglês, o Financial Times, dedica um editorial (11.6.15) a outro país europeu que está na falência: a Ucrânia. Titula o FT: «Os credores da Ucrânia têm de partilhar a dor do país» e «têm de aceitar um haircut [perdão de dívida]». Informa que há um «pacote de apoios internacional [...] que admite a reestruturação da dívida e cortará os juros a pagar em 15,3 mil milhões de dólares nos próximos quatro anos» para que «sejam geríveis em relação à produção económica» do país. Acrescenta que há credores privados que «resistem a um perdão da dívida», mas sentencia: «terão de ceder. Têm uma obrigação moral em concordar com a reestruturação que permitirá reduzir a dívida para níveis sustentáveis». E defende «a utilização de mecanismos de indexação ao PIB», solução que considera «a melhor para todas as partes», até porque «a História mostra que, mesmo após um incumprimento [default], os investidores privados regressam rapidamente quando a economia recomeça a crescer». Remata o FT: «em matérias de tal importância geopolítica, não se pode permitir que os interesses financeiros privados ditem as políticas públicas». A adulta directora do FMI, Lagarde, já «assegurou à Ucrânia que os fundos [do FMI] continuarão disponíveis, mesmo que o país falhe nos pagamentos aos seus credores privados» (Deutsche Welle, 13.6.15). Esta duplicidade gritante de critérios é explicada pelo FT: a Ucrânia «tem o governo mais reformista desde a independência [...] que está a concretizar grandes cortes nos subsídios estatais». Se o combativo povo grego tem de ser castigado e humilhado pela sua ousadia de resistir, já os golpistas e fascistas ucranianos, que impõem políticas troikeiras do imperialismo pela violência, o terror e a guerra, merecem apoio e perdões de dívida. Medite-se ainda sobre uma terceira dívida, afastada destas considerações políticas. O FMI acaba de recusar qualquer perdão de dívida ao Nepal, país devastado em Abril deste ano por um enorme terramoto que matou 8600 pessoas e destruiu mais de 500 mil casas. A destruição não foi considerada suficiente (catholicireland.net, 30.6.15).
Os acontecimentos dos últimos dias são portadores de importantíssimos ensinamentos sobre a verdadeira natureza da dominação de classe, do imperialismo, da União Europeia e da social-democracia (nas suas várias expressões). A humilhação do governo grego mostra que se paga caro as ilusões de que é possível reformar esta UE.
 
(
Artigo de Jorge Cadima, jornal "Avante!", edição de 16/7/2015)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Um testemunho histórico e corajoso - Lições para o presente e para o futuro (4)


Com esta transcrição, encerro as transcrições de tomadas de posição de uma comunista soviética corajosa, Tatiana Khabarova, quando Gorbatchov estava ainda no auge do seu poder autocrático. Trata-se de textos absolutamente indispensáveis para se conhecer os acontecimentos, seus antecedentes históricos, suas causas e motivações, no decurso desses anos finais do assassinato metódico, frio e premeditado, do socialismo na União Soviética, pela mão daqueles que se afirmavam comunistas.
Escrito em Nov/1988, sob o título "Porque criticamos Gorbatchov",  é uma crítica frontal e desassombrada às pantominices económicas e políticas gorbatchovianas, uma critica verdadeiramente premonitória do descalabro e posterior derrocada do socialismo na URSS.
Deixo-vos somente dois parágrafos, à guisa de introito, com o link para o site onde está editada, para uma sua tranquila e muito útil  leitura integral, neste fim-de-semana próximo.
(http://www.hist-socialismo.com/docs/Khabarova_Porque_Criticamos_Gorbatchov_1988.pdf)
 
 
"(...) Há coisas que não podem ser em «simultâneo» socialistas e capitalistas, como uma mulher não pode ser ao mesmo tempo virgem e parturiente; não existe nenhuma concorrência «socialista» de investimentos ou um «desemprego» socialista ou uma exploração «socialista» de um trabalhador assalariado por um privado. Lá onde tudo isto existe, simplesmente não há socialismo.
São por isso absolutamente justificadas a irritação e indignação crescentes das pessoas com os chamados «salários» dos actuais cooperativistas; as pessoas sentem nas «entranhas» que não se trata de «salários», mas exactamente de rendimento, com frequência especulativo.
Toda a teoria económica de Marx assenta na simples premissa(perfeitamente captada pelo instinto de classe dos trabalhadores) de que uma pessoa não pode (e não deve) ganhar mais do que o salário, isto é, o custo socialmente estabelecido da reprodução alargada das suas capacidades laborais. Tudo o resto é o sobreproduto, o qual tem sempre uma natureza social, e por isso, num regime social judicioso, é sujeito à socialização: consolidação, distribuição e utilização através de canais sociais.
A partilha do sobreproduto antes de entrar nas «artérias» da sociedade, a criação de condições para essa partilha são relações económicas de apropriação privada, burguesas pela sua natureza, para cujos perigos do seu desenvolvimento «no domínio do comércio, etc.,» V.I. Lénine alertou frontalmente e sem reservas no momento da introdução da NEP."(...)

