SÓ NÃO SE ENGANA QUEM CEDE AO MEDO DE CAMINHAR NO DESCONHECIDO - SÓ SE PERDE AQUELE QUE NÃO ESTÁ SEGURO DO RUMO QUE ESCOLHEU.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Militarismo, uma das faces do Imperialismo




A grande parada militar em Lisboa, há dias organizada pelo governo do PS e pelo PR, enfileirando caninamente com as comemorações bélicas do imperialismo da "União" Europeia em Paris, torna de leitura indispensável este excelente artigo do José Goulão.



(…)Que «serviço à pátria» prestam, por exemplo, os militares portugueses no Afeganistão? Ou na República Centro Africana, mais de 40 anos depois de nos libertarmos da guerra colonial?
«A República de hoje foi incapaz de assinalar o armistício com um acto cívico de reflexão sobre a decisão de condenar milhares de portugueses a uma morte certa para irem matar concidadãos alemães sem saberem ao certo porquê»
Neste país de África, os militares portugueses actuam, ao que se diz, sob a bandeira da União Europeia, pelos vistos uma «pátria alargada» cuja vocação militar se desconhecia, a não ser como entidade política subsidiária da NATO.
É difícil identificar os interesses portugueses pelos quais esse contingente guerreia em África, onde se trata, isso sim, de servir os contrabandistas de diamantes, urânio, madeiras preciosas, cavalheiros aparentados com as famílias da indústria da morte e outras ilustres corporações, todas elas escravocratas.
E que «serviço à pátria» prestaram os militares portugueses que foram envolvidos, sob comando norte-americano, nas colossais manobras de guerra agora realizadas na Noruega e outros espaços nórdicos, mas sempre com as miras assestadas à Rússia?(…)"
Texto integral aqui:  https://www.abrilabril.pt/internacional/perturbadora-nostalgia-da-guerra
https://www.abrilabril.pt/internacional/perturbadora-nostalgia-da-guerra

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Viva a Revolução proletária de 7 de Novembro de 1917!

 



Dezanove anos - menos de duas décadas! - depois da criação do novel Partido Operário Social-Democrata da Rússia (I Congresso, março de 1898) e catorze anos após a vitória dos bolcheviques sobre as ideias oportunistas dos mencheviques (II Congresso, julho de 1903), nesta data do 7 de Novembro de 1917, inapagável da História do século XX, o Partido de Lenine proclama a palavra de ordem "Todo o Poder aos Sovietes!", posteriormente aprovada pelos três mil delegados ao II Congresso dos Sovietes da Rússia na noite desse dia glorioso, durante o qual o proletariado armado assalta a sede do governo capitalista, toma o poder e inicia a primeira revolução operária vitoriosa.
É verdadeiramente notável a capacidade demonstrada pelo Partido bolchevique, sobretudo num espaço temporal tão curto, para se organizar e derrotar as concepções reformistas das correntes pequeno-burguesas, intensificando e alargando as lutas do operariado pelos seus próprios interesses de classe, infiltrar e subverter as estruturas do Estado burguês, defrontar a repressão, primeiro do csarismo e posteriormente do governo menchevique,  e, finalmente, saber interpretar e dirigir a aspiração por transformações revolucionárias dos operários da velha e atrasada Rússia, conduzindo-os à vitória.
Decorrido mais de um século, estes feitos continuam a surpreender e a maravilhar os marxistas-leninistas, como uma fonte inesgotável de inspiração e ensinamentos para todos quantos, sem transigirem perante as maquinações dos oportunistas políticos, continuam a batalhar pela revolução socialista nos dias de hoje.

Em Portugal, após a revolução democrática e nacional de Abril de 74, viveu-se um período de ano e meio com traços importantes de uma transformação revolucionária que nos lembravam tantas vezes essa longínqua gesta do operariado russo… Entretanto, um golpe contra-revolucionário, em Novembro de 75, encerrou esse período exaltante da história portuguesa, iniciando-se um longo e arrastado ciclo de resistência dos comunistas e dos seus aliados mais próximos, defrontando o poder refeito do Estado burguês, ciclo que dura até aos nossos dias. 
Percebem-se assim as manifestações de desencanto e descrença de inúmeros democratas e patriotas, com o abandono de posições logo ocupadas pelas forças reacionárias e por um cortejo extenso de oportunistas ditos socialistas e até de muitos que se afiançam como "esquerda radical". 
Tudo consequências naturais e até previsíveis, mas desencanto e descrença inaceitáveis para qualquer comunista sério.
Nas fileiras comunistas, iniciam-se as actividades revisionistas de uns quantos, particularmente perigosas porque envolvendo membros destacados da direcção e quadros com luzida imagem pública, no Parlamento, no Movimento Sindical, no poder autárquico e noutras organizações de massas.  Ficam conhecidos pelo nome que a si mesmos se dão, "renovadores".
Actuando nos organismos partidários e fora deles, desenvolvem uma actividade dissolvente, desagregadora, desmobilizante e de rendição perante a acção e as actividades anticomunistas dos partidos do capital e da comunicação social que os serve. 
Derrotados temporariamente em vários Congressos do PCP, não obstante prosseguiram e prosseguem com os seus propósitos de liquidação do partido do proletariado. Uns veladamente, outros mais descarados, passam a defender a acção do Partido exclusivamente dentro das instituições do Estado capitalista, apregoando a "impossibilidade" da revolução.  Dizem que os tempos são outros, que já não mais serão possíveis os "assaltos ao Palácio de Inverno". Defendem que o "Estado Democrático" actual já não seria uma forma superior de organização do domínio de uma classe sobre as outras mas sim um representante de todos os cidadãos. Recusam indignados a necessidade da luta armada e apontam o barómetro das eleições do sistema burguês como o único guia para avaliarem a correlação de forças. Dizem-nos que pacífica e "democraticamente", voto a voto, chegaremos lá mais para diante ao socialismo.  
Queixam-se regularmente do povo a que pertencem, como massa ignara que não os merece. Tornou-se paradigmática a sua frase, "deixa lá, se não for para nós, será para os nossos netos..." Dão de barato essa velha e ultrapassada prioridade da célula de empresa nos locais de trabalho.  São os bernsteinianos da actualidade, capazes de um cinismo sem limites, continuando sempre a dizerem-se firmes defensores do socialismo e do comunismo, mas bem acomodados nas suas mordomias e nos seus tachos, rendidos ao chocho encanto das suas vivências de pequeno-burgueses.
Nesta chamada "nova fase da vida política nacional", acham que tiveram razão antes do tempo ao defenderem há muito uma linha política de compromisso com o PS, convivem tranquilamente com o governo de António Costa saudando superlativamente as migalhas do seu bodo ao pobres e até - com a posição típica dos oportunistas sobre táctica/estratégia - já esperam a transformação de uma posição temporária, vista como táctica, num novo rumo estratégico do PCP a prosseguir nas próximas legislaturas, para o qual teriam deixado de existir quaisquer alternativas.  Falando das realidades políticas como leões da "problemática", têm sempre saídas de sendeiro quanto à "solucionática". Parafraseando Lenine, querem arrastar-nos com eles para o pântano dos compromissos oportunistas e da conciliação de classes.

A Marx e a Lenine, à experiência do partido bolchevique e à Revolução de Outubro devemos um preito de homenagem e o compromisso de, também honrando a nossa própria memória histórica, lutarmos sem desfalecimentos pelo socialismo na nossa terra. Socialismo a conquistarmos através da acção revolucionária, combatendo energicamente todos os apelos e cantos maviosos da democracia burguesa, com os seus falsos engodos eleitoralistas. O nosso rumo, o rumo dos comunistas, é o mesmo de sempre: lutar com a classe dos proletários contra a classe dos exploradores, organizando as nossas forças, elevando a experiência e os conhecimentos subjectivos da classe operária, preparando a ruptura com o actual regime político do capital, abrindo o caminho para a insurreição dos explorados e a revolução socialista.

Vida eterna ao exemplo revolucionário dos bolcheviques de Novembro de 1917!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo

Belicistas NATOs


A Cimeira da NATO revelou de novo, publicamente, as intensas contradições e disputas entre as velhas potências imperialistas. Não é um facto secundário, nem um mero problema de pessoas ou birras: o terremoto em curso tem bases objectivas profundas.
Reflecte a profundíssima crise do capitalismo. Reflecte o esgotamento dos mecanismos de reprodução do capital e o consequente acirrar das disputas pelos lucros ainda disponíveis. Reflecte a inexorável deslocação do centro de gravidade económico do espaço euro-atlântico para leste. Reflecte o decenal declínio económico e financeiro dos EUA, também face à UE, e simultaneamente o seu poderio militar. A diatribe de Trump contra a Alemanha e o gasoduto que a ligará à Rússia evidenciou que, longe do palavreado sobre «valores» ou «defesa», estão em jogo o poder e as negociatas, com destaque para a energia e armamento. Sempre foi assim. A novidade é que os ralhetes que, em público, eram dados (por todos) aos «países recalcitrantes» atingem agora aliados, em directas televisivas ao pequeno almoço.
Ao contrário da Cimeira dos G7, desta vez houve declaração final. A ilusória recomposição baseou-se na escalada militarista. Os ataques da facção globalista do capital contra Trump são ferozes. O Trilateralista Wolf chama-lhe um «ignorante perigoso» (Financial Times, 10.7.18) que está «em guerra contra a ordem mundial liberal» (FT, 3.7.18). Mas no momento de decidir, todos acompanham Trump, aumentando as despesas militares (públicas) em 266 mil milhões de dólares, que gerarão colossais lucros (privados).
Incluindo a UE dos «valores europeus». Incluindo Tsipras e Costa. Face aos ralhetes, todos aprovam uma Declaração Final que é um monumento à mentira. A NATO comemorou os seus 50 anos com a guerra à Jugoslávia, violando o Direito Internacional e a ONU (hoje presidida pelo então primeiro-ministro português, que deu o seu aval a essa guerra). Destruiu países inteiros, como a Líbia. Sustenta a acção dos fascistas na Ucrânia e Israel. A Colômbia narco-terrorista tornou-se seu membro associado. No que vai de ano, o patrão da NATO violou acordos internacionais sobre o Irão e Jerusalém. Dispara em todas as direcções.
As empresas que comprem petróleo ao Irão deixarão de ter acesso ao mercado dos EUA (New York Times, 26.6.18). Mas a Declaração da NATO tem o desplante de começar proclamando que são «as acções agressivas da Rússia, incluindo a ameaça e o uso da força para alcançar objectivos políticos» que «desafiam a Aliança e minam a segurança Euro-Atlântica e a ordem internacional baseada em regras». O delírio torna-se absurdo quando proclama que «a nossa unidade e solidariedade são hoje mais fortes do que nunca». O cambaleio do presidente da Comissão Europeia antes (!) do jantar de gala não destoou, afinal, na farsa grotesca desta Cimeira.
Mas o assunto é sério. Não se trata apenas de que as despesas belicistas serão roubadas aos povos. A NATO sempre foi um instrumento de dominação do imperialismo dos EUA, e o militarismo alimenta a reacção (externa e interna) e as dinâmicas de guerra. As querelas entre mafias capitalistas em disputa por territórios e riquezas já produziram guerras mundiais. Quem pensa que combate a mafia pagando-lhe tributos está enganado. É urgente exigir: fim à NATO!

(Jorge Cadima, Avante! de 19/7/2018)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Os mordomos da Nato



Pelo seu relevante conteúdo, transcreve-se um artigo de Jorge Cadima, redator de política internacional do jornal "Avante!", de leitura indispensável. 