(...)"Está bem de ver, de resto, que os artífices de todos estes «longos processos» que se arrastam infinitamente, bem como os autores das respectivas «concepções», não viveram um só dia a rotina quotidiana de quem espera por melhores condições, à qual condenaram os seus concidadãos: não, para eles tanto o «comunismo» como o «socialismo amadurecido» surgiram imediatamente e em pleno, e não dentro de 18 ou 20 anos.
A este respeito Mikhail Gorbatchov não é excepção. Em mais de três anos nunca vimos a sua esposa, essa «primeira-dama» do Estado operário-camponês, duas vezes com o mesmo vestido ou fato, nem sequer com o mesmo casaco de peles ou com o mesmo conjunto de joalharia. Percebe-se que com um tal tipo de vida se possa planear facilmente a «perestroika» para um prazo de mais duas décadas no mínimo."(...)
 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Um testemunho histórico e corajoso - Lições para o presente e para o futuro (3)


Para uma análise rigorosa sobre as causas da derrocada do Socialismo na Europa nos finais do século passado, em especial sobre a deriva ideológica que se instalou no PCUS pela mão da sua direcção e que arrastou para posições oportunistas a generalidade dos restantes PC’s – factor que na actualidade continua sendo a principal razão do recuo ideológico generalizado nas fileiras do Movimento Comunista ­– as posições firmes e desassombradas de Tatiana Khabarova são um instrumento precioso.
Aí se transcreve um trecho da sua intervenção numa sessão realizada em 1998, assinalando o 180º aniversário do nascimento de Karl Marx e sob o título “Terá o Marxismo sido derrotado?”
 