Mordomos NATO
Na véspera da visita a Portugal do Secretário-Geral da NATO, os Ministros da Defesa e Negócios Estrangeiros publicaram um artigo no Público (25.1.18): uma lamentável posição de submissão e seguidismo, contrária à Constituição de Abril. Conseguem, num mesmo parágrafo, recordar que Portugal é membro fundador da NATO (sem lembrar que foi no tempo do fascismo) e afirmar que «a NATO é, pela história e pelo presente, uma parcela marcante da nossa forma de conceber a Defesa Nacional, integrando o seu código genético». Os genes do passado andam por aí.
O artigo junta a sigla NATO à palavra «segurança». Refere com orgulho que «Portugal é dos maiores contribuintes» para a missão NATO no Afeganistão «com quase 200 militares envolvidos». Mas o que é o Afeganistão ocupado, após décadas de subversão e 17 anos de guerra EUA/NATO? No sábado anterior ao artigo, um ataque talibã matou 22 pessoas e no fim-de-semana seguinte um veículo-bomba matou 100. O New York Times (27.1.18) citando a ONU, diz que ao longo de 2017 morreram em média dez civis por dia, sem recordar que muitos morreram em ataques aéreos dos EUA/NATO. A agência da ONU para os Refugiados (UNHCR) fala em cerca de 2,5 milhões de refugiados afegãos, só no Paquistão e Irão. Segundo outra agência da ONU, a UNODC, a produção de ópio, quase totalmente erradicada no ano anterior à invasão, disparou após 2001, tendo em 2017 a área de cultivo de papoilas aumentado 63% e a produção de ópio 87%. Papoilas afegãs produzem 90% da heroína mundial e o Afeganistão é o país com a maior percentagem de heroinómanos (BBC, 11.4.13). Nos EUA os utilizadores de heroína aumentaram de 189 mil em 2001 para 4,5 milhões hoje (Chossudovsky, globalresearch.ca, 27.1.18). O jornalista A. Vltchek mostra campos de papoilas junto à base dos EUA em Bagram (21stcenturywire.com, 5.8.17). São antigas e bem documentadas as ligações entre os serviços secretos dos EUA e o tráfico de drogas. Quando o artigo diz que «somos [...] produtores de paz e segurança [...] em tantas outras partes do globo», citando concretamente o Afeganistão, é disto que fala.
Todas as guerras NATO geraram tragédias semelhantes, com um rastro de destruição dos Balcãs à Líbia e Médio Oriente. Os ministros anunciam que no «futuro próximo» Portugal irá «reforçar as capacidades, nomeadamente através da aquisição de novas aeronaves de transporte médio e do reforço da nossa capacidade naval» no âmbito da NATO. Entretanto, adia-se investimentos no SNS, transportes públicos ou na prevenção e combate a incêndios. Defendem «que a NATO se mostre cada vez mais preparada para a sua vocação a 360 graus», ou seja, o auto-proclamado ‘direito’ a intervir em toda a parte e sob qualquer pretexto. Mas a NATO é uma ferramenta criminosa de guerra, destruição, mentira e agressão imperialista. Que se acha acima da lei. Querem comprometer Portugal em futuras guerras contra o Irão, a RPD Coreia ou mesmo a Rússia e a China, decididas pelos EUA/Trump? Com que consequências? Para quê?
Não é apenas em matéria de UE que este governo não rompe com políticas contrárias aos interesses do povo e do País. Tal como Tony Blair, há quem no Governo PS queira ser dos mais fiéis mordomos da NATO, agora sob a tutela Trump. É uma tradição antiga nas nossas classes dirigentes, trocar a soberania por um prato de lentilhas. Mesmo que seja, como em 1580, para se submeter a potências em declínio. Em declínio, mas criminosas e perigosas.

(Sublinhado da responsabilidade do blog)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Caminharmos apoiados pelos imprescindíveis


Vivemos tempos marcados por uma latente confusão ideológica, induzida através de uma mentira/ ilusão propagandeada, de forma paradoxal, tanto pela direita como pela "esquerda", visando convencer os desatentos que temos em Portugal um "governo das esquerdas". Claro que a mais elementar coerência exigível no conjunto pensar-dizer-fazer logo nos revela o contraditório entre os que o pensam - desafortunadamente, tantos dos explorados - , os que o dizem - uma chusma de opinadores e comentaristas de serviço nos meios de manipulação de massas - e os que paulatinamente o fazem - um poder de Estado dominado pelos agentes políticos da política de direita, designadamente este governo "socialista" -, assegurando a continuidade da dominação do capital monopolista sobre o povo e o país.   

Intervindo no ciclo de debates realizados sobre a reorganização de 1940/1941 do PCP, o excerto abaixo transcrito é parte da intervenção de José Casanova sobre esse tema, com base na publicação do livro "O IV Congresso, 50 anos depois", de Álvaro Cunhal.
Tratando a questão central da identidade do PCP e em geral dos partidos comunistas - "o alvo primeiro de todas as ofensivas à escala mundial visando a liquidação desses partidos" -, percorrendo as várias fases de agudização do confronto entre comunistas e reformistas ao longo da vida do PCP, tratando as várias tentativas realizadas para a sua descaracterização, José Casanova a finalizar dá a palavra ao próprio autor, lendo um trecho pleno de actualidade, não obstante já terem decorrido duas tumultuosas décadas.
Aí ficam as palavras de ambos, decerto apoios importantes "no tempo que passa" para quantos querem resistir à nova vaga que visa submergir a firmeza político-ideológica dos comunistas. 



"Uma das linhas fundamentais das tentativas, ao longo da história do movimento comunista, para a liquidação dos partidos comunistas é de tentar afastar os partidos comunistas da sua identidade comunista. O IV Congresso, debateu essa questão, não apenas reportando-se ao próprio Partido, mas também a fenómenos semelhantes ocorridos na altura em vários outros partidos comunistas. Abordando a questão, Álvaro Cunhal, sublinha que essas situações, apesar de terem sido decorrência do fim da Segunda Guerra Mundial, não só não são conjunturais, como comportam natureza e significado bem mais profundo. E refere duas experiências e lições verificadas na história do movimento comunista: a primeira que, «entre as concepções e actividade comunista e as concepções e actividade reformistas, pode haver acordos, alianças e acção comum, não fusão ideológica», a segunda que, «quando, em tal ou tal partido, se manifestam tendências reformistas que contrariam aspectos fundamentais da identidade partidária, a situação não é de consagração de tal divergência como característica do Partido, mas de efectivo confronto podendo conduzir à ruptura». Quer isto dizer que não é característica da identidade de um partido comunista «a coexistência dessas duas correntes num processo em que os “consensos” se convertessem em regra».
Como tem sido sublinhado e a experiência mostra, a identidade comunista dos partidos comunistas  é o alvo primeiro de todas as ofensivas à escala mundial visando a liquidação desses partidos. Da mesma forma, as ofensivas internas e os seus objectivos de descaracterização do Partido, sempre vêem nessa identidade o obstáculo principal aos seus desígnios, a marca distintiva que é necessário generalizar para que deixe de o ser. Por vezes simulam, até, ter como alvo apenas um ou outro desses traços identitários, fingindo não saberem que abandonando este ou aquele todos os outros se desmoronariam inexoravelmente.
As ofensivas visando a descaracterização do PCP a partir de 1987 são exemplos claros do que acima é dito. E, como sempre acontece nestas situações ao longo da história, muitos dos que, então, escondiam o seu ataque à identidade do Partido por detrás de um fraseado de «queremos que o Partido seja mais comunista», «queremos que o Partido seja mais forte» - são hoje membros do PS ou do BE, membros do governo Sócrates, deputados ou autarcas do PS ou do BE, etc. etc.
Voltando ao IV Congresso, importa ainda referir que, por essa altura, o Partido vivia um momento alto da sua história, quer na capacidade de intervenção, quer na influência junto da classe operária, dos trabalhadores e dos antifascistas em geral. Informa Álvaro Cunhal que o número de militantes do Partido, na altura, era de mais de 5000, aos quais se juntavam 4000 simpatizantes. Uma força poderosa e em condições de levar por diante as orientações e decisões do Congresso. Como de facto aconteceu.
E apesar dos golpes da repressão e da prisão de numerosos quadros e militantes – que viriam a traduzir-se em grandes oscilações ao longo dos tempos no número de efectivos  – o Partido manteve a sua influência de forma a ser, como foi, «a força determinante na criação de condições políticas que conduziram ao 25 de Abril, ao levantamento popular que se seguiu ao levantamento militar – e que confirmou a justeza da consigna do IV Congresso - e às grandes conquistas democráticas da Revolução».
Termino com uma longa mas notável citação de Álvaro Cunhal, da qual ressalta a sua inabalável confiança - confiança no Partido, nas massas trabalhadoras, no futuro; confiança sólida, porque fundamentada na análise da realidade.
Ouçamo-lo:

«A história ensina e a previsível complexidade da evolução da situação internacional e nacional adverte. O capitalismo tem força económica e formas poderosas de pressão e influência ideológica. A URSS desapareceu. No movimento comunista manifestam-se dúvidas e hesitações. Alguns partidos comunistas abandonam a sua identidade comunista. Uns transformam-se em partidos social-democratas. Outros desapareceram.
O capitalismo sobrestima e absolutiza entretanto o alcance histórico destes acontecimentos ao concluir que a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados (um “ideal generoso”, condescendem alguns) era um projecto irrealizável, era uma utopia. E cantam a “vitória histórica” do capitalismo que têm por definitiva.
A realidade porém é outra. O capitalismo atravessa uma crise profunda e confirma, não só ser incapaz de resolver os problemas da humanidade, como a sua política conduz a agravá-los.
A ideologia do capitalismo revela um misto de ilusão acerca dos seus méritos e de consciência dos seus pecados. Nunca ideólogos e propagandistas definiram de maneira tão falsa e idealizada as características, as realidades e as perspectivas de desenvolvimento da sociedade, como fazem os novos teóricos e propagandistas do capitalismo.
O capitalismo ter-se-ia superado a si próprio. Teria deixado de ser capitalismo, para ser agora “economia de mercado”. Já não haveria capitalistas mas “empresários”. Seria um “capitalismo civilizado”, sem classes antagónicas, um capitalismo sem proletários, sem luta de classes, nem natureza de classe de governos e de políticas, seria uma sociedade nova definitiva e final constituída por cidadãos conscientes, cordatos e mutuamente solidários, aceitando, assinando e cumprindo “pactos de regime”, “pactos sociais”, “pactos” e mais “pactos” pelos quais os cidadãos trabalhadores (agora dizemos nós) aceitariam renunciar a direitos fundamentais e vitais. Ou seja, ser explorados pelos cidadãos capitalistas e os cidadãos capitalistas continuarem a explorar os trabalhadores e a justificar-se perante a opinião pública através dos seus fantasiosos teorizadores.
A fantasia é tanta, a sociedade assim falsamente descrita é tão idealizada e irrealista no seu presente e na perspectiva do seu futuro, que se pode dizer que o capitalismo, desacreditado e abalado por uma crise profunda, inventa a sua própria utopia. Não como projecto de mudança, naturalmente, mas como mudança de linguagem pretendendo ocultar a realidade.
E a realidade é que o capitalismo mantém a sua natureza exploradora, opressora e agressiva. Contra ele, a luta dos trabalhadores e dos povos, continua e recrudesce. Os trabalhadores não podem dispensar um partido completamente independente dos interesses e da influência ideológica da burguesia e corajoso, dedicado e convicto.
O ideal comunista, esse não é uma utopia. Continua a ser válido e com futuro. Onde desapareçam partidos comunistas, os trabalhadores e os povos criá-los-ão de novo, com esse ou outro nome, com inevitáveis diferenças, mas com essas características essenciais.
Trata-se de uma necessidade e inevitabilidade da evolução social. Não é ao capitalismo mas ao comunismo que o futuro pertence.» 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Álvaro Cunhal (10 Novembro 1913 - 13 Junho 2005)


(...) A estrutura socioeconómica do capitalismo monopolista é a determinante da exploração dos trabalhadores e da maioria esmagadora da população, da degradação da situação social, da ausência de uma política cultural democrática, da limitação às liberdades e direitos dos cidadãos e das medidas de violenta repressão. No tempo do fascismo como actualmente.

Negar, ocultar, ignorar ou omitir esta realidade objectiva da economia capitalista é criar fortes ilusões e deixar terreno mais livre à consolidação e mesmo institucionalização em termos constitucionais do poder económico e político efectivo do capital financeiro, dos grandes grupos económicos, das transnacionais.

A actual restauração do capitalismo monopolista e do poder dos monopólios (uma vez mais associados em posição de subalternidade ao capital estrangeiro) e dos latifundiários não encerra porém a história. O futuro de Portugal democrático e independente exigirá que tal estrutura não se solidifique, sofra limitações, seja combatida e seja finalmente superada e substituída.(...)

(Trechos do prefácio de Álvaro Cunhal para o I volume da edição dos materiais do IV Congresso do PCP,  da parte intitulada "A estrutura socioeconómica determinante da política do poder",  publicados em "O Militante", Nº 283 - Jul/Ago 2006.)


sábado, 21 de janeiro de 2017

Para os marxistas-leninistas, 93 anos depois, continua uma efeméride dolorosa.








No dia 21 de Janeiro, há 93 anos, morreu Lenine. Tinham decorrido escassos seis anos após a Revolução de Outubro de 1917, a sua mais brilhante realização como o principal dirigente do Partido Comunista, o Partido de Novo Tipo criado com o seu enorme e inapagável contributo ideológico, político e organizativo.

Transcreve-se o primeiro trecho das Recordações de Máximo Gorki, publicadas pela primeira vez em 1924, sob o significativo título "O Homem".

"Vladimir Lénine está morto.
Mesmo entre as hostes dos seus inimigos, alguns o reconhecem lealmente: na pessoa de Lénine, o mundo perdeu o homem “que entre todos os grandes homens seus contemporâneos, era a mais viva encarnação do génio”. 
o jornal burguês alemão Prager Tageblatt, publicou sobre Lénine um artigo impregnado de uma admiração respeitosa diante dessa figura colossal, que terminava assim: 
“Na própria morte Lénine parecia grande, inacessível e terrível». 
Vê-se pelo tom do artigo que ele não é inspirado por esse prazer fisiológico expresso cinicamente neste aforismo: “o cadáver de um inimigo cheira sempre bem”, nem pela alegria que as pessoas sentem quando um grande homem turbulento os deixa – não, o orgulho do homem pelo homem ressoa altivamente nesse artigo. 
A imprensa dos emigrados russos não encontrou em si nem a força nem o tato para falar da morte de Lénine com o respeito que demonstraram os jornais burgueses nos seus julgamentos acerca de um dos maiores representantes da vontade de vida e da intrepidez da razão. 
É difícil traçar-lhe o retrato. Lénine, exteriormente, era todo palavras como o peixe é, exteriormente, todo de escamas. Era simples e reto como tudo aquilo que dizia. 
O seu heroísmo era quase totalmente desprovido de brilho aparente; era feito dessa abnegação modesta, ascética, frequente no honesto intelectual-revolucionário na Rússia, que tem uma fé inquebrantável na possibilidade da justiça social sobre a terra; o heroísmo do homem que renunciou a todas as alegrias do mundo para trabalhar duramente a favor da humanidade (...)".

A versão integral destas Recordações, publicadas em duas partes e cuja leitura vivamente se recomenda, está publicada aqui:
http://www.aaweb.org/pelosocialismo/index.php?option=com_booklibrary&task=view&id=1099&catid=48&Itemid=17

terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma lição intemporal. Lénine e as formas de luta.


"Comecemos pelo começo. Quais são as exigências fundamentais que qualquer marxista deve apresentar ao exame da questão das formas de luta? Em primeiro lugar, o marxismo distingue-se de todas as formas primitivas de socialismo pelo facto de ele não amarrar o movimento a qualquer forma determinada e única de luta. Ele reconhece as mais diferentes formas de luta, e além disso não as «inventa», mas apenas generaliza, organiza, dá consciência àquelas formas de luta das classes revolucionárias que surgem por si no curso do movimento. Absolutamente hostil a todas as fórmulas abstractas, a todas as receitas doutrinárias, o marxismo exige uma atitude atenta em relação à luta de massas em curso, a qual, com o desenvolvimento do movimento, com o crescimento da consciência das massas, com a agudização das crises económicas e políticas, gera métodos sempre novos e cada vez mais diversos de defesa e de ataque. Por isso o marxismo não renuncia absolutamente a nenhumas formas de luta. O marxismo não se limita em nenhum caso às formas de luta possíveis e existentes apenas num dado momento, reconhecendo a inevitabilidade de novas formas de luta, desconhecidas dos participantes do período dado, com a modificação da conjuntura social dada. O marxismo neste aspecto aprende, se assim nos podemos exprimir, com a prática das massas, está longe da pretensão de ensinar às massas formas de luta inventadas por «sistematizadores» de gabinete.(...)
 
Trata-se do 1º parágrafo de um texto de Lenine, escrito em 1906, sobre a adopção ou não das formas de luta armada pelo Partido dos comunistas russos, onze anos antes da grande Revolução de Outubro de 1917, cujo conteúdo integral está aqui: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1906/09/30.htm
 
Discutindo a aplicação da guerra de guerrilhas à luta dos comunistas, este texto é uma magnífica e intemporal lição para todos nós, seus herdeiros ideológicos, cujo dever indeclinável é avaliar todas as formas de luta nas condições concretas dadas e, simultaneamente, não "perdendo o pé" da realidade e não rejeitando qualquer forma de combate por sujeição a "receitas doutrinárias" e razões alheias à obrigação básica dos revolucionários - fazer a revolução. 
 
Seguindo estes preciosos ensinamentos de Lenine, para quem combate as concepções oportunistas de direita, defendidas por falsos marxistas-leninistas que propagandeiam a via reformista parlamentar burguesa para o Socialismo, para todos quantos temos por objectivo a liquidação do sistema capitalista e a sua substituição por um sistema novo, socialista e comunista, duas preposições são certamente  básicas: a) a revolução não é só um momento insurrecional e de viragem radical e transformadora, mas sim um processo político revolucionário contínuo, em ligação dialéctica com a marcha dos povos; b) neste processo revolucionário - com períodos de ascenso/descenso e intensidade diferenciados no tempo mas sem divisórias artificiais, conceptualizadas pelos referidos "sistematizadores de gabinete" dos tempos actuais - as formas da luta política das massas trabalhadoras e populares vão sendo adequadas às condições existentes (objectivas e subjectivas), sem exclusão "à priori" de nenhuma delas.
 

sábado, 5 de março de 2016

Tatiana Khabarova e a importância da Filosofia na luta de classes


No combate político das classes, parte importante da luta ideológica que os comunistas travam fundamenta-se nos alicerces filosóficos do marxismo-leninismo.
Daí o interesse da publicação deste novo texto de Tatiana Khabarova (Secretária-coordenadora da Plataforma Bolchevique no PCUS, doutorada em Ciências Filosóficas)  intitulado "O marxismo e o bolchevismo na URSS pós-Stáline: torpor e ruptura",  proferido em 4 de Dezembro de 2009.

Texto integral aqui http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt/o-marxismo-e-o-bolchevismo-na-urss-45473


(...) III - Falemos agora daquilo a que, no nosso trabalho de esclarecimento, infelizmente, não prestamos a devida atenção: trata-se de questões propriamente filosóficas. Isto apesar de ser doutorada não em ciências económicas, mas filosóficas, e apesar no campo da filosofia terem sido colocados tantos paus na engrenagem, ao longo da guerra informativa-psicológica, que pela sua nocividade não ficaram muito atrás das «reformas» de Liberman ou do «Programa» de construção do comunismo até 1980.
Perguntareis: mas que malandrice se pode fazer na filosofia? Há muitas malandrices que se podem fazer. Não foi por acaso que V.I. Lénine escreveu o livro Materialismo e Empiriocriticismo nas vésperas da revolução russa.
Comecemos com uma pergunta: o que é que aconteceu na filosofia em meados dos séculos XIX, com o surgimento e afirmação do marxismo?

Aconteceu uma das mais importantes transformações em mais de dois séculos da sua história: tornou-se um sistema de conhecimento político-prático de «Estado». Cumpriu-se a predicação de Platão, grande pensador da antiguidade, que na sua obra, A República, escreveu:

«Enquanto os filósofos não forem reis nas cidades, ou aqueles que hoje denominamos reis e soberanos não forem verdadeira e seriamente filósofos, enquanto o poder político e a filosofia não convergirem num mesmo indivíduo, enquanto os muitos caracteres que actualmente perseguem um ou outro destes objectivos de modo exclusivo não forem impedidos de agir assim, não terão fim (…) os males das cidades».