(…)”A lei da correspondência das relações de produção ao carácter e nível de desenvolvimento das forças produtivas: esquema-chave explicativo-preditivo do marxismo como ciência
Examinemos o assunto mais de perto: existiu uma tal ciência, existirá ainda hoje, e o que lhe aconteceu nas fases já disputadas e terminadas da guerra psicológica informativa?
Qualquer verdadeira ciência possui um determinado esquema explicativo-preditivo, em torno do qual se desenvolve e graças ao qual alcança os seus triunfos.
Assim, o sistema de Newton distinguiu-se pela descoberta da lei universal da gravidade. Depois toda uma geração de cientistas, entre os quais mentes tão brilhantes como a de Laplace, dedicaram toda a sua vida a mostrar como se explicam e se podem compreender, com base na lei da gravidade, um conjunto crescente de novas esferas de fenómenos.
Será que o marxismo possui um tal esquema?
Possui. É a lei da correspondência das relações de produção ao carácter e nível de desenvolvimento das forças produtivas.
O segredo para uma utilização com êxito desta lei reside na compreensão de que o componente principal das forças produtivas, a fonte e mola do desenvolvimento do modo de produção, não é a técnica nem o progresso científico-técnico, mas sim as próprias pessoas.
As forças produtivas são pessoas, as massas laboriosas, com a técnica e tudo o mais que é necessário à produção. As relações de produção são as relações das pessoas no que respeita, em primeiro lugar, à produção de bens materiais – são a estrutura da sociedade, como Marx as definiu, ou a base económica da sociedade numa dada etapa do seu desenvolvimento. As relações de base são, na sua essência, formas de actividade produtiva das pessoas.
A base, como princípio de formação estrutural, é a parte mais conservadora do modo de produção. A estrutura não se altera a cada minuto; ela é rectificada, ajustada, concretizada, mas no seu conjunto perdura durante bastante tempo. A palavra «base» não deve ser entendida unicamente como alicerce. A base são as paredes e o telhado; na presente etapa de desenvolvimento é como uma espécie de moldura estrutural que delimita os contornos espaciais do crescimento das forças produtivas.
As forças produtivas são a parte móvel, revolucionária, do modo de produção, a fonte do seu autodesenvolvimento. A correspondência da base às forças produtivas significa que a moldura estrutural de um dado nível de desenvolvimento da sociedade é bastante ampla e conveniente; as relações económicas, as formas de propriedade, estimulam a actividade produtiva das pessoas. No estado de «correspondência», a base intervém, segundo a definição de I.V. Stáline, como o principal motor do desenvolvimento das forças produtivas. Também se pode dizer que, no estado de «correspondência», a base se adianta às forças produtivas.
Mas eis que a moldura da base fica repleta e o espaço para as forças produtivas se torna apertado. A actividade produtiva das pessoas decai, e abranda ou mesmo definha o progresso técnico. A base passa do papel de principal motor para o papel de travão das forças produtivas. A correspondência entre elas foi quebrada, as relações de base estão obsoletas. As forças produtivas procuram uma saída. Mas quem, em concreto, procura uma saída, porventura será a técnica? Para a técnica tudo isto é indiferente, quem procura são as pessoas – os representantes da nova classe em formação, que traz consigo um novo tipo histórico de actividade produtiva.
Neste ponto inferior de todo o ciclo – e este é precisamente um processo cíclico – pode-se dizer que as forças produtivas se adiantaram em relação à base, e a base se atrasou em relação ao desenvolvimento das forças produtivas. No entanto, todas estas inter-relações só serão válidas no caso de se ter presente que as forças produtivas são, em primeiro lugar, as pessoas, as pessoas e mais uma vez as pessoas.
Aliás, as próprias relações de produção são também pessoas. E é nas relações de base que radica a superstrutura, isto é, o sistema de domínio político da classe para a qual é chegada a hora de sair da cena histórica. Evidentemente, que a classe historicamente obsoleta não quer sair por vontade própria, ela agarra-se às suas prerrogativas, ao seu poder e opõe-se às mudanças que amadureceram. Na sociedade inflama-se e agudiza-se o conflito de classe ou de base, a contradição de classe antagónica.
O que acontece a seguir?
Lemos I. V. Stáline:
«Até dada altura, o desenvolvimento das forças produtivas e as alterações no domínio das relações de produção decorrem de um modo espontâneo, independente da vontade dos homens. Mas isto acontece só até um determinado momento, até ao momento em que as forças produtivas surgidas e em desenvolvimento atingem o devido grau de amadurecimento. Assim que as forças produtivas amadurecem, as relações de produção existentes e as classes dominantes que as representam transformam-se num obstáculo «inultrapassável», que não pode ser removido do caminho senão mediante a actividade consciente das novas classes, pela acção violenta destas classes, pela via da revolução. É então que se manifesta com especial evidência o enorme papel das novas ideias sociais, das novas instituições políticas e do novo poder político, chamados a suprimir pela força as velhas relações de produção.
Na base do conflito entre as novas forças produtivas e as velhas relações de produção, na base das novas necessidades económicas da sociedade surgem novas ideias sociais. As novas ideias organizam e mobilizam as massas, as massas juntam-se num novo exército político, formam um novo poder revolucionário e utilizam-no para abolir pela força as velhas regras no domínio das relações de produção e estabelecer novas regras

Aqui, antes de mais, é preciso sublinhar bem e cada um de nós deve assimilar solidamente que as novas forças produtivas, amadurecidas para a eclosão da revolução, as forças que propriamente realizam a revolução, não são, mais uma vez, de modo nenhum, nem a técnica nem o progresso científico-técnico em si, mas a classe historicamente ascendente, coesa e organizada na base de novas ideias, que surgiram sob a pressão das novas necessidades económicas da sociedade
Aquilo que teóricos infelizes, como Múkhine e outros da mesma categoria, nos contam a propósito do progresso científico-técnico, que abranda e esse abrandamento, alegadamente, «gera a revolução e destrói o aparelho do Estado» – isso não é marxismo, mas um disparate kautskiano-trotskista, que não tem qualquer relação com o marxismo leninismo-stalinismo revolucionário.
É precisamente por aqui que passa a linha de demarcação conceptual entre o marxismo como tal e o kautskianismo (que mais tarde se torna trotskismo), entre as correntes revolucionária e a oportunista, social-conciliadora, no movimento operário e comunista do último meio século. Eis essa linha separadora de águas: deveremos considerar como a principal e mais dinâmica força produtiva, como a fonte primária do desenvolvimento da sociedade, a técnica ou as pessoas, vistas num determinado contexto como a classe revolucionária mais avançada historicamente? O marxismo afirma que são as pessoas, os trabalhadores; o oportunismo contrapõe aos trabalhadores os instrumentos de produção, que alegadamente se desenvolvem espontaneamente, estando por trás desse alegado desenvolvimento espontâneo a «elite» científico-técnica e de gestão, a qual, por sua vez, serve a classe dos capitalistas ou dos proprietários pseudo-capitalistas. Eis, como se costuma dizer, toda a história."(...)

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http://www.hist-socialismo.com/docs/Khabarova_Marxismo_%20derrotado.pdf