Desde tempos imemoriais que a humanidade se coloca o problema da «união entre o poder e o conhecimento». Era indiscutível, em termos genéricos, que o poder devia ter a bênção da razão e apoiar-se na sua autoridade. Mas qual seria a natureza desse conhecimento, do qual imanasse a sanção da racionalidade e espiritualidade das instituições políticas e das acções políticas?
Durante milhares de anos a religião desempenhou a função de apoio intelectual e espiritual do poder. Mas no final do século XVIII – o século do iluminismo – o papel do pensamento religioso enquanto princípio racional da prática sociopolítica não só estava esgotado como seriamente comprometido, e as suas pretensões de continuar a orientar os processos sociopolíticos foram definitivamente rejeitadas.
Ao surgir na boca de cena da história mundial, a burguesia chamou a si as «ciências positivas» – as ciências naturais – com aliado prático-ideológico. Assim, segundo Sant-Simon, era necessário «terminar a revolução com o estabelecimento de um novo sistema político, baseado na indústria, como novo elemento temporal, e nas ciências experimentais, como novo elemento espiritual», confiar o poder temporal aos industriais e o poder espiritual aos cientistas.
Aliás, as «ciências positivas», logo às primeiras tentativas, revelaram-se não estar à altura da missão de «novo poder espiritual». Faltam-lhe claramente aquilo que permitiu à religião conservar durante tanto tempo o seu carácter insubstituível e indispensável: o debruçamento sobre o mundo interior do indivíduo e os seus princípios morais, sobre a questão do sentido da existência humana, tanto individual como colectiva.
Ludwig Feuerbach, o precursor mais próximo do marxismo captou e exprimiu com grande precisão a tendência da sua época: a concepção religiosa da organização harmoniosa e justa da sociedade como «reino de deus» devia «descer do céu à terra», transformar esse reino, como afirmou Feuerbach, «de objecto de crença inútil e passiva em objecto de actividade humana», em objecto da luta revolucionária determinada por um futuro melhor.

E finalmente ecoou a definição de Marx de revolução proletária como a grandiosa histórico-universal «emancipação do homem»: «A filosofia é a cabeça desta emancipação e o proletariado o seu coração». E assim foi continuado o caminho da filosofia para a sua reunião com o poder de Estado.
Os fundadores do comunismo científico basearam-se no sistema de Hegel que, naquele tempo, constituía inquestionavelmente o cume do conhecimento filosófico, apesar de ter sido necessário «virá-lo dos pés à cabeça» de forma materialista. No que respeita ao método dialéctico de Hegel, as suas possibilidades heurísticas eram literalmente de cortar a respiração.
Nem V.I. Lénine nem I.V. Stáline se desviaram minimamente destas clarividentes indicações marxistas; nem um nem outro eram iletrados em filosofia, como tentam hoje apresentá-los; nada disso, ambos ombreiam com Platão e Hegel. Como rejubilaria Platão ao ler a primeira frase do texto de Stáline Sobre o Materialismo Dialéctico e o Materialismo Histórico: «O materialismo dialéctico é a concepção do mundo do partido marxista-leninista».
Ora o partido é a força dirigente do Estado. Eis pois unidos num todo o poder estatal e a filosofia. Em dada altura apresentaram as formulações de Stáline como óbvias e entediantes até ao bocejo, como uma espécie de tabuada. Mas na realidade trata-se de uma elaboração conceptual de enorme dimensão e importância.
Ouçamos mais um pouco Stáline.

«O materialismo histórico é a aplicação das teses do materialismo dialéctico ao estudo da vida da sociedade e dos seus fenómenos, ao estudo da sociedade».
«Não é difícil compreender a enorme importância da generalização dos princípios do método dialéctico ao estudo da vida social, ao estudo da história da sociedade, a enorme importância da sua aplicação à história da sociedade e à acção prática do partido do proletariado». 
«Se o mundo está em incessante movimento e desenvolvimento, se a lei deste desenvolvimento é a agonia do que é velho e o crescimento do que é novo, então é claro que não há regimes sociais “inabaláveis”, “princípios eternos” da propriedade privada e da exploração ou “ideias eternas” de submissão dos camponeses aos latifundiários e dos operários aos capitalistas.
«Isto significa que o regime capitalista pode ser substituído pelo regime socialista, tal como o regime capitalista substituiu no seu tempo o regime feudal.
«Isto significa que devemos orientarmo-nos não para aquelas camadas da sociedade que esgotaram o seu potencial de desenvolvimento, muito embora representem no momento actual a força dominante, mas para as camadas sociais que se desenvolvem e têm futuro, apesar de não representarem no momento actual a força dominante.»
«Se a passagem das mudanças quantitativas lentas às mudanças qualitativas rápidas e bruscas constitui uma lei do desenvolvimento, então é claro que as transformações revolucionárias realizadas pelas classes oprimidas constituem um fenómeno absolutamente natural e inevitável.
«Isto significa que a passagem do capitalismo ao socialismo, e a emancipação da classe operária do jugo capitalista, pode realizar-se (…) não por via de reformas, mas unicamente por via da transformação qualitativa do regime capitalista, por via da revolução.(…)
«Se o desenvolvimento se efectua por via da revelação das contradições internas, por via da confrontação de forças opostas que estão na base destas contradições com vista à sua superação, então é claro que a luta de classes do proletariado constitui um fenómeno perfeitamente natural e inevitável.
«Isto significa que não se deve dissimular as contradições do regime capitalista, mas sim revelá-las e expô-las, não se deve abafar a luta de classes, mas sim levá-la até ao fim.
(…) É preciso seguir uma política proletária de classe intransigente, e não uma política reformista de harmonia de interesses entre o proletariado e a burguesia, e não uma política conciliadora de “integração” do capitalismo no socialismo».

A geração mais velha recorda-se e a juventude de esquerda deve saber que este magnífico trabalho de I. V. Stáline foi sujeito à mais bárbara difamação após a sua morte.
«Rotineiro», «escolástico», «dogmático», «primitivo» e outras invencionices dos sobreviventes ideológicos que, graças a Khruchov, chegaram a postos de direcção e acederam às páginas da imprensa de grande tiragem, já sem necessidade, em grande medida, de se fingirem revolucionários e «marxistas-leninistas».
Mas se era assim tão «primitivo», então para quê massacrá-lo dessa forma? Deixassem-no em paz e dedicassem-se à «ciência autêntica». Mas qual? Aferraram-se como cães raivosos. Naturalmente não porque estavam perante algo rotineiro e primitivo, mas precisamente porque se tratava da própria lógica da acção revolucionária de classe do proletariado, cujo domínio tornaria invencível o estado proletário.

A partir de meados dos anos 60 (se não antes) a nossa filosofia académica aplicou-se afincadamente em fazer tombar a ciência filosófica soviética das alturas estratégicas, em que se podia consolidar historicamente graças aos trabalhos dos marxistas convictos V.I Lénine e I.V. Stáline.
Agitaram toda sujidade e lixo que os ideólogos burgueses dos mais diversos matizes haviam lançado sobre o marxismo, desde que compreenderam que a revolução das massas laboriosas tinha adquirido uma filosofia de altíssimo quilate como sua cabeça.
Em grande medida, é precisamente à direcção académica (todos esses Fedosséiev, Rumiántsev, Mitíne, Konstantínov, Kedrov, Egorov e outros da sua igualha) que o partido e o povo devem o facto de, no auge da guerra informativa-intelectual, a nossa sociedade ter perdido completamente a perspectiva estratégica, historicamente objectiva, e, em vez do comunismo planeado, nos termos encontrado na situação ignominiosa de um país destroçado, desmantelado em que se consumou e consolidou a sua ocupação.
Olhemos num relance para estas quase três décadas deste frenesim anti-stalinista que nos conduziu a semelhante fim. Falamos de anti-stalinismo, mas tal significa também anti-leninismo e anti-marxismo.
Stáline afirmou que a filosofia materialista dialéctica é a concepção do mundo do nosso partido. Ripostaram que tal era impossível e nunca poderia acontecer. Exactamente porque, diziam, a filosofia em geral não é de modo algum uma concepção do mundo. Como assim?
Pois foi assim. E começaram a agitar nas páginas das prestigiadas publicações académicas, das tribunas das conferências nacionais e internacionais, pedaços de velharias positivistas com mofo de cem anos, para demonstrar que a filosofia não é uma ciência sobre o mundo no seu todo, mas apenas sobre o conhecimento; é a teoria do conhecimento, a gnoseologia.
Um desses «académicos» chamado Kedrov esforçou-se de todas as maneiras para inundar a imprensa académica e partidária com este disparate. O próprio Lénine teria dito que não era preciso três palavras: dialéctica, lógica e gnoseologia. Tudo isso era a mesma coisa. E a dialéctica seria o mesmo que materialismo dialéctico: portanto, o materialismo dialéctico seria a gnoseologia, a teoria do conhecimento.

Bom, em primeiro lugar, o materialismo dialéctico não é de todo a mesmo coisa que a simples dialéctica. Como referiu Stáline, mais uma vez, a filosofia materialistadialéctica inclui, para além do método dialéctico, também a interpretação materialista dos fenómenos da natureza, a teoria materialista.
Em segundo lugar, quando falou da «inutilidade de três palavras», Lénine referia-se a uma coisa totalmente diferente. Quis dizer que na velha lógica formal, que analisa o conhecimento estático, «parado», imobilizado, era necessária ainda uma disciplina específica que analisasse o conhecimento em movimento, ou seja, em correlação com o objecto exterior, uma vez que sem se correlacionar com o objecto, o conhecimento não pode avançar. Esta disciplina especial é a gnoseologia.
Mas quando tomamos a nova lógica dialéctica, não precisamos de quaisquer complementos, uma vez que, por definição, ela analisa logo o conhecimento em desenvolvimento, numa correlação permanente com o objecto. Então o mundo objectivo por si próprio expõe-se à análise numa correlação permanente com o conhecimento humano e com outros tipos de representação. Segundo V.I. Lénine, a dialéctica enquanto lógica torna-se na «doutrina não das formas exteriores do pensar, mas das leis do desenvolvimento “de todas as coisas materiais, naturais e espirituais”, isto é, do desenvolvimento de todo o conteúdo concreto do mundo e do seu conhecimento.»
Vejam pois a intrujice: V.I. Lénine mete-lhes sob o nariz que a dialéctica é uma lógica com conteúdo, é a ciência sobre as leis do desenvolvimento de todas as coisas materiais, naturais e espirituais; eles em resposta repisam arrogantemente que a dialéctica é a teoria do conhecimento. E chegaram ao descaramento de nomear este palavreado de Kedrov como candidato ao Prémio Lénine.
                                         
Mas não ficaram por aqui. Tentaram demonstrar que o materialismo-dialéctico não pode ser a concepção do mundo do partido, desde logo porque, por princípio, não pode ser uma concepção do mundo. Sim, não se admire quem ouvir isto pela primeira vez. Com toda a seriedade, foram arrastando esta fantasia na revista Voprossi Filosófii. Não pode haver nenhuma concepção do mundo porque o mundo não existe como um todo.
Ora Stáline tinha escrito que «a dialéctica concebe a natureza não como uma acumulação acidental de objectos e fenómenos, desligados e isolados uns dos outros e não dependentes entre si, mas como um todo interligado e uno».8 Se Stáline tivesse escrito que o Volga desagua no Mar Cáspio, eles teriam demonstrado que o Volga desagua no Oceano Pacífico.

Poderão pensar, mas que diferença nos faz que o mundo exista ou não como um todo? Isso está muito longe da prática real da vida. Não, não está. Tudo isto está o mais perto possível da prática real da vida.
Se o mundo não existe como um todo, então não existe «um processo mundial uno», ao qual Lénine constantemente se referiu, não existe também «a universal conformidade a leis da Natureza em perpétuo movimento e desenvolvimento» (aliás esta formulação é também de Lénine), que penetra «de baixo a cima» toda a existência quer natural, quer social. Ora toda a doutrina marxista fundamenta-se exactamente nessa ideia de conformidade com as leis naturais, na ideia de que o comunismo não só é objectivamente alcançável, mas também objectivamente inevitável, pois decorre logicamente da «dialéctica objectiva como princípio de todo o ente» (é outra formulação de Lénine). E se logicamente, cientificamente, [o comunismo] não decorre de nada, então não pode decorrer, o que significa que alguém se enganou, e que o facto de terem tentado construí-lo na Rússia durante 70 anos não passou de uma loucura, de um ziguezague acidental na história, cujas raízes devem ser extirpadas, a sua memória apagada da memória das pessoas e ponto final.

De modo que, queridos amigos, a filosofia é uma ciência ardorosamente partidária, e não devemos enganar-nos com a sua aparentemente abstracção da azáfama mundana, tal como não se enganaram Lénine e Stáline. Ontem, algures no Instituto de Filosofia, zonzonavam contra a ideia de mundo como um todo, ninguém prestou atenção; hoje esse zonzom pode ter tais consequências que nos arrependeremos cem vezes por não termos dado ouvidos na altura própria.
Outra incursão anti-stalinista (vão todas no mesmo sentido) é a negação de toda a possibilidade de realizar uma sólida base cognitiva teórico-filosófica sobre a ideia da construção do socialismo e do comunismo, de modo a que, como afirmou Stáline, o socialismo deixe de ser um sonho sobre um futuro melhor da humanidade e se transforme numa ciência. 
Isto é um latido contra o materialismo histórico, definido por Stáline como a generalização das teses do materialismo dialéctico ao estudo dos fenómenos da vida social, e por Lénine, como a finalização de todo o edifício da filosofia materialista dialéctica marxista.
                                          
Lembrem-se com que êxtase (não há outra palavra) Stáline enumera as perspectivas que se abrem ao conhecimento social e à acção prática do partido do proletariado graças à aplicação dos princípios da dialéctica materialista.

Cai o dogma da «intangibilidade» dos regimes sociais exploradores, e tudo passa a ficar assente num sólido fundamento científico: a inevitabilidade de transformações revolucionárias realizadas pelas massas oprimidas, a substituição do capitalismo pelo socialismo, a legitimidade da luta de classe do proletariado e da revolução proletária, a rejeição da política conciliatória da «transformação» do capitalismo em socialismo, a linha da revelação e resolução corajosa das contradições dialécticas internas do desenvolvimento social. E não só nos países capitalistas, mas também no socialismo, como Stáline acrescenta com firmeza na obra Problemas Económicos do Socialismo na URSS.
E que pode contrapor o inimigo de classe, declarado ou oculto, a esta representação, em que as pessoas do trabalho adquirem uma arma eficaz temível, desenvolvida nos vários aspectos, para a sua luta emancipadora e transformação edificante do mundo?
Nada, à excepção de esforços furiosos para nos retirar essa arma conceptual das nossas mãos; o que foi e continua a ser hoje o objectivo e missão principal da guerra psico-informativa.
Por exemplo, a propósito do materialismo histórico, precisam de gritar incessantemente, até à histeria, que Stáline e Lénine são tamanhos monstros que de forma alguma se pode admitir a generalização da dialéctica materialista ao estudo da vida da sociedade. Que o materialismo histórico é meramente uma das ciências sobre a sociedade e não de todo a conclusão até ao topo da doutrina filosófica marxista.
A própria dialéctica como «doutrina sobre o desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e isenta de unilateralidade» foi substituída pela «teoria do equilíbrio» de Bogdánov-Bukhárine, agora «modernamente» designada de abordagem sistémica.
Para tal, divagaram longa e persistentemente em torno da noção de desenvolvimento, para lhe retirar o estatuto de «processo mundial uno», de «movimento em geral», de forma universal de movimento da matéria. Alegam que, além do desenvolvimento, muito mais acontece no mundo; sob um ponto de vista, o desenvolvimento parece ser um processo universal, mas, sob outro ponto de vista, é apenas um momento de estados estáveis, em equilíbrio. Assim, não será melhor tomar como fundamento estes estados de equilíbrio, homeostáticos?

No que respeita à contradição dialéctica como «fórmula» estrutural do desenvolvimento, tal como as leis de Newton no seu conjunto constituem a «fórmula» do movimento mecânico, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, nem se podia pensar sequer em aplicar seriamente este esquema, digamos, à economia política, como fez Stáline.
O ritual era o seguinte: num artigo «orientador» do Pravda ou num editorial de uma revista teciam-se falsos louvores, considerações vazias sobre a contradição, depois enchia-se meia revista com textos em que se demonstrava que as contradições agem apenas na esfera do conhecimento, na realidade objectiva não existem, ou se apresentava como contradição uma coisa qualquer que nada tinha a ver com a dialéctica ou com o simples bom senso.
Repito, arrancaram das mãos do partido e do povo a única arma que poderia trazer a vitória na guerra informativa-psicológica. E quando sentiram que tinham alcançado o seu objectivo, que tinham enchido as mentes de uma parte do povo com o seu lixo «filosófico», não se coibiram de troçar dele, do povo. A César o que é de César, ao serralheiro o que é do serralheiro. Assim motejava um grupo de «cientistas», liderado pelo doutor em ciências históricas Chkaratan, no jornal Izvéstia, de 25 de Outubro de 1989.

Lembrem-se de que o «Breve Curso de História do PCU(b)» era um manual político de massas. Só um «tirano» como Stáline foi capaz de explicar aos serralheiros e demais povo simples como se processava o desenvolvimento mediante a revelação das contradições internas ou quais eram as leis naturais da libertação da opressão capitalista. E para que precisam os serralheiros disso?
Eis o que escreve o conhecido economista Chmeliov no Literaturnaia Gazeta, de 26 de Julho de 1989: «As pessoas vivem mais facilmente com a chamada moral pequeno-burguesa do que com ideias “grandiosas e inspiradoras”». «Na sua essência toda a probidade humana é uma moral pequeno-burguesa. Ela não se guia pela aspiração de transformar a humanidade. E qual é o problema? Será que só é bom o que conduz às barricadas?». «Não bebas, não batas na mulher, não te assoes à toalha quando te convidarem para jantar» – pois, nem mais nem menos, estes são alguns exemplos de «valores humanos eternos», segundo Chmeliov.
Nós inquietamo-nos: mas por que razão o povo se degradou tanto, donde lhes vem essa falta de espiritualidade, esse cinismo, essa malvadez, essa vulgaridade pequeno-burguesa manifesta? Com efeito foram contagiados há 30 anos com a colaboração activa de diferentes «literatos», se assim posso dizer, de jornais e doutores de todas as ciências possíveis. Mas o povo não se deixará facilmente encher de sarna. Será muito mais fácil livrar o país das ovelhas sarnosas do que retirar ao povo «as ideias grandiosas e inspiradoras».

(...)É claro que será preciso regressar a tudo isto com a máxima a urgência e persistência. Quanto tempo se poderá continuar a enganar as pessoas, como se não houvesse solução para estas questões complexas, quando na realidade essa solução existe, está completamente preparada? Camaradas, a tarefa prioritária que temos pela frente é traçar com honestidade, rigor e objectividade o quadro da resistência popular comunista ao longo de toda a guerra psicoinformativa. Sem isso, nada conseguiremos… De modo que apelo a todos aqueles que compreendem o sentido e objectivo do que foi dito aqui a renunciarem ao papel de observadores externos. Apelo a colaborarem activamente connosco, de forma benevolente e corajosa, para realizarmos a tarefa que acabamos de apontar. Sem resolvermos esta questão, simplesmente não poderemos sair do beco em que nos encurralaram desde o final dos anos 80, e fizeram-no de forma bastante engenhosa.